“Eu sou uma pessoa má e mereço sofrer.”

por desapiero

Não é muito comum ler ou ouvir uma frase dessas. Pode  até mesmo parecer que eu a retirei de um sermão católico, mas, na verdade, eu a peguei, escancarada desse jeito, do seriado Breaking Bad, quando, por um momento, os protagonistas da série chegam à conclusão de que eles merecem sofrer pelas coisas que eles fizeram. Fiquei me perguntando o que é necessário para que alguém admita algo assim.

Logo me lembrei do livro Subliminar de Leonard Mlodinow, no qual o autor utiliza teoria psicoanalítica, psicologia evolutiva e neurociência para realizar uma série de afirmações polêmicas. Entre elas, que a bondade imparcial e a justiça são biologicamente impossíveis para os seres humanos e que, similarmente, nossa mente nos impede de que nos julguemos de maneira imparcial, ou não conseguiríamos viver com a constatação de que somos pessoas más, mesquinhas e egoístas. Em, suma, o autor afirma que somos ruins e nos recusamos a enxergar isso.

Talvez por culpa de minha falta de repertório, essas afirmações parecerem inéditas para mim. Há uma pletora de obras que qualificam o mundo como ruim e as pessoas como más, mas achei que é bem raro alguém conseguir apontar para si e reconhecer em si as coisas que há de errado. Neste momento, alguém provavelmente citaria o romance Crime e Castigo como prova de que estou errado, mas, diante desse argumento, eu me detenho e o rechaço.

Sob o risco da vexação das pessoas que, ao contrário de mim, possuem estudo formal em Letras, afirmo que Crime e Castigo, em última instância, não é sobre arrependimento ou supressão do ego. De fato, Raskolnikov, o protagonista, acredita que, mesmo após ter matado duas pessoas a machadadas (pwned lol) ele ainda pode melhorar e merece ser aceito de volta na sociedade. Ou seja, ele se crê merecedor da salvação. Isso me fez acreditar que Breaking Bad leva a reflexão mais a fundo e despersonaliza a pessoa: o ser se pensa em função do que ele vale para a sociedade e não parte do pressuposto de que o perdão é garantido. Nesse sentido, embora Dostoiésvky, pelo poder que emana de sua barba e de seu nome complicado, seja o detentor inconteste do título de intelectual profundo, parece que surge um desafiante: Bioshock Infinite.

Bioshock Infinite é um jogo de video-game lançado este ano pela Irrational Games. (é, eu sei, estou comparando video-game a Dostoiévsky) Nele, Booker, o protagonista, vive e revive sua vida de diversas maneiras e em diversas realidades quânticas de espaço e tempo. Invariavelmente, ele chega à conclusão de que ele é uma pessoa má, intolerante, autoritária, violenta e destrutiva e percebe que, na verdade, o mundo não só não precisa dele, mas, de fato, é melhor sem ele. Numa imensa reviravolta de enredo, o jogador deve  completar o jogo para destruir a si mesmo; o “chefão” do jogo é o próprio Booker e o jogador deve ajudá-lo a salvar-se de si mesmo. No surpreendente final, pelo bem de todos, