Et in Arcadia…

Uma tentativa de apresentar a Arte como a afirmação da vida.

O MINIMALISMO POÉTICO DE GIUSEPPE UNGARETTI E DEE DEE RAMONE

 

Dee Dee Ramone

“Sim. É issó aí. Pode crer. Isso mesmo. Falou e disse!”

Antes de tudo, aviso ao leitores que, sim, estou de volta! Uma série de obrigações me impossibilitou de publicar artigos com um mínimo de qualidade nos últimos 9 meses, mas, agora, posso assegurar que voltarei a publicar meus artigos de qualidade mínima para todo mundo ler e criticar, ou não ler e só criticar mesmo. E chega de enrolação, pois a postagem de hoje é sobre autores que usam poucas palavras!

Há poetas que são capazes de manter uma obra de qualidade imensa ao longo de milhares de versos, como Dante Alighieri na Divina Comédia, Torquato Tasso na Jerusalém Libertada ou Luis de Camões n’Os Lusíadas. E, por mais que seja perfeitamente possível dedicar horas e horas de prazer na leitura dessas obras, há momentos de nossas vidas no qual poucos versos, do tamanho e da duração de uma rara epifania, são exatamente aquilo de que precisamos. E eu garanto ao leitor que ele achará essas epifanias nos versos de Giuseppe Ungaretti e de Dee Dee Ramone.

Ungaretti (1888-1970) foi um poeta italiano com uma vida conturbada. Ele nasceu em Alexandria, no Egito, e depois viveu na França antes de voltar ao país de sua família, bem a tempo de, com todo o fervor nacionalista de sua geração, se voluntariar para lutar na Primeira Guerra Mundial. E, de fato, ele serviu nas trincheiras até o dia da vitória italiana. Mas sua vida não foi particularmente alegre: ao voltar para Paris para comunicar a vitória da Tríplice Entente, Ungaretti, depois de anos de sofrimento, encontrou seu amigo, o também poeta Guillaume Apollinaire, morto de febre espanhola, sua viúva velando seu corpo, em seu quarto.

E, após esses episódio, Ungaretti não fez escolhas particularmente sábias. Sozinho, sem dinheiro e com todos os traumas de quatro anos de lutas em trincheiras, ele se tornou correspondente de um jornal emcabeçado por certo agitador social socialista chamado Benito Mussolini. Após alguns anos, Mussolini fundou o partido fascista e Ungaretti foi uma voz que ativamente defendeu o fascismo italiano. Na década de 1930, quando, aliás, ele se tornou professor de literatura italiana na USP (sim, aqui de São Paulo, mesmo!) ele se tornou um ferrenho opositor desse regime, mas o estrago já tinha sido feito e, até hoje, sua reputação foi severamente manchada por esse período da sua juventude. E, para pontuar sua tristeza, em 1939, seu filho de nove anos de idade morreu em São Paulo, após uma apendicite, um fato que o alterou de maneira irreparável e que deixou marcas profundas em sua obra literária.

E, bem, como é, então, a obra literária desse egípcio-italiano que morou em Paris, na América do Sul, lutou por anos na Primeira Guerra Mundial, apoiou e criticou Mussolini? O que tem a dizer uma pessoa que passou por tantas coisas na sua vida? Eu, que esperava ler, de sua pena, poesias épicas e cheias de reviravoltas e personagens mirabolantes, fiquei muito supreso em ver que… sua poesia é a mais concisa que eu já li até hoje! E, opinião deste blogueiro, acho que é necessário que ela seja… há certas coisas pelas quais nós passamos que não podem ser explicadas de maneira lógica, sequencial e racional para outras pessoas. Há certas coisas tão horríveis ou maravilhosas que somente uma epifania podem comunicar. E vamos logo ver alguns poemas dele que traduzido por este que vos fala:

Irmãos

De qual regimento vocês são

irmãos?

Palavra tremendo

na noite

Folha recém nascida

No ar lancinante

Involuntária revolta

Do homem presente à sua

fragilidade

Irmãos.

Como se explica todo o sentimento de camaradagem e a aquela profunda, ainda que oriunda de encontros superficiais, empatia que soldados, irmãos de honra e de desgraça, experimentam? Acho que esse poema o faz muito melhor do que um tese de doutorado poderia fazer. Mas Ungaretti refinou ainda mais o seu estilo de composição poética e o poema a seguir resume a necessidade de se prosseguir com a vida, mesmo após os horrores da guerra:

Alegria de náufragos

E imediatamente recomeça

a viagem

como

após o naufrágio

[o faz] um sobrevivente

lobo do mar

Mas Ungaretti conseguiu sintetizar ainda mais a sua experiência na Grande Guerra quando ele escreveu o seguinte poema que, em 10 palavras, expressa o sentimento de completa impotência, irrelevância e submissão de um soldado aos caprichos da sorte e aos desígnios implacáveis da morte.

Soldado

Se está como

no outono

nas árvores

as folhas

E se Ungaretti não alcançou fama mundial (nunca consegui achar, novo ou em sebo, alguma tradução em português da sua obra), há outro poeta cuja obra minimalista alcançou mais fama no mundo e que, vez ou outra, pode ser ouvida nas nossas rádios: Douglas Colvin, também conhecido como Dee Dee Ramone.
Dee Dee cresceu na Alemanha pós-nazista ocupado pelos Aliados. Filho de um soldado estadunidense e de uma mulher alemã, ele teve uma infância e adolescência marcada por alcoolismo, abandono paterno, violência doméstica e por todas as delícias de se crescer numa cidade completamente destruída pelo maior conflito armado da História. Aos quinze anos de idade, sua mãe, fugindo do marido alcoólatra, foi parar em Nova York, onde, eventualmente, Dee Dee encontraria Johnny, Tommy e Joey e, juntos, inventariam o punk rock.

E, como se essa infância não tivesse sido o suficiente, Dee Dee Ramone passou por uma séria imensa de (des)aventuras: sua primeira mulher tentou esfaqueá-lo depois de receber um sofá seu de presente; ele viu Sid Vicious injetar heroína com água de privada; casou-se com uma fã argentina e montou uma banda com ela; arrependeu-se mil vezes de sua dependência de drogas; foi introduzido ao Hall da Fama do Rock’n’Roll; gravou um CD de rap sob o nome e Dee Dee King e, finalmente, morreu de overdose de heroína aos 50 anos de idade.

Tudo isso daria um livro e, de fato, Dee Dee escreveu uma autobiografia. Mas, nem remotamente, esse é o campo no qual sua produção artística mostrou seu talento. Ao contrário, sua genialidade poética está, justamene, em resumir a tragicomédia de sua vida em pouquíssimos versos num curtíssima canção de punk rock que usa pouquíssimos acordes. Não acredita? Pois veja esta estrofe da canção “Chinese Rocks” (“rochas chinesas” sendo uma gíria para heróina na Nova York de 1970) e você verá como ele resumiu toda a sua vida, o seu talento e sua incapacidade e utlizá-lo para o seu próprio bem, um oito linhas:

O gesso está caindo da parede

Minha namorada está chorando no chuveiro

Está quente pra cacete. Eu deveria ter sido rico,

Mas só estou cavando minha cova chinesa

Estou vivendo de heroína

Todas as minhas melhores coisas estão penhoradas

Estou vivendo de heroína

Está tudo na loja de penhores!”

Uma biografia inteira em 8 versos. Você não precisa de mais nada para entender como é a vida dessa pessoa. Mas Dee Dee Ramone compôs canções ainda mais curtas e mais carregadas de potência emocional. “Now I Wanna Sniff Some Glue”, por exemplo, em quatro versos, pinta, en plein air, o retrato de uma juventude que, ao mesmo tempo, se perde e se consola no uso de drogas recreativas:

Agora eu quero cheirar cola

Agora eu quero ter algo para fazer

Todas as crianças querem cheirar cola

Todas as crianças querem ter algo para fazer

Mas o auge da sua refinação, certamente, está na canção “I don’t Wanna Walk Around With You”, que consiste em somente dois versos diferentes:

“Eu não quero andar com você,

Então por que você quer andar comigo?”

Em resumo, embor, certamente, Giuseppe Ungaretti e Dee Dee Ramone sejam muito diferentes em sua composição artística já que, de fato, eles eram de localidades, período histórico, classes sociais, preferências artísticas e realidades completamente diferentes, há um ponto nos qual eles se aproximam: a necessidade de expressar histórias longas e complexas no menor número possíveis de versos. E, de fato, há experiências que são tão profundas que, possivelmente, elas se transmitem melhores em poucos versos, em epifanias carregadas de amor, desespero, euforia e o que seja. E, para encerrar este post, deixo ao leitor um poema de Ungaretti que explica da melhor maneira possível esse momento raro no qual, mesmo que por poucos segundos, somos capazes de nos conectarmos de maneira profunda com indivíduos que jamais conhecemos. Esse poema, que eu traduzi – e peço perdão por começar uma frase com uma próclise, mas é assim que começa o original – se chama “Mattina”:

Manhã

Me ilumino

de imensidão

TL;DR: “Não sou o poeta do abandono às delicias do sentimento. Sou um habituado a lutar e, devo confessar – a idade está levando embora um pouco do remédio – sou um violento: desdenho e coragem de viver. Vontade de viver, não obstante a tudo, cerrando meus punhos, não obstante o tempo, não obstante a morte.” Giuseppe Ungaretti… mas também se aplica a Dee Dee Ramone

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A Cidade sem Pecados

Na semana passada, dois monumentos populares de São Paulo amanheceram pichados: a estátua de Manuel de Borba Gato, o Borba Gato de Santo Amaro, e o Monumento às Bandeiras, vulgo “Deixa que Nóis Empurra”, do Ibirapuera. De maneira sucinta, pode-se dizer que esses monumentos, dedicados aos bandeirantes paulistas, foram pichados devido ao fato de que, entre outras coisas, os bandeirantes escravizavam índios e caçavam escravos negros.

