Et in Arcadia…

Uma tentativa de apresentar a Arte como a afirmação da vida.

Mês: setembro, 2013

A história de um soneto que virou balé

Supuesto_retrato_de_Garcilaso_de_la_Vega             Suposto retrato de Garcilaso de la Vega, autor desconhecido
Fonte: Centro Virtual Cervantes

Garcilsao de la Vega (1494/1503 – 1536) foi um dos maiores escritores de língua espanhola e um dos maiores expoentes da literatura do Siglo de Oro, o Século de Ouro, dessa nação. Ele viveu numa época de extremos, em que poetas-soldados revezavam a pena com a espada e matavam e morriam por ódio e por amor, e de profundas mudanças, sintetizadas na ascenção de império espanhol como a potência global dominante e na descoberta -prontamente seguida da aniquilação- de civilizações incríveis, como os Astecas e os Maias. De acordo Eric Hobsbawm, somente o lançamento do iPhone 4S superou a importância histórica desse período.
A obra de Garcisaldo obra não é diferente de seu tempo e da sua vida, nas quais permeiam mudanças e sentimentos extremos, numa valsa estranha de dissonâncias, contradições e autenticidade. Em seus sonetos, pode-se ler o desespero e o vigor de um jovem que se equilibra entre a vontade de afirmar a vida, mas, também, de flertar com a morte. De fato, Garcilaso morreu em batalha, sob a bandeira do augusto Carlos I da Espanha, tentando invadir uma fortificação francesa.
Um dos seus sonetos mais célebres é o “Escrito está en mi alma vuestro gesto”. Em seus 14 versos,  ele descreve o sentimento pela pessoa amada como uma força fascinante que, ao mesmo tempo, é a origem e o fim de tudo. Traduzido literalmente, ele fica assim:

Escrito está en mi alma vuestro gesto
(Garcilaso de la Vega)

Escrito está na minha alma vosso gesto,
Tudo que eu desejo escrever sobre vós
Vós sozinha o escrevestes, e eu o leio
Tão-somente, que ainda, por vós, me vejo nisto.

E nisto estou e estarei sempre posto;
Que ainda que não caiba em mim o quanto eu vos vejo
De tanto bem que eu creio não entender,
Tendo já fé naquilo que é só presumido.

Eu não nasci se não para vos amar;
Minha alma foi feita à sua medida;
Por hábito, minha alma vos ama.

Tudo quanto tenho, confesso, a vós eu devo;
Por vós nasci, por vós tenho a vida,
Por vós hei de morrer y, por vós, morro.

Agora, o leitor deve estar se perguntando quem poderia ter causado tamanha impressão nesse poeta. O consenso da crítica literária é que a musa de Garcilaso tenha sido uma nobre portuguesa chamada Isabel Freyre, mas há, também, uma teoria de que sua musa, na verdade, tivesse sido uma dama da corte de Carlos I chamada Beatriz de Sá. Na qualidade de um mebro da casa de Sá, perguntei às minhas tias se elas sabiam algo a respeito, mas elas me censuraram, me chamaram de campesino e me disseram que não é de nobres ficar inquirindo acerca de amores alheios : (

Mas não é só por linhagem que Garcisalo de la Vega vive até hoje. A qualidade e a atemporalidade de sua obra faz com que ele seja tão presente hoje quanto ele o foi há quinhentos anos. De fato, esse soneto foi transformado em balé pelo coreógrafo espanhol Nacho Duato que, por sua vez, utilizou a música de Jordi Savall (possivelmente, o maior especialista de música antiga e renascentista do mundo) como pano de fundo para a sua adaptação.
Tive o privilégio de assisitir esse balé aqui, executado pela São Paulo Companhia de Dança. Embora, na verdade, eu não seja capacitado para compreender a significância dessas obas de maneira isolada e, menos ainda, em seu conjunto, fiquei com a firme impressão de que essa balé atesta a capacidade da arte de travar uma comunicação universal, atemporal e além dos imaginários confins que, arbitrariamente, separam as culturas do mundo. De fato, estava maravilhado e boquiaberto ao ver que o amor de poeta por uma dama de companhia se transformou em um soneto, que esse soneto se transformou em música, que essa música se transformou em dança e que eu estava lá a tranformar aquela apresentação em êxtase, comungando com pessoas de tempos e espaços diferentes. Eis que o amor de Garcilaso de la Vega, distilado em arte, não o salvou da morte na guerra, mas o deixou, em memória, vivo até hoje.

Este é um vídeo da Companía Nacional de Danza, da Espanha, executando esse balé. A combinação de todos os elementos do balé, da iluminação e das roupas até o fisiculturismo dos atletas e a música, nos ajuda expandir nossa percepção de arte além do que é convencionalmente aceito como digno de atenção. O vídeo está marcado para começar aos 10:45, quando o soneto é recitado, mas vale a pena ser visto por inteiro!

TL;DR: Há 500 anos, Garcilaso de la Vega escreveu um soneto. Esse soneto virou um balé e isso ficou bem da hora (totally not gay). Clica no link que ele mostra direto a parte do soneto.

 

 

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Et in Arcadia ego

Image
Et in Arcadia ego (1618) de Guercino. Copyright da Galleria Barberini.

