Como me tornei estúpido

por desapiero

Uma explicação rápida seria: jogando 300 horas de Civilization e conquistando o mundo em mais de vinte maneiras diferentes. Esta postagem não é sobre isso, no entanto.

“Como me tornei estúpido” é o título de um livro que gentilmente ganhei de uma estimada amiga. Ele foi escrito por Martin Page, conhecido formalmente no meio literário pela alcunha de Harry Potter Vesgo.

Em resumo, o romance narra a estória de um rapaz, Antoine, que, devido a uma inteligência aguçada e a um implacável espírito questionador, vive incapaz de se comunicar com a maior parte da população e aprisionado numa implacável angústia existencial, que nem drogas e nem a perspectiva de um suicídio podem aplacar. Num certo momento, ele decide que tornar-se estúpido reduziria a sua angústia e o permitiria ser aceito pelo grosso da sociedade, o que lhe traria conforto e, possivelmente, felicidade.

Assim, Antoine começa a tomar antidepressivos, abandona a vida intelectual e cultural e mergulha o melhor que pode na vida de um cidadão comum, alheio a excentricidades e ao esforço de tentar desvendar o mundo. Em pouco tempo, ele se torna uma respeitável pessoa de sucesso, rica, linda, com um bom emprego e bem quisto pelas mulheres mais bonitas.

Não se passa muito tempo e os antigos amigos de Antoine o confrontam e o fazem questionar se é realmente isso que ele deseja para si: viver no conforto de estar dentro de um molde de um tipo social respeitável e a salvo da angústia do questionamento ético e filosófico da vida intelectualmente honesta ou, ao contrário, abandonar a aparência e buscar a essência das coisas e da vida, sob o risco de viver sendo julgado e em constante desilusão. Ele escolhe o primeiro, porque ser rico é lindo sempre vale mais a pena.

Sobre esse romance, me debruçarei em duas etapas: primeiro, abordarei a questão da ángustia existencial e, na próxima postagem, falarei sobre a condição de se viver alheio ao status de uma respeitável pessoa de sucesso. Tudo isso, naturalmente, será ladeado com referências a outras obras de arte e, também, com comentários espirituosos e irrelevantes, frutos de uma espécie de síndrome de Tourette composicional.

A ângustia do personagem Antoine advém do fato de que ele não se permite nenhum momento de sossego de crítica filosófico dos eventos que ocorrem à sua volta. A contemplação de uma simples chuva de verão, por exemplo, o remete ao sofrimento de milhares de pessoas ao longo mundo que são vítimas de castástrofes naturais e o ato de comprar uma fruta ou uma roupa qualquer  o enche de remorso, pelo fato de que a cadeia logística desses produtos está ligada, respectivamente, à degradação do meio ambiente por pesticidas e agrotóxicos e à degradação do ser humano, por meio da exploração do trabalho escravo e do trabalho infantil.

Além disso, sua angústia é ulteriormente agravada pela perspectiva da sociedade de consumo estar afundando-se em si mesma, sem trazer grandes benefícios para a humanidade. O fato, por exemplo, de dependermos de combustíveis fósseis para existirmos como somos, a seu ver, só pode levar à cética conclusão de que estamos nos aproximando, de maneira acelerada, ao fim, ao esquecimento e ao nada. Ou seja, a civilização está, com um mórbido sorriso no rosto e em profunda ignorância, acabando.

Tal sentimento leva a uma condição de afastamento nigilista da vida e nos deixa em um estado que pendula entre o desespero e a apatia. Isso não é prerrogativa de escritores, porém, e o mesmo estado é apresentado de maneira soberba em quadrinhos, como nos discursos do Dr. Manhattan da série Watchmen e com uma pontinha de azeda ironia no episódio “You’re getting old” do  desenho animado South Park. Nesse episódio, vale uma menção especial o fato de que tudo o que o personagem Stan vê e ouve, literalmente, é merda; pessoas conversando na rua se tornam pedaços gigantes de fezes regurgitando excrementos pela boca. Apesar do tom, é uma critica sutil ao estado de apatia em que uma contemplação sincera de nossa sociedade pode levar.

Esta postagem, porém, já está ficando, ela mesma, velha e chata, então convém que ela se encerre aqui. Como finale, então, deixo uma a canção é “If you’re feeling sinister” de Belle and Sebastian, com seus versos não tão otimistas:

“Se você está se sentindo sinistro,
Vá e procure um ministro protestante
E ele tentará, em vão, acabar com a sua dor de ser um descrente sem cura…”

Imagem
A bebedoura de absinto (detalhe), 1876 de Edgar Degas.

Qualquer tipo de apatia é melhor que qualquer tipo de dor?

TL;DR: Se vc ficar lendo de+, vai virar um loser q reclama de tudo e não é feliz com nada. Assim, não será uma respeitável pessoa de sucesso.

Anúncios