Opiniões a favor e contra a pichação surgiram aos montes e cada uma tem o seu mérito. Uma delas, porém, a do blog do Sakamoto, pela sua ausência de contextualização histórica e irritante simplicidade argumentativa,  me fez parar e escrever este post.

O Sakamoto é conhecido por escrever alguns posts excessivamente simplistas em suas análises sociais e em atribuições de culpa. De fato, ele já afirmou que as pessoas no Brasil são assaltadas porque ostentam (ignorando o fato de que muito mais pobres são vítimas de assalto do que ricos ) e que criou uma caricatura preconceituosa e racista para demonizar a classe média brasileira: o Coxeco, reduzindo a realidade e o sofrimento de milhões de pessoas no Brasil a um estereótipo preguiçoso e sem conexão com a realidade.

Aqui faço um parêntese para notar que o Sakamoto apagou o seu post no qual ele apresentava o Coxeco, uma coxinha antropomórfica loira e de olhos azuis, que usa um relógio Rolex e que, dirigindo um automóvel, espirra água na cara da população pobre; o link atual resulta num erro 404 de página não encontrada. Para a infelicidade do doutor em Ciências Políticas pela USP, porém, a internet nunca esquece e ainda é possível, graças ao Internet Archive, acessar o seu post infame. Pensei em comentar perguntando ao autor de que maneira essa caricatura contribuiria para o reparo do diálogo na nossa sociedade fragmentada, mas dá-se o fato de que o dono de um dos blogs mais acessados do Brasil decidiu desabilitar a opção de comentários.

coxeco

Leonardo Sakamoto é doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo e professor de Jornalismo na PUC-SP.

De qualquer maneira, prosseguindo com o post, Sakamoto defende que os dois monumentos supracitados sejam inteiramente removidos da cidade de São Paulo. Isso porque, os bandeirantes “roubaram, mataram, escravizaram e ampliaram nossas fronteiras como consequência não de algum princípio mais alto, mas da ganância” e porque esses “açougueiros” (os bandeirantes) suportam a idéia do “paulistanismo, o nacionalismo paulista” (paulista ou paulistano, ou até mesmo são-paulino, hein?). De onde o Dr. Sakamoto tirou essas idéias, é algo que eu não sei explicar, porém. Na verdade, nem ele mesmo sabe explicar, já que não o fez, e, em boa parte, é porque o discurso desse blogueiro está baseado não numa análise historiográfica honesta e crítica, mas na sua preguiçosa vontade de demonizar o bode expiatório da vez.

Digo isso porque eu, pessoalmente, me senti muito preocupado, após ouvir na escola que os bandeirantes paulistas teriam sido a tropa de elite nazista, a SS, de sua época. Se foi isso, então por que há tantas homenagens a eles? O que esses homens realmente fizeram? Com essa pulga atrás da orelha, decidi pesquisar a respeito para tentar entender melhor quem foram esses personagens.

A este respeito, o antropólogo mineiro Darcy Ribeiro afirma, em uma de suas obras mais importantes, O Povo Brasileiro, que miscigenação entre brancos e índios não só acontecia, como era a regra na sociedade dos bandeirantes. As maiores bandeiras, sobretudo, eram excursões compostas por uma esmagadora maioria mameluca e indígena, sendo que somente os capitães das bandeiras eram brancos. E esses bandeirantes, brancos ou não, tão longe da Sagrada e Católica Igreja, inclusive, praticavam a poligamia, algo que também Sérgio Buarque de Hollanda nota em Raízes do Brasil. As bandeiras, portanto, eram um produto de seu tempo: na mentalidade de portugueses colonizadores dos séculos XVI e XVII, matar e escravizar a população nativa do Brasil não era algo extraordinariamente chocante ou repulsivo e, da mesma maneira, os índios que seguiam tais bandeiras tampouco estavam fazendo algo que era radicalmente diferente daquilo que eles praticavam antes.

Aqui faço mais um parêntese importante para deixar claro que não eram todas as pessoas que viviam naquela época que viam as bandeiras como algo positivo e, de fato, havia escritores como Bartolomé de las Casas, que, já em 1550, consideravam que os nativos das américas possuíam almas e não mereciam receber as violências que caíam sobre eles. Dito isso, porém, outros escritores da época, como Hans Staden – que foi feito prisioneiros por uma tribo de Bertioga, em São Paulo – e Álvar Cabeza de Vaca – que vagou 9 anos pelas Américas – relatam que incursões militares e de escravização não eram algo fora da realidade dos nativos.

Em suma, os tempos eram outros e as convenções morais eram diferentes: todos os continentes do mundo, naqueles anos, praticavam a escravidão e a noção de que povos deveriam ser protegidos de extermínio não era um consenso nem entre círculos intelectuais e, muito menos, entre o povo. Se formos julgar as pessoas que viviam àquela época pelos padrões morais que temos hoje, certamente não haverá ninguém que consideraríamos digno, já que todos, mesmo que de maneira indireta, contribuíram para ações que, em 2016, os tornariam réus na Corte Internacional de Justiça na Haia. Se retirarmos de São Paulo os monumentos dedicados às bandeiras, então teríamos que destruir muitos outros monumentos.

Zumbi dos Palmares, por exemplo, é considerado como um símbolo da resistência contra a escravidão, devido ao fato de que, como último monarca do Quilombo dos Palmares, ele liderou heroica resistência e guerra contra os portugueses. A data da sua morte, 20 de novembro, é hoje o Dia da Consciência Negra no Brasil e, simbolicamente, ele está enterrado no Panteão da Pátria e da Liberdade de Brasília, no qual, também simbolicamente, repousam figuras como D. Pedro I e Alberto Santos-Dummont.

Zumbi, porém, era uma figura de sua época e um produto do seu contexto histórico. Ele era descendente da linha real de reis do Congo (na atual Angola) e, nessa sociedade africana do século XVII, a escravidão era algo normal. Por conta disso, dentro do Quilombo dos Palmares, também havia escravos que serviam aos negros livres. Esse fato não diminui o fato de que Zumbi deu a sua vida para lutar pela sua própria liberdade e que, com muita honra, coragem e lealdade, ele enfrentou até a morte os escravizadores brancos da época. Se, como o Sakamoto faz, porém, formos julgá-los com os olhos da nossa época, deveríamos retirar todas as homenagens públicas que Zumbi recebeu e reduzi-lo a um simples vilão ignorante, o que seria um absurdo.

Há uma série de livros que, de maneira genial, convida o leitor a – de maneira simultânea – entender que figuras históricas precisam ser julgados no contexto histórico em que viveram e, também, a entender como é bom que nossa sociedade tenha se livrado de práticas cruéis e abusivas do passado: entender a razão pelas quais nossos antepassados tomaram certas ações não resulta em repetir seus erros no futuro. Essa série se chama O Capitão Alatriste e seu autor, o murciano Arturo Pérez-Reverte, decidiu escrevê-la pois considerava que os livros didáticos de História da Espanha não se aprofundavam o suficiente nos problemas da sociedade espanhola do século XVII.

Os livros seguem a vida de um soldado espanhol do Terço Velho de Cartagena e têm uma estrutura inspirada nos romances de Alexandre Dumas, e n’Os Três Mosqueteiros, em particular. Diego Alatriste -esse é o nome do protagonista- é um veterano de guerra que luta pela glória do império espanhol e pela coroa que jurou proteger com sua vida. Ele também é um mercenário que faz serviços dos mais toscos, como matar amantes que chifraram alguém marido cornudo ou algum sem-vergonha que roubou num jogo de cartas. Ele é um homem que valoriza a honradez e a integridade, a ponto de arriscar sua vida pelo o que é certo e justo. Ele também é um mentiroso alcóolatra que pula de caso amoroso em caso amoroso. E ele também é um pai digno para uma criança órfã e um saqueador de aldeias holandesas em chamas. Em suma, ele é um soldado espanhol do século XVII, nem mais, nem menos. Ou, como Pérez-Reverte distila na abertura do livro inaugural da série:

“Não era o homem mais honesto, nem o mais piedoso, mas era um homem valente. Chamava-se Diego Alatriste y Tenorio e tinha lutado como soldado dos terços velhos nas guerras de Flandres. Quando o conheci, vivia mal em Madrid, alugando-se por quatro maravedis para trabalhos de pouco lustre, a menudo como espadachim  (…). Agora é fácil criticar isso; porém, naqueles tempos a capital das Espanhas era um lugar onde a vida era tomada com um salto de mato, em uma esquina, entre o brilho de duas espadas (…) Sim. Já disse a vossas mercês que eram anos duros”

Esse tipo de abordagem nos permite realmente compreender, ao invés de preguiçosamente julgar, uma figura histórica. A história precisa ser compreendida em sua integridade e não seletivamente demonizada, para que seus erros não sejam repetidos pelas gerações futuras. Precisamos sentir e entender o heroísmo dos bandeirantes que adentraram – sem mapas, alimentos, antibióticos, eletricidade e veículos – no sertão brasileiro para, além do Tratado de Tordesilhas, alcançar honra e glória para a Sereníssima Casa de Bragança e, também, ouro para seus bolsos. E precisamos compreender a crueldade repulsiva desses mesmos bandeirantes, como o diabo velho Anhanguera, que tocava fogo em cachaça para enganar os índios inocentes e roubar seu ouro. O Brasil de hoje existe graças a eles e por culpa deles e destruir seus monumentos enquanto se goza de seu legado (sobretudo o territorial) é vão e hipócrita.

Para finalizar, o Sakamoto menciona que “Na minha opinião, um povo não precisa de heróis”. Concordo com essa postura; de fato, é o que estou defendendo neste texto. Ironicamente, porém, ao “vilanizar” os bandeirantes, forçosamente, Sakamoto está criando, por contraponto, heróis naqueles que os criticam e, por extensão, nele mesmo.  E o que o Brasil precisa agora não é nem de heróis e nem de vilões, mas, simplesmente, de humanos.

