Arthur Cravan, o poeta que lutou boxe com Jack Johnson

por desapiero

Cravan

“Os embrutecidos só vem a beleza naquilo que é belo.” A. Cravan

A poesia, a mais nobre das loucuras, é uma prerrogativa de gente desequilibrada e toda pessoa que decide tingir seus dedos em anil na vã expectativa de mudar os corações ou de mudar o mundo é um triste desiludido. Algumas pessoas, porém, forçam a barra e vão mais além das definições convencionais de socialmente inapropriado. O poeta dadaísta anglo-suíço Arthur Cravan, por exemplo, desafiou Jack Johson para uma partida de boxe. Sérião.

Cravan era um herói dadaísta. Ele, sobrinho de Oscar Wilde, era um dandy incorregível que viajou pela Europa durante toda sua vida, trabalhando como poeta, cantor, boxeador e crítico de arte. Sua especialidade, porém, era espalhar escândalo e provocação e, da melhor maneira possível, chocar todos os elementos da sociedade, desde o populacho até os burgueses e os críticos de arte. Como um perefeito troll, quase todas as suas aparições públicas terminavam com ele completamente bêbado dando porrada em quer que estivesse perto dele. Da hora!

Sua produção literária não foi muito extensa, sendo sua publicação “Maintenant!” (Agora!, em francês) um dos seus principais legados. Nas páginas anarquistas dessa revista ele enfurecia todo mundo com afirmações como: “Toda a Literatura não passa de ta ta ta ta ta ta.” e “A arte? A arte? Sabe o que eu acho dela? Que é uma merda!”

Seus dias de trollagem duraram pouco, porém, já que, depois de fugir da Europa com passaportes falsos, ele foi parar no México e, de lá, ele morreu tentando ir num barco veleiro de lá até Buenos Aires. Pois é…  De acordo com Philippe Squarzonni, ele foi ainda mais hardcore, pois morreu enquanto lançava cruzados e uppers numa orca que o matou (não estou inventando isso). Seu ato mais louco, titanista e dadaísta, contudo, certamente foi o de desafiar o boxeador Jack Johson, após ter se auto declarado campeão europeu.

É impossível descrever a importância de Johson para o boxe. Só direi aqui que foi graças a ele que, hoje em dia, nós vemos duelos entre pessoas de cores diferentes no pugilismo e no MMA: antes de Jack Johson, o boxe era divido entre ligas de brancos e ligas de negros e foi devido à sua carreira estelar que decidiram, com muita relutância, permitir que ele lutasse contra um branco (tiveram que parar a luta antes que ele destruísse o adversário pálido, porém lol). Além disso, atualmente, Jack Johnson é branco e toca música que maconheiros gostam de ouvir. De qualquer maneira, é óbvio que Cravan não tinha a menor chance de ganhar. Mesmo assim, ele resistiu por 6 rounds antes de ser nocauteado, o que é impressionante, dado o nível de seu oponente.

O aspecto mais importante da vida de Arthur Cravan, no entanto, é o fato de que ele provou a si e a todos que nós podemos nos reiventar e sermos aquilo que queremos ser. Com sua postura maluca, ele provou que, muito além dos preconceitos de uma sociedade de mentalidade limitada, nós podemos ser poetas, boxeadores, velejadores ou críticos de arte, se assim quisermos. De fato, o verdadeiro sinal da loucura deve ser o de se limitar a ser aquilo que pensam de nós, ao invés de ser aquilo que acreditamos ser. Assim, convido o entediado leitor a pensar: o que é que eu quero ser hoje, ou amanhã?
A minha resposta, como todos sabem, é: o Homem-Aranha!

“É necessário olhar o mundo como o faz uma criança, com grandes olhos estupefatos: ele é tão bonito!
Vão correr nos campos, atravessar as planícies à velocidade máxima, como um cavalo; pulem corda e, quando vocês tiverem 6 anos, vocês não saberão mais nada e vocês verão coisas loucas.” Arhur Cravan, Maintenant!, vol. 4

TL;DR: O sobrinho do Oscar Wilde era um poeta muito louco que metia porrada em todo mundo, mesmo que apanhasse, e ele morreu lutando contra uma baleia. Se ele pode fazer isso, nós o podemos também!

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