Dalí, Dante e de la Barca

por desapiero

Imagem
Dante é purificado e está pronto para entrar no Paraíso
Salvador Dalí, 1965.

Encerrou-se hoje, na Caixa Cultural, a exposição das 100 aquarelas que o espanhol Salvador Dalí fez para ilustrar a Divina Comédia do italiano Dante Alighieri. Após desviar de alguns mendigos-zumbis e bater em outros com um pedaço de pau, pude entrar na galeria e ver todas essas aquarelas, com citações dos cantos que elas ilustram, e regozijar-me, profundamente imerso em minha síndrome de Stendhal.

A intersecção entre Dalí e o Sumo Poeta é poderosa: a imaginação de Dante é amplificada pelos desenhos de Dalí de uma maneira que as aquarelas, todas pequenas em suas dimensões, são, a um só tempo, assustadoras, intrigantes e perigosamente cativantes. Embora a exposição fosse curta, em pouco tempo, você perde noção de tempo e espaço e se deixa levar pelo “método paranóico-crítico” do pintor.

Assim que saí de lá, porém, me deparei com uma legião de drogados que, de uma maneira ou de outra, tentavam conseguir dinheiro, atenção ou compaixão das pessoas que saíam da exposição. A contemplação do marco zero da cidade de São Paulo e de sua maior catedral num estado de completo abandono, ocupados somente por aqueles que já nem são mais considerados como pessoas, me deram a impressão de estar na terra desolada de T.S. Eliot, ou preso num cenário surreal, mas não no centro de uma metrópolis com mais de 10 milhões de pessoas. A impressão era de que a realidade fosse um sonho e de que o surreal fosse real. Nesse momento, me lembrei de um conterrâneo de Dalí.

Pedro Calderón de la Barca escreveu, em 1635, “A Vida é Sonho”, uma peça de teatro que é considerada como uma obra prima do barroco literário espanhol. Nela, Calderón de la Barca reflete sobre a fragilidade da vida naqueles aspectos que parecem ser os mais importantes e mais firmes.

Ele expõe a vida não como o resultado lógico de uma série de escolhas racionais tomadas por pessoas conscientes, mas como o fruto inconsequente da busca louca dos seres humanos por caprichos que, ou nunca se realizarão, ou se realizarão e se mostrarão efêmeros como o nada. Nesse sentido, a realidade que ignoramos todos os dias pode se mostrar mais estranha que um sonho e mais assutadora que um pesadelo.

La Vida es Sueño (ato II)

Sonha o rei que é rei e vive
Com esse sonho mandando,
Despondo e governando;
E esse aplauso que recebe
Precário no vento escreve
E em cinzas o converte
A morte, desgraça forte!
Que [surpresa] que haja quem tente reinar,
Vendo que se há de despertar
No sonho da morte!

Sonha o rico em sua riqueza,
Que mais cuidados lhe oferece;
Sonha o pobre que padece
Sua miséria e sua pobreza
Sonha aquele começa a enriquecer,
Sonha quem afana e pretende,
Sonha quem é ofendido e ofende,
E neste mundo, em conclusão,
Todos sonham o que são
Ainda que ninguém o entenda.
Eu sonho que estou aqui […]

O que é a vida? Um frenesi.
O que é a vida? Uma ficção.
Uma sombra, uma ilusão,
E o maior bem é pequeno
Que toda vida é sonho
E os sonhos, sonhos são.

 

TL;DR: Dalí ilustrou a Divina Comédia de Dante com 100 aquarelas. Ver a multidão de nóias na Praça da Sé, por incrível que pareça, é mais estranho que ver as obras do Dalí. Um autor espanhol fala sobre como a vida é estranha e, por vezes, parece um sonho.

Bons sonhos!

Anúncios