TL;DR: Coxecos, do mal. Sakamoto, do bem.

“Literalmente pior que Hitler”

Estamos vivendo tempos agitados e discursos igualmente agitados surgem para tentar explicá-los. Terrorismo islâmico, golpes militares, assassinatos de policiais, assassinatos de homossexuais, discussões polarizadas e por aí vai. Diante dessa exposição maciça de eventos chocantes, termos igualmente impressionantes são resgatados da História ou são cunhados novos em folha para enfrentá-los. Será que o uso desses termos, porém, pode estar, na verdade, afastando a atenção desses problemas tão sérios?

Dois termos que, recentemente, mais se vêem gratuitamente utilizados são “fascista” e “nazista”. A polícia brasileira, por exemplo, é chamada de fascista, embora  Benito Mussolini, o fundador do primeiro e verdadeiro Partido Fascista, tenha criado milícias (Fasci Italiani di Combattimento) exatamente como uma maneira de contornar a força da polícia italiana. Similarmente, o atual candidato à presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump, é acusado de ser um fascista, apesar de seu discurso ser fundado num populismo demagógico de direita e não nos preceitos de Mussolini.

Em relação ao nazismo, as comparações com Hitler são tão comuns em discussões na mídia e na internet que até mesmo se criou uma “lei” – a lei de Godwin – que prevê que elas são inevitáveis em discussões longas. Enquanto isso, dizer que alguém é literalmente pior que Hitler, seja essa pessoa Putin, Obama ou Benjamin Netanyahu, se tornou um meme na internet e há até mesmo uma página (em inglês) que descreve esse fenômeno.

hitler

Uma cena do musical The Producers. A imagem de Hitler é usada tão livremente hoje que ela praticamente já perdeu todo seu sentido original.

E não é para menos: qualquer coisa te torna em Hitler, agora. Angela Merkel  – a chanceler da Alemanha – pressionou economicamente os gregos a pagarem suas dívidas? Ela é Hitler! Merkel lidera (de facto) a União Européia? Ela é Hitler e está liderando o IV Reich. Merkel está causando a fragmentação da União Européia, coordenando a entrada de milhões de refugiados? Ela é Hitler e isso é a vingança do Führer! E (o mais absurdo  e delirante de todos) Angela Merkel reconheceu a vericidade do genocídio armênio e disse que os alemães são culpados de não terem ajudado a evitá-lo? Ela á Hitler!

Isso não é prerrogativa da mídia europeia. No jornalismo brasileiro, um colunista da Veja denunciou o fato de que estudantes grevistas da USP chamaram alunos que se recusaram a participar de uma greve de nazistas e ficaram gritando “Hitler!” até que eles saíssem da sala de aula: esses alunos nunca demonstraram qualquer tipo de afinidade ao pensamento nazista, eles só se recusaram a participar da greve. Alguns anos depois, porém, o mesmo colunista comparou a militância petista, que havia agredido fisicamente a José Serra – à milícia de assalto nazista, a Sturmabteilung e afirmou que “Os nazistas estão nas ruas!”

Obviamente, nenhuma dessas analogias é historicamente correta ou, nem sequer, lógica. O que se percebe aqui é que, na verdade, no momento no qual vivemos, comparar alguém Hitler não significa absolutamente nada mais do que “Eu não concordo com você.” Adolf Hitler, o soldado austríaco que lutou pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial e que, por meio de discursos demagogos, manobras políticas e agressões físicas, transformou a República de Weimar na Alemanha nazista agora é “hitler”: é só mais uma palavra que temos no nosso vocabulário para dizer que não gostamos de algo ou para criticar quem não pensa como nós. A tragédia disso tudo, porém, é o fato de que, para que se possa colocar “hitler” no dicionário, é necessário retirar “Hitler” dos livros de História. O contexto histórico já não importa mais: tudo é discurso.

E, nesse mundo de discursos incendiários no qual só se houve quem, figurativamente e literalmente, grita mais alto, o que será da poesia? Sem hítleres, demagogia e acusações bombásticas, como que versos sem graça vão chamar a atenção em meio à tanta gritaria? Bem, talvez não seja possível a poesia competir com esse ódio… mas, como o imperador romano Nero fez, então, aproveitarei o fogo desse incêndio para tocar aqui uma lira: a ode número 3 do segundo livro de Odes do poeta romano Horácio.

Aequam memento rebus in arduis

(tradução de Bento Prado de Almeida Ferraz)

Lembra-te de manter, ó mortal Délio,
o ânimo sempre igual na adversidade
e, livre da alegria imoderada,
nos momentos felizes da existência
tenhas vivido, desde sempre, triste,
ou, às vezes, gozado as tuas férias
sobre afastada relva reclinado,
a saborear teu especial falerno [vinho famoso na Roma antiga].
Com que fim se associa o alto pinheiro
ao branco álamo, ramos entrelaçados,
na formação da sombra hospitaleira?
Por que se esforça a linfa fugitiva
a murmurar em seu sinuoso leito?
Manda que para lá te levem vinho,
perfumes e da suave rosa as flores,
que só duram, brevíssimas, um dia,
enquanto te permitem teu estado,
a idade e as três fatídicas irmãs,
que o destino do homem, atras, tecem [atras = lúgubres].
Deixarás as pastagens adquiridas,
tua casa, o casal, que o flavo Tibre [o dourado rio Tibre]
banha; aliás, deixarás, invito embora, [invito = contrariado]
a fortuna, que em vida acumulaste
para teu uso, ao gozo de um herdeiro.
Do prisco Ínaco filhos, ou da pobre [prisco = velho]
e ínfima gente que ao relento vive,
não nos importa, vítimas que somos
do Orco, que de ninguém se comisera;
somos levados para igual destino:
a nossa sorte, da urna que se agita,
ou mais cedo ou mais tarde, há de sair
para pôr-nos, enfim, naquela barca
em que só se parte para o eterno exílio.

TL;DR: Se você não concorda comigo, você é literalmente pior que Hitler.

“Eles jamais entenderão…”

Nada pode ser considerado mais íntimo do que as nossas memórias e vivências. Somente eu sei o que eu vivi, pois somente eu – na minha pele – senti o que eu senti e sei o que eu sei e ninguém pode compartilhar disso.

Se, no entanto, milhares de pessoas vivem experiências similares, seria possível que, para que cada uma delas tivesse sentido, as memórias de um indivíduo precisassem das memórias de ouras pessoas?

Não é sobre isso que a obra Corpus Delicti  da artista paulistana Jacqueline Leiner trata. Na verdade, eu não sei direito sobre o que essa obra trata, já que, quando ela estava exposta no Instituto Itaú Cultural, não havia panfletos com explicações sobre as obras e ela não é suficientemente autoexplicativa. Pela biografia da artista, deve ser algo ligado ao consumismo e cultura pop. De qualquer maneira, é sobre a dicotomia entre memória individual e memória coletiva que, no fim do dia, essa obra acabou tratando. Vamos por partes.

Corpus Delicti (“corpo de delito” em latim) é uma coleção de recipientes metálicos vazios que a artista furtou de aviões e passagens áereas usadas, tudo interligado por meio de cabos metálicos. Assim:

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Corpus Delicti, Jac Lernier, 1992. Furtado do site New City Brasil.

Aquele dia, a maior parte do público no Itaú Cultural era de adolescentes. Eles passavam poucos segundos olhando essa obra e logo seguiam o percurso do museu. Tentei entender por qual razão ninguém estava reparando nela e, após alguns minutos, finalmente entendi: aqueles recipientes metálicos vazios eram cinzeiros de avião.

De fato, eu me lembrei de quando eu era uma criança e tinha, certa vez, voado com minha família num avião da VASP. Naquela época, era permitido, entra outras coisas, levar cigarros e isqueiro e fumar dentro de um avião no meio de um vôo! Isso pode parecer completamente absurdo para a geração pós-11 de setembro, já que, atualmente, não é permitido nem mesmo entrar com um cortador de unha ou uma garrafa d’água num avião, mas, sim, antigamente, isso era permitido.

Como os adolescentes no Itaú Cultural nunca voaram num avião no qual era permitido fumar, eles não conseguiam identificar o que eram aqueles objetos metálicos. A obra era incapaz de se comunicar com eles e, efetivamente, ela estava morta no tempo e sem significado real para o novo público. A intenção da autora de dizer algo sobre a vida e as experiências pessoas dela ficou perdida no tempo, pois ela não pode ser transmitida a uma geração que não compartilhou suas experiências. Sem a compartilhamento de experiências similares, as memórias individuais da artista perdem a capacidade de diálogo e, portanto, o sentido. Assim, eles jamais entenderão.

Saindo do Itaú Cultural, fui para casa, jogar games de computador. Sentido-me nostálgico, decidi jogar alguns jogos da década de 1990. Naturalmente, esses jogos são incompatíveis com computadores modernos, mas uma empresa polonesa resolve esse problema relançando-os em formatos compatíveis com o Windows 10. Isso deveria resolver a questão do diálogo entre os sistemas velhos e novos, e, do ponto de vista técnico, isso é verdade… quando comecei a jogar, porém, vi que não é bem assim.

Quando eu era adolescente, havia uma febre de lan-houses em São Paulo. Lan-houses eram uma espécie de café com computadores interligados no qual se jogava jogos com dezenas de pessoas ao mesmo tempo. Eu posso jogar os mesmos games que eu jogava lá há quinze anos, mas eu sinto que não é a mesma coisa: há uma série de idiossincrasias e interações sociais que não podem ser repetidas, encenadas ou emuladas hoje.