“Et in Arcadia ego” pode ser traduzido como “e, [até mesmo] em Arcádia, eu [existo]”. Explico-me:

Arcádia é uma região colinosa do Peleponeso grego que, na antiguidade, simbolizava o ideal da recatada vida idílica. Lá, as únicas preocupações de seus habitantes, todos eles pastores, eram as de compor poesia, aproveitar o momento e, naturalmente, cuidar de suas ovelhas. Era o equivalente grego antigo do “Hakuna Matata” lol.
Quem pronuncia essa frase é a própria Morte. Ela lembra, portanto, que até mesmo lá onde as pessoas não se preocupam com ela e se ocupam de viver uma vida hedonista ela, inevitavelmente, chegará. Os pastores arcádicos, ao lerem essa inscrição num túmulo ficam chocados e, demonstrando uma angústia desconcertante, aproximam-se do túmulo para examiná-lo.

É nesse exato momento, que – de acordo com Plínio, o Velho e a tradição clássica – o homem descobre a arte da pintura. De fato, quando o pastor observa a projeção de sua sombra no túmulo, ele descobre a pintura e, então, contempla a arte como uma contraparte criativa à descoberta aterrorizante da morte. Embora o ser humano tenha descoberto que deve morrer, ele tentará preservar sua vida por meio da arte e, assim, tentará calmar suas angústias e se consolará da brevidade de sua existência. Nesse sentido, portanto, a arte nasce junto à descoberta da morte e é função dela que os seres humanos criam, tentando se preservar, durante e após a vida.

Depois de ter visto essa frase num fórum de canetas tinteiro num conceituado livro de História da Arte, decidi criar este blog e, em cada postagem, apresentar pelo menos uma obra de arte de qualquer natureza, de música, poesia e balé até HQ, video-game e design, que esteja coerente com a proposta da frase “Et in Arcadia ego”. Talvez, alguém aponte que não tenho credenciais para fazer isto: sou formado em Relações Internacionais. Aos que assim me acusarem, respondo que remediarei a minha falta de conhecimento sendo elitista, hermético e intoleravelmente prolixo. Além disso, colocarei uma seção “too long; didn’t read” no final de cada postagem, o que é bem rox.

Nunca fiz um blog antes e não tenho nem ideia de se isso dará certo ou não. Por isso, peço a todos vocês que me ajudem, compartilhando este blog ou me mandando sugestões de obras de arte, incluindo composições próprias, para que eu tenha sempre material para divulgar nele.

Bem, conforme a proposta apresentada, apresentarei um poema chamado “Je voudrais pas crever” do poeta contemporâneo francês Boris Vian. Mesmo havendo três séculos e meio de distância entre esse poeta e o Guercino, e os dois se expressarem em artes diferentes, essas obras parecem estabelecer um diálogo… ainda que Vian tenha uma linguagem um tanto quanto peculiar. Parando para pensar, o poema abaixo (ele não é grande! cada verso é pequeno, leia tudo, leitor!) serve para descrever a vida de um pasto arcádio até o momento em que ele descobre a inscrição que dá nome a este blog…

Aliás, a tradução do poema é minha. Se você não gostou dela, por favor, clique aqui.

Je voudrais pas crever
(Boris Vian)

Eu não gostaria de bater as botas
Sem, antes, ter conhecido
Os cachorros negros do México
Que dormem sem sonhar.
Os macacos de traseiro pelado
Devoradores dos trópicos
As aranhas de prata
Que tem ninhos cheios de buracos.

Eu não gostaria de bater as botas
Sem saber se a lua
Sob sua falsa face de moeda antiga
Tem um lado pontiagudo
Se o sol é frio
Sem saber se as quatro estações
São verdadeiramente quatro
Sem ter tentado

Sem ter tentado,
Vestindo uma saia,
Sair pelos grandes boulevards
Sem ter olhado
Dentro de uma tampa de esgoto
Sem ter colocado meu pingolim
Em lugares bizarros.

Eu não gosteria de acabar
Sem ter conhecido a lepra
Ou as sete enfermidades
Que você pode pegar lá embaixo
Nem o bom nem o mal
Me dariam pena
Se… se… se eu soubesse
Que teria a primazia
E há, também, por último
Tudo o que eu conheço
Tudo o que me dá prazer
Que eu sei que gosto
O fundo verde do mar
Onde os caules das algas dançam valsa
Sobre a areia ondulada
Da areia torrada de junho
A terra que se racha
O aroma das coníferas
Os beijos daquela,
Aquela lá, aquela,
A bela que, voilá,
A minha Ursinho Puff, a Úrsula.

Eu não gostaria de bater as botas,
Antes de ter acostumado
A minha boca à sua
Seu corpo, às minhas mãos
O resto, aos meus olhos,
Falar mais disto não é bom…
Permaneçamos respeitosos.

Eu não gostaria de bater as botas
Sem que alguém tenha inventado
As rosas eternas
Os dias de doze horas
Os mares nas montanhas
As montanhas nos mares
O fim da dor
Os jornais coloridos
Todas as crianças contentes
E muitos truques ainda
Que dormem dentro dos crâneos
Dos geniais engenheiros
Dos jardineiros joviais
Dos sossegados socialistas
Dos urbanos urbanistas
Dos pensativos pensadores
Tantas coisas para ver
Para ver e para escutar
Tanto tempo para esperar
E procurar no escuro
E eu, eu vejo o fim
Que se estica e que se apresenta
Com sua cara feia
E que me abre os braços
De rã manca

Eu não gostaria de bater as botas
Não, meu senhor, não, madame,
Antes de ter provado
O gosto que me atormenta
O gosto que é o mais forte.

Eu não gostaria de bater as botas
Antes de ter provado
O sabor da morte…

Assim será este blog. Todo feedback é bem vindo. Obrigado aos que o leram.
Ah, sim, abaixo, a versão TL;DR deste post:

TL;DR: Quadro: as pessoas fazem arte porque morrem. Poema: viver com arte dá sentido à vida. Estou fazendo um blog sem nem ter ideia do que é isto. Divulguem o blog e mandem sugestões.