Como me tornei estúpido, part deux

por desapiero

Antes que alguém pergunte: escrever em francês me dá crédito na praça!

 A segunda parte do livro “Como me tornei estúpido”, de  Martin Paige, aborda a importante questão de ser uma pessoa rica e linda. Nela, o protagonista, Antoine, consegue um emprego de sucesso no mercado financeiro e, rapidamente, acumula tudo aquilo que o torna elegível a ser algum estimado pelos nossos parâmetros: um apartamento impressionante, um carro esportivo, roupas caras, um corpo bombado e a atenção das mulheres mais sensuais do pedaço. Em outras palavras, ele se torna um macho alfa dominante.

Essa leitura nos lembra de que há dois tipos de castas em nossa sociedade; nós somos divididos entre os perdedores e as respeitáveis pessoas de sucesso, que, por sua vez, no seu topo, acomodam os machos alfas dominantes (mulheres não têm lugar aqui, feministas!).

A primeira casta, os hilotas da modernidade, é formada pelo sal terra, ou seja, pelas minorias que formam a maioria do mundo: feios, marginais, pobres, dissidentes, professores (exceto no dia do professor), toda sorte de vanguardistas, atores, bailarinos, artistas circenses, garis, gordos, emos, poetas, punks, pessoas que decidem seguir suas próprias ambições, pensadores, cosplayers, boxeadores, todo mundo que usa transporte público, pessoas que usam suspensórios e, sobretudo, quem não tem um iPod. Eles são os burros de carga da humanidade e somente o chicote deve lhes dirigir palavra.

A casta superior é formada pelas respeitáveis pessoas de sucesso, também conhecida como “pessoas normais”. Elas são todas aquelas pessoas que usam roupas sociais caras todos os dias e têm um emprego de verdade, ou seja, não cuidam de crianças, cozinham ou escrevem blogs. Sua vida consiste em automatizar-se na indiferença e trabalhar  Além disso, elas são sexualmente ativas e dominantes e nunca, nunca mesmo leram Cinquenta tons de cinza porque todo mundo sabe que quem lê esse livro não é uma pessoa normal, não é mesmo? Os melhores entre eles formam os machos alfas dominantes, homens eternamente de ternos, com carros e relógios grandes. É em função deles que as políticas globais são definidas, mas tudo bem, porque, sendo superiores, eles sabem o que estão fazendo com o nosso mundo.

Na História da Arte, diversos pintores tentaram apresentar os perdedores para as respeitáveis pessoas de sucesso e, quase sempre, eles acabaram caindo em desgraça e morrendo esquecidos para, depois, ironicamente, terem suas obras cobiçadas e vendidas a preços exorbitantes.

Entre essas pessoas, Honoré Daumier é um exemplo típico. Passou sua vida retratando a vida das pessoas comuns e satirizando seus opressores. Morreu cego e ignorado, mas, felizmente, hoje, suas obras têm o reconhecimento que merecem. O “Vagão de Terceira Classe” é uma obra extremamente atual num Brasil em que pegar ônibus é o maior distintivo de ser um farofeiro. Nessa tela, ao menos por um pouco, os perdedores têm sua hora de estrela.

TL;DR: Você poder ser uma respeitável e fotogênica pessoa de sucesso, ou você pode ser um perdedor. Alguns artistas são malucos e decidem representar os losers, como esse quadro do populacho atochado num vagão de farofeiros.

5.1.5

Vagão de terceira classe, (1863-1865)
Honoré Daumier, National Gallery of Canada (há uma versão similar no Metropolitan de Nova Iorque)

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