Nós, os moleques que íamos às lan-houses, não sabíamos falar inglês direito, mas jogávamos jogos nessa língua. Por conta disso, acabávamos improvisando palavras  e verbos numa interlíngua que não fazem o menor sentido : “planta essa bomba!”, “defusa aquela bomba!”, “TAB [tecla que exibia o placar do jogo] aí e diz quem está em primeiro!”, “dropa a sua arma!”. Esses termos, como nunca foram dicionarizados, já não existem mais e não têm mais sentido fora daquele contexto específico. Sei que, chamada por qualquer outro nome, uma rosa conserva o mesmo cheiro, mas é outra coisa jogar esses jogos sem esse vocabulário, que era bem preciso, apesar de ilógico.

E, além disso, a lei permitia, então, que adolescentes ficassem até de madrugada jogando games num cyber-café, o que hoje não acontece. Os moleques, além disso, escolhiam nomes de guerra que, hoje, não significam nada , como “Louco pela Tiazinha”, “O Charada Brasileiro” ou “Corvo do Mion”. Em suma, é possível emular esses mesmos games no meu computador e tentar revivê-los, mas, sem a experiência coletiva das pessoas que os jogavam comigo, minhas memórias não possuem mais sentido. É somente com a presença da alteridade, que minha própria identidade faz sentido.

E, como tentar explicar isso para quem não ia a lan-houses não faz sentido, e como não posso comunicar essa experiência de maneira fidedigna a quem não estava lá comigo, encerro este post por aqui mesmo. De qualquer maneira, vocês nunca entenderiam…

TL;DR: As coisas são reveladas por meio das memórias que temos delas. Lembrar-se de uma coisa  é vê-la – somente então – pela primeira vez.
Ofício de Viver, Cesare Pavese.

O punk, a fascista, o zen e a arte de não se importar

Há movimentos que são tão diferentes em suas ideologias e tão distantes entre si no espaço e no tempo que dificilmente se poderia supor um ponto em comum entre eles. E, no entanto, nossa natureza humana sempre acaba se denunciando e nossa condição universal de seres humanos acaba emergindo e mostrando denominadores comuns no lugares e tempos mais distantes. Isso, ou talvez eu tenha tomado muito xarope para tosse.

De qualquer maneira, há um sentimento de não se importar, não estar nem aí para as baixezas do mundo e não se deixar afetar pelas turbulências, injustiças, cretinices a revezes da vida que ressoa em movimentos completamente diferentes. Essa ataraxia é algo que pode ser igualmente observada no movimento punk, no discurso fascista (pré-Pacto de Aço) e no budismo zen. Vamos ver como isso funciona.

O movimento punk surgiu na metade da década de 1970 no meio de uma das piores crises econômicas que já afetou a cidade de Nova Iorque. Crime, tráfico de drogas, prostituição, desemprego, abandono de prédios, emigração, corrupção e toda e qualquer mazela social imaginável tinham chegados a novos patamares e… em suma, tudo aquilo que nós, terceiro-mundistas, já conhecemos. Nesse contexto, o movimento punk, particularmente da maneira como os Ramones o expressavam, surgiu como um movimento de rejeição do consumismo e da imagem de sucessos que imperavam até então.

Ser bonito, estar na moda, ter produtos chiques, ter a educação e os empregos de prestígio da época, os Ramones não estavam nem aí para isso. Eles tinham o mesmo corte de cabelo, vestiam um uniforme simples (jeans, camiseta e jaqueta), não adotavam a culto à aparência -como moicanos, piercings e tatutagens- de outros punks. Eles eram perdedores e rejeitados que não tinham o iPhone da época, mas não eram estúpidos. E, acima de tudo, eles não estavam nem aí para os outros. Eles deixam isso bem claro nesta canção de um minuto e meio que, mais tarde, o Renato Russo plagiaria:

I Don’t Care
(The Ramones)

Eu não me importo
Com este mundo
Eu não me importo
Com essa garota
Eu não me importo
Com esta letra.
Eu não me importo.

Esse sentimento de indignação e indiferença às exigências estúpidas da sociedade é um dos elementos que ajudou Benito Mussolini a dar um apelo de massa para o fascismo na década de 1920. Um ex-socialista, o Duce adotou um discurso (que mais tarde Hitler copiaria) que disfarçava suas ambições políticas como uma tentativa de corromper a moral decadente do mundo e de unir esforços e sacrifícios coletivos no amor sagrado à Itália e na formação de uma sociedade corporativista e com cooperação, não conflito, de classes.

Mussolini colocava os homens e mulheres fascistas como seres moralmente superiores, que não se deixavam afetar pela mesquinhez do consumismo pequeno-burguês e dos elementos sedutores da vida materialista. Ele afirmava que, unidos, os fascistas conseguiriam avançar a sociedade muito mais do que qualquer outro grupo político. Nesse tema, um dos lemas mais famosos dos fascistas era o “me ne frego”, que, em dialeto romano, significa algo como “não tô nem aí”.

Essa frase precede ao fascismo e, segundo a tradição, surgiu no fronte italiano da Primeira Guerra Mundial: soldados italianos feridos teriam usado seu próprio sangue para escrever “me ne frego” nas bandagens de suas feridas, demonstrando que eles não se importavam e intimidavam com o sofrimento que lhes era imposto, pois eles tinham aspirações maiores.

oro alla patria

“Ouro à pátria”: italianos que doassem objetos de ouro para as empreitadas militares de Mussolini recebiam, em troca, um anel de ferro com essa inscrição. Pirandello doou seu Nobel e até o anti-fascista Benedetto Croce deu sua medalha de senador.

Bem, cem anos depois, uma banda feminista/fascista/punk chamada Esperia compôs uma canção chamada “Me ne Frego”. Antes que alguém comece a apontar as contradições inerentes à existência de um grupo que é, ao mesmo tempo, feminista, fascista e punk, fiquem tranquilos: devido ao fato de que é impossível encontrar qualquer atividade dessa banda após o lançamento do seu único CD, pode-se especular que essas adolescentes se deram conta de seus erros e tentaram enterrar a existência do grupo. Por alguma razão, no entanto, elas têm milhares de fãs na Polônia e um amigo polaco me mostrou a  canção abaixo:

  Me ne frego
(Esperia)

Sabe o que eu te digo? Não tô nem aí! Não tô nem aí!

Não tô nem aí para o seu mundo corrupto. Não tô nem aí para o seu consumismo
Não tô nem aí para o seu deus-dinheiro. Não tô nem aí, já disparei a voar.
Agora eu vejo o mundo do alto. [Vejo] A loucura dos comerciantes ricos.
Queimarão para sempre, enquanto eu já estarei no alto.

Sabe o que eu te digo? Não tô nem aí! Não tô nem aí!

Não tô nem aí para as aparências. Não tô nem aí para as tuas revistas.
Não tô nem aí para as modas chiques! Estou aqui nadando.
Nado livre no mar aberto e observo as pessoas na praia. Elas são vazias, você o vê?
Elas se afogaram para sempre, porém!

Sabe o que eu te digo? Não tô nem aí! Não tô nem aí!

Não tô nem aí para o comunismo. Não tô nem aí para os americanos.
Não tô nem aí para o sociedade. Não tô nem aí, sou fascista!
Elevaremos o nosso grito da terra ao céu. Arde uma chama dentro de nós e não estamos nem aí para o mundo!

Sabe o que eu te digo? Não tô nem aí! Não tô nem aí!

Bizarrices à parte, a canção promove uma espécie de asceticismo e ataraxia que não só é similar àquele praticado pelo movimento punk, mas também possui um paralelo no budismo zen e no pensamento religioso-filosófico indiano: o conceito de upeksha.

Upeksha é um estado mental no qual a pessoa está completamente acima e além da possibilidade de turbulência que os fatos da vida propiciam. Vitória ou derrota, ostracismo ou glória, elogio ou censura, felicidade ou tristeza, nada disso afeta a pessoa que alcançou upeksha. Num estado transcendental, ela alcança a equanimidade e deixa de ser afetada pelos acontecimentos ordinários e pelas mesquinhezas da vida materialista e consumista. Ela não se importa mais com os demais, na medida em que sua mente está focado em ideais superiores.

Há uma quase infinidade de elementos que separam o fascismo, o punk e o budismo e muitas deles certamente se excluem mutuamente, o que levaria à impossibilidade de alguém aderir simultaneamente às três filosofias.

Dito isso, e colocando as diferenças à parte, é possível perceber neles uma forte rejeição ao materialismo e consumismo que, cada vez mais, é absorvido acriticamente por todos os setores da nossa sociedade. Do funk ostentação da periferia, às filas para inauguração de lojas de marca em shoppings de classe média-alta até os intelectuais que optam por apagar um incêndio com gasolina ao defender o consumismo como uma forma de transcender as diferenças de classe. Como que consumir cada vez mais e ter a ostentação como um valor aceitável vai produzir uma sociedade unida e coerente? O consumismo pode ser aplacado pelo consumo?

É, pois, estranho e desconcertante ver que a rejeição ao consumismo desenfreado possui tão poucos expoentes hoje que é mais fácil encontrá-los em religiões orientais, em feministas fascistas e em punks. Entre os demais, deve ter saído de moda com a última coleção.

TL;DR: Não sobrou ninguém lol

PS: julgando pelo nome, o grupo grunge Nirvana  deveria estar ligado, de algua forma, ao budismo. Até onde vai o meu conhecimento, porém, nenhuma canção do Nirvana contém letras que exponham com alguma profundidade algum conceito budista. Se alguém souber do contrário, por favor, deixe um comentário!

O “ódio do bem” de Quentin Tarantino

Quentin Tarantino é um diretor de cinema conhecido por criar filmes de ação muito violentos (mas não ultraviolentos), frases de impacto, diálogos cheios de tensão e por não regular na hora de espalhar sangue. O seu filme mais recente, “Os Oito Odiados”, está nos cinemas agora, então eu vou me aproveitar disso para falar sobre ele no blog e ganhar mais acessos. e ser alguém alinhado com as tendências.

De acordo com nenhum crítico de cinema e meu próprio achismo, é possível dividir a produção cinematográfica de Tarantino em duas partes: os filmes que ele dirigiu entre 1992 e 2007, ou seja, de “Cães de Aluguel” até “À Prova de Morte” e os que foram dirigidos a partir de 2009, a saber, “Bastardos Inglórios”, “Django Livre” e “Os Oito Odiados”. Os filmes do primeiro grupo estão centrados numa temática de violência urbana, crime organizado e vingança pessoal.

Seus filmes mais recentes, por outro lado,  tem uma tema recorrente: personagens que pertences a minorias oprimidas realizam uma jornada de vingança contra seus opressores. Longe disso ser uma coincidência, Quentin Tarantino deixa clara sua intenção de difundir uma mensagem de justiça social.

O que me parece surpreendente nos seus filmes, porém, é que  eles assumem uma postura de moralidade que está alicerçada na noção de que a vingança entre grupos e o ódio ilimitado contra grupos sociais opressores são uma forma de compensar as crueldades da História. E é aí que eu entendo que seu discurso entra em curto-circuito . Explico-me.

Em “Bastardos Inglórios”, ambientado na Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados judeus americanos é enviado numa missão especial para tentar matar Adolf Hitler. Sem me delongar em detalhes do filme, o que acontece nele é, basicamente, soldados judeus se vingando dos nazistas e de Hitler da maneira mais violenta possível, inclusive, metralhando à queima-roupa o rosto do líder nazista até que ele se desintegre e, depois, tocando fogo nele.

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“Ratatatatata se não sou nazista, não há problema ratatata”

A mensagem clara por trás disso é que os judeus, por terem sido perseguidos pelos nazistas, têm o direito de aplicar a mesma violência que eles receberam de volta aos seus opressores. Isso ajustaria a balança da História e traria equilíbrio ao mundo. O ódio do mal dos nazistas se paga e se limpa com o ódio do bem dos judeus.

Para coroar essa noção, na cena final desse filme, um oficial da SS nazista consegue fechar um acordo com o exército americano e, em troca de informações, ele sairia da Alemanha sem pagar por seus crimes. Para evitar isso, um dos soldados judeus americanos -protagonizado pelo Brad Pitt lol- desenha uma suástica com uma faca no seu rosto. Assim, o resto do mundo poderá, para sempre, saber que ele foi um nazista e que ele dever ser odiado. Bem, o que faltou levar em consideração aí é que, se todas pessoas que colaboraram com o nazismo merecem ter uma suástica cravada em seus rostos, faltarão facas no mundo.

O nazismo não aconteceu porque, um dia, o mal (ou o anticristo) encarnou-se em Adolf Hitler e a Alemanha entrou em delírio. Não. O nazismo foi o resultado de um lento processo histórico que levou décadas para se completar e que teve apoio de grupos políticos ao redor do planeta inteiro. Ao longo dos anos, várias nações, grupos políticos e indivíduos tiveram a oportunidade de deter Hitler, mas, por interesse ou por ignorância, não o fizeram.

O Reino Unido poderia ter forçado os nazistas a interromperem sua ascenção nos primeiros anos do Terceiro Reich, mas, ao invés disso, firmaram o Tratado de Munique com eles. A União Soviética teve a oportunidade de destuir Alemanha nazista na década de 1930 e, no entanto, eles firmaram o Pacto Molotov-Ribbentrop, que determinava uma situação de não-agressão entre as duas potências. O Japão imperial de Hirohito forneceu um apoio militar inestimável  para os alemães e a Itália fascista, apesar de não ser uma potência militar na época, prestou a importante função de proteger a Alemanha de uma invasão pelo Mediterrâneo.

E a lista não pára por aí. Na Croácia, a milícia Ustaša colaborou militarmente com os nazistas. Assim como a Legião Azul da Espanha, a Legião Tigre da Índia, e até mesmo a Legião Livre Arábica, que trouxe soldados voluntários do Oriente Médio e do Norte da África e os colocou ao serviço de Hitler.

E nós, os tupiniquins, fomos essenciais em permitir a ascenção do nazismo. No livro “1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida” João Barone (sim, o baterista do Paralamas do Sucesso) explica que, antes do Brasil e a Alemanha estarem em estado de guerra, nós fornecemos mais da metade do látex que se transformou em pneus para os veículos nazistas. Foi graças ao Brasil, portanto, que as tropas alemãs puderem ter pneus para se movimentarem pela Europa e África do Norte.  Nós até tínhamos um jornal nazista chamado Deutscher Morgen (“Aurora Alemã”) que era impresso na Mooca, em São Paulo. São muitos rostos para se esfaquear, não é?

Enchção de saco à parte, o problema mais sério com o ódio “do bem” que Tarantino promove em “Bastardos Inglórios” e em seus outros filmes mais recentes é a miopia que ele traz em enxergar a complexidade do mal.

Quando um grupo recebe ódio ou é culpabilizado em excesso, isso provavelmente significa que outros grupos estão saindo com uma parcela menor de culpa do que  eles mereceriam. Enquanto os holofotes e as câmeras estão focados no rosto de Adolf Hitler sendo metralhado, outras pessoas que contribuíram com o nazismo passam pelas sombras. E o nosso senso crítico morre um pouco também.

E há também um segundo problema na tentativa de Tarantino de equilibrar a História pelo ódio. O que acontece quando minorias ou outros grupos oprimidos deixam de estar por baixo e assumem o poder? Eles perdem o direito de odiar, ou só o transferem para baixo? Os judeus, por exemplo, quase foram exterminados completamente na Shoá, o maior genocídio da História. Hoje, porém, os judeus não são mais perseguidos por um estado e, em Israel, esse papel agora passou para os palestinos que vivem na Gaza ocupada. Quentin Tarantino, para balancear isso, fará os Bastardos Inglórios 2 matarem Israel Sharon?

Ou, falando sobre escravidão – um tema importante nos filmes “Django Livre” e “Os Oito Odiados” – ele fará algum filme no qual os saqalibas eslavos matam seus escravizadores árabes? Ou algum filme ambientado na Turquia no qual os janízaros gregos tacarão fogo na casa de seus escravizadores turcos? De quanto ódio do bem Tarantino precisará para consertar a História? E será que ele terá a sabedoria necessária par conseguir odiar a todos com igualdade?

Enquanto aprendemos a odiar para o bem da humanidade, deixo abaixo uma excerto da carta de adeus que o outrora ditador iraquiano Saddam Hussein, alguém que odiou bastante (xiitas e curdos, em particular), escreveu antes de ser executado. Por ter sido um campeão do ódio, talvez ele possa nos ensinar a odiar mais:

“Eu vos clamo para não odiar, pois o ódio não deixa espaço para uma pessoa ser justa e ele vos torna cego e fecha todas as portas do pensamento. Eu também vos clamo para não odiar as pessoas de outros países que nos atacaram e que separaram o povo daqueles que os governavam.”

TL;DR: A única coisa mais difícil que amar a todos igualmente é odiar a todos com perfeita igualdade.

 

Os deuses da História

Carlos Latuff é  um ilustrador anti-semita carioca. Ele ficou famoso por  ganhar o segundo lugar no Concurso Internacional de Caricaturas sobre o Holocausto em 2006 – um evento promovido no Irã com o intuito de satirizar e negar a realidade do genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – e, de vez em quando, ele vai defecar suas fezes morais na internet. Além de fazer uma versão palestina do Che Guevara , sob protestos da família do argentino, ele decidiu dar sua opinião iluminada acerca dos ataques terroristas que ocorrem em Paris na semana passada. E sobre ele, mais não nos ocupemos, a charge abaixo, peço que só olhem e passem.

Do mesmo cartunista que aceitou USD 4 mil como prêmio por negar o Holocausto.

Do mesmo cartunista que aceitou USD 4 mil como prêmio por negar o Holocausto.

A charge sugere a noção de que os atentados terroristas na França são uma consequência natural e direta da política externa francesa. Fiquei irritado ao ver essa caricatura, mas sei que Latuff não deve ser levado à sério. O que me chocou, de verdade, porém, foi ouvir o coro de pessoas que acreditam que, de fato, a França está colhendo os frutos de suas decisões político-militares ou afirmando que, em última instância, o caos no qual hoje o Oriente Médio está imerso é uma consequência das ações dos países do Ocidente, ou, como afirmou nosso ex-presidento (o de 9 dedos, não o ateu maconheiro), dos “brancos de olhos azuis”. Fiquei perplexo com essa afirmação. Se isso for mesmo verdade, todos nós, ocidentais, temos a obrigação moral de nos desculpar e de ajudar a remediar a situação. Tentei me lembrar então da razão pela qual os franceses começaram a intervir militarmente contra o Estado Islâmico.

Voltemos a agosto de 2014. O Estado Islâmico declarou sua intenção de transformar a Terra num califado islâmico e estava avançando suas conquistas na Síria e no Iraque. Neste último país, 250 mil iazidis – uma minoria curda que segue uma religião oriunda do Zoroastrismo – estavam sob o risco de serem exterminadas pelos terroristas islâmicos. Em poucos dias, 200 mil iazidis conseguiram escapar antes que o EI chegasse, mas 50 mil deles foram encurralados no monte Sinjar. Começou então um cerco e os 50 mil iazidis, sem água, alimentos e armas, estavam diante de um risco real e iminente de genocídio.

Neste momento, a mídia internacional começou a realizar forte pressão para que alguém – qualquer pessoa – interviesse para evitar um genocídio transmitido ao vivo pelo Twitter oficial do Estado Islâmico. Foi aí, então, que Barack Obama anunciou que os Estados Unidos da América começariam uma intervenção militar na região. Graças à intervenção americana (e de seus alidos), na forma de ataques aéreos contra os jihadistas e envio de água e de comida aos curdos cercados, 45 mil iazidis saíram vivos desse cerco. Um mês depois, François Hollande, o presidente francês, anunciou o início da Operação Chammal, a intervenção militar francesa – limitadas a bombardeios aéreos – na região. O Estado Islâmico declarou sábado passado que foi em resposta à Operação Chammal que 129 civis foram massacrados em Paris.

Então, devo acreditar que é culpa dos franceses que isso aconteceu? Eles deveriam ter se omitido de evitar o genocídio de 50 mil iazidis para salvar a vida de seus cidadãos? Fora o Latuff, ninguém acredita nisso. O que ouvi de intelectuais e da plebe profana em geral, é que, de maneira ampliada e numa escala maior das coisas, o Ocidente tem causado caos e desestabilização no Oriente-Médio e que, nesse sentido, é culpa dos brancos de olhos azuis que o Estado Islâmico esteja matando pessoas em Paris. (Essa posição não explica por qual razão o Al-Shabaab, aliados oficiais do Estado Islâmico, matou 147 pesssoas numa universidade no Quênia, um país que não realiza ataques contra o EI, mas vamos fingir que isto não conta.)

Bem, o argumento é que, durante o século XIX e o começo do século XX, potências europeias colonizaram porções da África e do Oriente Médio e que é culpa dessa colonização que esses países hoje são subdesenvolvidos e que eles vivem em guerra (os efeitos do império otomano, que dominou a região de 1299 até 1923 podem ser ignorados, pois eles não são ocidentais). Logo, qualquer desdobramento histórico na região, não importa o quão distante no tempo e na ideologia do Ocidente, são resultados das ações dos homens brancos e de olhos azuis. Os atuais habitantes do Oriente Médio e o Estado Islâmico, em última instância, não têm culpa pelas ações que eles estão cometendo, pois elas são consequência das condições nas quais os homens brancos os deixaram.

Para citar outros exemplos paralelos, o Haiti se tornou um país independente em 1804, mas, até hoje, mais de 200 anos depois de sua independência, o Governo haitiano formamelmente culpa a França por seus problemas sociais e econômicos e demanda compensações pecuniárias. O autor uruguaio Eduardo Galeno escreveu um livro chamado “Veias Abertas da América Latina”, no qual basicamente afirmava que os males do nosso continente são resultados das ações dos espanhóis, portugueses e anglófonos; ele mesmo reconheceu que suas teorias estavam erradas, mas o consenso dos nossos intelectuais é que, sim, é a culpa é dos brancos. Por fim, a escravidão e o comércio de escravos era algo perfeitamente comum e um comércio muito lucrativo para os árabes: milhões de eslavos brancos (os famosos saqalibas) e bantus negros foram escravizados para a elite otomana e, décadas depois da Lei Áurea, isso ainda era visto como algo comum por lá. A posição do imaginário popular e de elite intelectual, porém, é de que a escravidão é uma tragédia pela qual os brancos são responsáveis.

Em suma, independente da base historiográfica por trás de qualquer fato histórico, alguém sempre poderá rastrear a responsabilidade de acontecimentos negativos na História para grupos ou países ocidentais e brancos. E, igualmente, qualquer acontecimento negativo que está acontecendo ou acontecerá no futuro será considerado como culpa do Ocidente. Sendo eu ocidental, eu deveria chorar diante disso, mas, na verdade, eu percebi que isso significa algo muito mais macabro. A culpa de tragédias e, em suma, da maldade do ser humano acaba sendo, em última instância, atribuída aos brancos ocidentais.

Num outro post, eu tinha comentado sobre como o Ocidente havia realizado o monopólio do mal. Neste post, eu apresento a contraparte. Em contraposição ao homem ocidental, que pode ser responsabilizado pelas suas falhas, o restante da humanidade hoje vive num estado de perene menoridade e inimputabilidade moral. Os dois pesos e duas medidas dos nossos intelectuais permitem que os “brancos de olhos azuis” sejam censurados pelo o resultado de seu livre arbítrio, mas o restante da humanidade, como disse o Cristo na cruz, “não sabe o que faz”. E o que significa ser ocidental diante dessa disparidade? Ora, significa ser os deuses da História.

Newton, de William Blake (1805). Ou, um homem ocidental pego num momento de arquitetação do mundo. Sei lá.

Newton, de William Blake (1805). Ou, um homem ocidental pego num momento de arquitetação do mundo. Sei lá.

De fato, seja por nossa intervenção divina direta ou como resultado direto das ações do Ocidente, qualquer fato histórico dos últimos séculos é rastreável para nós. Nós, os ocidentais, espalhamos com raiva nossas sete pragas pelo mundo, ou, então, como o “deus relojoeiro” que somos, manufaturamos as condições e as regras dentro das quais as outras pessoas, nossa criação, vivem. Nada escapa à nossa ação e ninguém é livre – e, portanto, responsável – fora nós.

Como eu poderia acreditar numa coisa dessas? Os nossos intelectuais, em delírio ardente, podem estar oscilando entre essa culpa lancinante e um princípio de Síndrome de Estocolmo, mas eu prefiro aceitar que os outros, que os diferentes de mim são, de fato, iguais a mim, tanto na bondade  quanto na maldade. Reconheço que o Ocidente pecou muito, mas também acho que as demais nações do mundo são livres, dignas e podem ser responsabilizadas por seus atos. Essas flechas já saíram de nossos arcos e, então, antes que o resto do Levante seja consumido pela loucura que o Ocidente tem medo de criticar, citarei as palavras d’O Profeta:

Sobre os Filhos
Gibran Kahlil Gibran (1923)

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

TL;DR: Sabe quem é responsável e culpado pelos ataques terroristas em Paris? Salafitas intolerantes que estão putos com a vida.

O Lado Certo da História

Temos que tomar cuidado com a História. Há uma serie de decisões que a historiografia não perdooa e quem num momento era um herói, pelas próximas gerações, passa a ser visto como um vilão. Os jornais brasileiros, em 1945, chamaram a bomba atômica de “sensacional engenho de guerra“, mas, hoje essa certamente não é considerada a maneira apropriada para se remeter a essa arma de destruição em massa.

Há várias pessoas que nos lembram de qua História pode nos julgar de maneira severa pelos erros que cometemos. O espírito por trás dessa ideia é o de se ter coragem de lutar por aquilo que se vê como justo. Outras pessoas, porém, vêm isso noutro espírito, porém,  e acham que o julgamento historiográfico tem o propósito de ser utilizado como meio de coerção.

John Oliver é um comediante político britânico que apresenta o programa “Last Week Tonight”, exibido pela HBO e que pode ser visto pelo YouTube, comentando sobre temas políticos e sociais da atualidade. Recentemente, ele dedicou um trecho do seu programa para falar sobre direitos dos transgêneros. Peço desculpas aos meus irmãos lusófonos por não apresentar aqui uma versão traduzida, mas o trecho exibido pode ser conferido em inglês neste link da Rolling Stone.

Após exibir uma série de dificuldades pelas quais pessoas transgêneros têm que passar, ele encerra seu discurso dizendo que, em última instância, é necessário que nós nos sensibilizemos com a causa transgênera devido ao fato de que a “todos nós sabemos como isso termina. Se você não optar pelo lado dos direitos civis,  a História não será nada gentil com você.” Em seguida, ele emenda afirmando que Hollywood faz filmes, os Correios fazem selos e as cidades edificam monumentos sobre as pessoas que ficam do lado certo da História e que não defender o direito dos transgêneros não dará glória e reconhecimento aos que foram opositores. E, então, eu me pergunto: é por isso que eu devo defender os direitos dos transgêneros? Porque eu tenho medo de ser julgado pela posteridade?

Tempo Salvando a Verdade da Mentira e da Falsidade, 1737. A obra mestre que François Lemoyne completou um dia antes de se suicidar, devido a boatos e conspirações que espalharam a seu respeito na corte real francesa.

Tempo Salvando a Verdade da Mentira e da Falsidade, 1737. A obra mestre que François Lemoyne completou um dia antes de se suicidar, devido a boatos e conspirações que espalharam a seu respeito na corte real francesa.

No Brasil, eu cresci e me eduquei sob a égide dos ideais iluministas e aprendi que a Declaração Universal dos Direitos Humanos é um axioma sobre o qual podemos embasar nossa moralidade. Em função disso, eu entendo que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.” Por ende, julgar uma pessoa em função de sua identificação de gênero e sexualidade é um ato irracional e bárbaro, que atenta contra a tentativa de se construir um mundo civilizado e contribuir para a redução do sofrimento humano no mundo. Por isso, eu acredito que os direitos dos transgêneros devam ser garantidos.

Há muitos bons argumentos para eu estar do lado dos transgêneros e eu  não acredito que eu deva defender os direitos deles como uma posição estratégica que eu devo tomar para garantir que, no futuro, minha imagem seja defendida pelas novas gerações. Isso não é nem nobre moralmente e tampouco é  um argumento convincente: que me importa o que pensarão de mim quando eu já estiver morto e enterrado? E, bem mais sério e importante do que isso, com qual certeza eu posso prever as posições morais que serão adotadas no futuro?

O poeta georgiano Joseb Jughashvili, aos 23 anos de idade.

O poeta georgiano Joseb Jughashvili, aos 23 anos de idade.

Na década de 1910, um jovem e charmoso poeta georgiano chamado Joseb Jughashvili estava lutando contra a opressão do czar em diversos territórios da Rússia. Ele era um rapaz brilhante e profundamente tocado pela causa de ajudar as classes oprimidas. Um ávido leitor, ele conhecia todos os escritos e as teorias socialistas de sua época, mas também tinha a vivência e a coragem do trabalhador comum, tendo sentido na pele a dificuldade de ser um simples camponês e de arriscar sua vida em greves contra petroleiras de bilionários ocidentais em Baku, no Azerbaijão.

Movido pela necessidade de transformar a Rússia num país moderno e livre, que seria o estadarte da justiça social no mundo, ele foi para Moscou, onde pretendia angariar ajuda financeira, política e militar. Chegando lá, ele recebeu apoio de todos os estratos da sociedade, mas, em particular, em parte da aristocracia russa, cujos indivíduos iluminados acreditavam que Joseb Jughashvili transformaria  a Rússia num país do futuro. Poucos anos depois, o poeta georgiano assumiu o seu nome mais famoso: Josef Stalin. Bem, o resto é História… o lado errado dela, pelo visto.

Algumas décadas depois disso, houve outro exemplo de pessoas que jogaram os dados para tentar advinhar o lado certo da História. Em 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, como a maioria de seus contemporâneos, se lembrava muito bem dos horrores da Primeira Guerra Mundial,  e acreditava que diplomacia e desarmamento eram as opções que levariam o mundo à paz e que lhe garantiriam a gratidão dos futuros britânicos. Após assinar um acordo de não-agressão com Adolf Hitler (e sacrificar a região tcheca da Sudentenland no processo) ele retornou vitorioso à Londres e disse num discurso famoso: “Meus bons amigos, pela segunda vez na nossa história, um primeiro-ministro britânico voltou da Alemanha trazendo paz de maneira honrosa. Nós lhes agradecemos do fundo do nosso coração. Vão para casa e tenham uma boa noite de sono.” Onze meses depois, Hitler invadiu a Polônia e 76 anos depois a História ainda não lhe perdoou.

O próprio John Oliver parece não entender direito de qual lado da História ele quer ficar. Embora ele tenha defendido os direitos dos transgêneros num dos seus vídeos, em outro mais recente, ele deliberadamente (e tirando sarro disso) infringiu legislação canadense sobre boca de urno e afirmou que os canadenses deveriam votar a favor do candidato Justin Trudeau, que veio a ganhar as eleições. A sua justificativa moral para fazer isso (ou seja, seu bilhete para o lado certo da História) foi a de que Trudeau não é um islamofóbico e, de fato, uma de suas promessas de campanha (que será cumprida) foi a de cessar imediatamente as operações militares canadenses contra o Estado Islâmico na Síria.

Bem, o Estado Islâmico é radicalmente contra os direitos das mulheres (já que eles infringem a Sharia) e é conhecido por matar das maneiras mais sádicas possíveis os homossexuais. Nem sequer posso emitir a opinião deles sobe transgêneros pois o próprio conceito de uma pessoa transexual é inexistente na realidade deles. Então, como Neville Chamberlain, John Oliver quer a paz no mundo, mas ele também quer que os transgêneros possam viver em paz na Terra.

Como ele pode obter as duas posições se a realidade atual prova que elas são incompatíveis? Como ele pode estar do lado certo da História em duas posições que se eliminam mutuamente? Ou, parafraseando um discurso seu, John Oliver está confortável com a situação de que esse assunto deve ser tratado, mas não quer tomar posições concretas a respeito? Como ele pretende limpar o mundo? Quando o extremismo islâmico (espero) for contido no globo, como ele será julgado?

Eu não sei a respeito disso e acho que é complexo de mais para mim poder adivinhar o que as sociedades do futuro acharão das questões morais que me afligem. De fato, já acho difícil o suficiente convencer a outro público que eu estou vivendo no lado certo na História: a minha própria consciência.

De conselho a John Oliver, e para mim mesmo, deixo alguns versos de Joseb Jughashvili -antes dele ter se tornado Stalin- que tentam alertam sobre como as pessoas ao nosso redor podem não estar preparadas para nossas mensagens “do futuro”, mas que, certamente, dizem mais sobre nós mesmo do que sobre os outros:

À Lua
Joseb Jughashvili (1895)

Ele bateu na porta de estranhos
Indo de casa em casa
Com uma velha viola georgiana de carvalho
E uma de suas simples canções.

Mas, na sua canção, sua canção –
Pura como o próprio brilho do sol –
Ressoava uma verdade profunda,
Ressoava um sonho elevado.

Corações que haviam se tornado em pedra
Começaram a bater mais uma vez;
Em muitos, ele despertava uma mente
Que dormitava em trevas profundas.

Mas, ao invés dos louros que ele merecia,
As pessoas dessa terra
Ao pária ofereciam veneno,
Colocando um copo em sua mão.

Eles lhe diziam: “Seu desgraçado, você deve
Beber isto, enxugue o copo…
Sua canção é coisa de outro mundo para nós,
Nós preferimos viver numa mentira!”

 

TL;DR: “A História me absolverá.” Fidel Castro, 1953.

O Laranja, o Preto e o Invisível

Orange is the New Black é uma série de sucesso no Netflix (e você com certeza já viu todos os episódios). Baseada em fatos reais, ela narra a experiência de Piper Chapman, uma mulher branca de classe alta e educação superior, que foi parar na cadeia por um pequeno deslize da sua juventude. O pequeno deslize em questão foi ajudar a traficante internacional de drogas (e sua amante), Alexander Vause, a transportar dinheiro de drogas entre a Europa e os Estados Unidos.

O seriado é uma comédia dramática e, pelo menos na primeira temporada, boa parte das risadas e das lágrimas que ele desperta vêm da dificuldade de Piper em se adaptar à realidade de estar numa prisão, ainda que de segurança mínima. Acostumada com uma vida mimada em Boston, ela tem sérias dificuldades em lidar com a ausência de conforto, liberdade e privacidade da vida na prisão.

De detalhes pequenos, como a necessidade de se improvisar chinelos para não pegar frieira nos banheiros coletivos, até um irremediável distanciamento social, econômico, político, filosófico, religioso e linguístico entre Piper e os outros presos, tudo mostra que aquele não é o lugar dela. Tudo é estranho, inacessível e incompreensível para a loira rica de Boston e parece que o mundo dela vai desabar.

Aos poucos, porém, ela começa a compreender que suas companheiras de prisão não são pessoas tão distantes dela e que todas compartilham uma fagulha comum de humanidade. Ela enxerga que as outras presas são indivíduos com desejos, aspirações, falhas, dilemas, contradições e ambições como ela mesma. As histórias de vida das outras detentas são reveladas, de maneira individual, por flashbacks que mostram quais crimes elas cometeram no passado, e por quais razões.

De repente, a loira rica não é só um ser superior que estupidamente descendeu aos escalões da plebe profana. Ela passa a defender o interesse das outras presas pessoas (e faz questão que elas sejam vistas como indivíduos, não como fantasmas abstratos do mal) e se enxerga nelas. A cozinheira russa maluca, a homocida haitiana justiceira, as jovens traficantes negras e mexicanas, todas elas, estão no mesmo barco e são equivalentes no plano moral, ainda que não no social-econômico.

Por causa dessa delicadeza e sensibilidade de quebrar a barreira social entre os ricos e os excluídos, mostrando que todo indivíduo tem uma história digna de seriado,  a série ganhou tantos prêmios que fiquei com preguiça de contar e se tornou a série mais assistida no Netflix. Bem… só que há só um probleminha com essa ideia de se pensar nos pobres e nos esquecidos… e as vítimas do tráfico de internacional de drogas que Chapman, tanto no seriado quanto na vida real, de maneira narcisista e egoísta, condenou à morte?

Essa questão não é nem remotamente abordada no seriado, nem sequer tangencialmente mencionada. Chapman passa meses na cadeia e ela tem infinitas oportunidades para refletir sobre tudo o que ela fez na vida dela. De fato, há vários momentos, sobretudo no começo da série e quando ela está na solitária, quando ela pensa no passado e nas decisões da vida dela. Ela reflete sobre como as decisões da sua vida, anos depois, afetaram: seu relacionamento com seu noivo, sua sexualidade, sua relação com seus pais, sua relação com sua melhor amiga, sua relação com sua ex-namorada lésbica, seu trabalho, a empresa que ela tinha, o trabalho do noivo dela, suas novas amizades na cadeia, a maneira como ela vê as outras mulheres e por aí vai…

Nunca, porém, nem por um único momento, passa pela cabecinha alienada dela que o fato de que ela ajudou um traficante – que ainda por cima era um Senhor das Armas da África Ocidental – a conseguir dezenas de milhares de dólares. Essas dezenas de milhares de dólares, depois, se transformariam em armas e corrupção de oficiais que levariam nós, terceiro mundistas, a termos vidas ainda mais difíceis. O Laranja é o novo Preto, mas o Terceiro Mundo é invisível e não faz parte dos “excluídos” que são incluídos nas considerações da série. Nós somos excluídos de segundo grau, ausentes até do grupo dos que já estão marginalizados.

E, não, este autor não está sendo pedante, melodramático ou moralista. Ok, talvez esteja, mas o ponto é válido. Nós, brasileiros, sabemos o quanto o tráfico de drogas está afundando nosso país e nem sequer preciso elaborar sobre o assunto. Acima disso, porém, a ONU considera que o tráfico de drogas seja uma séria ameaça à paz mundial e, em particular, à África e ao Oriente Médio.

Em Orange is The New Black, o país exato de origem do traficante que Chapman ajuda não é mencionado, mas é seguro assumir que ele seria de nosso parceiro de colonização, a Guiné-Bissau, que se tornou um dos países africanos mais importantes para o escoamento internacional do tráfico de cocaína. Esse país é tão pobre que, até 2010, literalmente, não existiam prisões no país e a primeira que construíram sequer tinha fundos para colocar barras nas celas. É um grau de miséria e sofrimento que sequer podemos começar a compreender. Estima-se que o tráfico de cocaína seja duas vezes maior que o PIB dessa nação, então é fácil de imaginar o como é fácil corromper oficiais com dinheiro do tráfico. O fato de que Piper Chapman para que essa nação afundasse no lodo, porém, jamais pesa na consciência dela.

Traficar drogas na África Ocidental é quase tão charmoso quanto no seriado. Agence France-Presse.

Traficar drogas na África Ocidental é quase tão charmoso quanto no seriado. Agence France-Presse.

Aliás, no seriado há algmas cenas sobre o poder devastador do vício em drogas. Uma personagem, inclusive, até morre de overdose e isso é visto como uma grande tragédia. O elo entre o fato de que viciados compram drogas de traficantes e que Chapman e sua amante eram traficantes jamais é feito, porém. Ou, então, é ofuscado pelo glamour do quão chique é ser um traficante internacional de drogas, um bon vivant (se você não sabe é o que é um bon vivant, então você não é um bon vivant) que aproveita das melhores coisas da vida. Ou ele é abafado pelo som de outras preocupações importantes para a protagonista, como, por exemplo, que os pais delas são pessoas horríveis por não a aceitarem na alta sociedade de volta. Jamais, porém, ela considera se ela seria uma pessoa má e que mereceria sofrer. A grande epifania de Chapman foi descobrir que ela é igual aos outros presos, mas, na verdade, ela é pior que os demais e isso ela ainda não enxergou. Que seja.

"Eu estou aqui porque eu não sou diferente das outras pessoas aqui." Não, Piper, você só é impenitente e pior que as outras.

“Eu estou aqui porque eu não sou diferente das outras pessoas aqui.”
Não, Piper, você só é impenitente e pior que as outras.

Como as pessoas-formigas que são esmagadas pelos caprichos narcisistas da nossa companheira loira não recebem atenção, eu deixarei aqui uma contraparte: uma oração. Um poema-oração à Virgem Maria que o poeta francês Francis Jammes escreveu em 1906 e dedicou a todos os esquecidos e excluídos:

(…)

Agonia.

Pelo menininho que morre ao lado de sua mãe
Enquanto que outras ciranças se divertem no pátio;
E pelo pássaro ferido que não sabe como
Sua asa, subitamente, começa a sangrar e perde altura;
Pela a sede, a fome e o delírio ardente:
Eu te rogo, Maria.

Flagelação.

Pelos os rapazes que apanham do bêbado que volta para casa,
Pelo asno que recebe chutes na barriga,
Pela humilhação do inocente que é castigado,
Pelos filhos cujas mães foram insultadas:
Eu te rogo, Maria.

Coroação de Espinhos.

Pelo mendigo que nunca teve outra coroa
Que o vôo das vespas, amigas dos pomares amarelos,
E outro cetro que um bastão contra os cachorros;
Pelo poeta cuja cabeça sangrante é cingida
De espinhos dos desejos que ele jamais obteve:
Eu te rogo, Maria.

Carregamento da Cruz.

Pela velha que, tremendo sob peso excessivo,
Grita: “Meu Deus!”. Pelo infeliz cujos braços
Não puderam se apoiar sobre um amor humano
Como a Cruz do Filho sobre Simão de Cirene;
Pelo cavalo caído sob a carruagem que o arrasta:
Eu te rogo, Maria.

Crucificação

Pelos quatro horizontes que crucificam o Mundo,
Por todos aqueles cuja carne se desfaz ou sucumbe,
Por todos aqueles que são sem pés, por aqueles que são sem mãos,
Pelos doentes que foram operados e gemem
E pelo justo colocado ao lado dos assassinos:
Eu te rogo, Maria

(…)

TL;DR: “Na prisão, eu aprendi, tipo, que tudo mundo é igual no mundo, mas que o Terceiro Mundo não existe.”

A Terra Desolada de T. S. Eliot em Mad Max

Universos pós-apocalípticos são cenários normais para filmes, video-games e livros hoje em dia. Há um certo consenso de que os filmes australianos Mad Max  (1979) e Mad Max 2: The Road Warrior (1981) foram os responsáveis por tornar esse tipo de cenário comum para as audiências modernas. Embora, sem dúvida, esses filmes tenham sido divisores de água nas artes, eu ainda acredito que eles, por sua vez, não teriam existido sem a poesia do nobel estadunidense Thomas S. Eliot.

Após ter observado os horrores da Primeira Guerra Mundial,  T. S. Eliot, utilizando-se de uma metáfora geográfica e climática, descreveu liricamente um mundo no qual o potencial humano de destruição deixou todos os aspectos da humanidade estéreis. Essa obra se chama “The Waste Land”, que o poeta Ivan Junqueira traduziu como “Terra Desolada”. A edição traduzida que ele fez dessa obra está esgotada no Brasil inteiro, então as traduções deste post serão do autor do blog.

The Waste Land, um poema dividido em cinco cantos, foi publicado em 1922, quando T.S Eliot estava em convalensça… convalênscia… convalescênça num hospital suíço. Além de uma crise pessoal na sua vida matrimonial, Eliot estava estressado com seu trabalho num banco e, acima de tudo, desiludido com o Ocidente, após ter observado a destruição em escala industrial da Primeira Grande Guerra, a primeira guerra total da modernidade. Assim, o tom da a obra é permeado por um cético pessimismo em relação à capacidade, e à possibilidade, de regeneração da humanidade após ela ter revelado sua habilidade de aliar engenho à destruição. A citação do poeta latino Petrônio que abre The Waste Land resume bem essa visão de mundo: nela, uma sibila – uma sacerdotisa da Grécia mítica que era capaz de prever o porvir – afirma, diante da descoberta do futuro, que ela deseja morrer.

Em suma, Eliot crê que a humanidade se esterilizou e que o futuro não reserva nenhuma possibilidade de melhora e… bem… duas décadas depois dele publicar esse poema, a humanidade deu ao mundo o fascismo, o nazismo, o stalinismo, o Holodomor, o Holocausto, o Massacre de Nanquim, Auschwitz e a Unidade 731 e, por fim, a bomba atômica. Esta última seria o testamento da humanidade, pois ela tornaria viável, pela primeira vez na História, sua completa e irrevocável extinção.

"O Triunfo da Morte" de Pieter Bruegel, o Velho, 1562. Museu do Prado, Madri.

“O Triunfo da Morte” de Pieter Bruegel, o Velho, 1562. Museu do Prado, Madri.

“The Waste Land” é um texto profundamente hermético e elitista. Os 434 versos que o compõe são um emaranhando de citações  de livros religiosos ou de obras obscuras em inglês, francês, italiano, alemão, grego, latim e sânscrito. É praticamente impossível entender o texto sem centenas de notas de rodapé e dúzias e dúzias de páginas com anotações que o explicam. Dito isso, o quinto canto, no meu entendimento, é o mais fácil de entender e, talvez por isso, o mais significativo e prazeroso de se ler. É ele que resume melhor a imagem da humanidade estéril em busca vã de salvação:

V. O QUE O TROVÃO  DISSE

(…)

Aquele que vivia agora está morto

Nós que vivíamos agora estamos morrendo

Com um pouco de paciência

Aqui não há água, mas só rocha

Rocha e nenhuma água e a estrada arenosa

O caminho serpenteando acima, por entre as montanhas

Que são as montanhas de rocha sem água

Se houvesse água, nós deveríamos parar e beber

Entre as rochas, não se pode parar ou pensar

Suor está seco e os pés na areia

Monte morto numa boca com dentes careados que não pode cuspir

Aqui não se pode estar de pé, nem deitar-se e tampouco sentar-se

Não há sequer silêncio nas montanhas

Mas o seco, estéril trovão sem chuva

Não há sequer solidão nas montanhas

Mas as faces vermelhas e inchadas que escarneiam e rugem

De portas de casas de argila rachada

Se houvesse água

E nenhum rocha

Se houvesse rocha

E também água

E água

Uma fonte

Uma poça entre as rochas

Não a cigarra

E a grama seca assobiando

Mas o som da água sobre a rocha

(…)

Mas não há água.

É precisamente esse clima que se percebe em Mad Max. Tudo é rocha e areia num campo estéril onde nada cresce: nem plantações, nem sociedades e nem relacionamentos humanos. A hostilidade da rocha é instilada no espírito humano e a única interação entre os indivíduos é, basicamente, uma medição de poder. Isso é especialmente verdadeiro em Mad Max: Estrada da Fúria, que apresenta a luta pela distribuição da água como uma metáfora dos esforços humanos de acabar com a esterilidade da guerra nuclear e recuperar a fertilidade da civilização.

De fato, no filme, o poder do vilão Immortan Joe reside no fato que ele controla a distribuição de água na sua cidade. Ele possui um clã numeroso, um exército grande, uma frota notável de veículos, muitas mulheres para a reprodução e por aí vai. No final das contas, porém, o mais importante é que ele controla o acesso à água. A água permite o renascimento da paz e da vida no mundo e, enquanto ela estiver represada, Immortan Joe é o senhor da guerra e da morte.

Há uma analogia interessante aqui entre a figura de Immortan Joe e de Jesus Cristo. Enquanto um represa a água e cobra por ela, o Cristo a oferece de graça a todos que vem buscá-la, conforme profetizado por João no Apocalipse 21:6: “Eis que está cumprido! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Àqueles que tiverem sede, eu darei gratuitamente a água da fonte da vida.” Essa analogia é aprofundada num video-game, também inspirado na obra de T. S. Eliot, chamado Fallout, mas isso ficará para uma reflexão futura.

Por enquanto, encerro esta postagem lembrando que, enquanto a coisa esquenta na Síria e no Iraque; os Estados Unidos da América e o Brasil enfrentam secas históricas; milhares de pessoas morrem devido às ondas de calor na Índia e no Paquistão a temperatura quebra recordes no Canadá, Alemanha, França e Inglaterra, a humanidade talvez precise de uma mudança de clima radical… ou talvez, pelo menos, moderada.

TL;DR: “Guerra, a guerra nunca muda.”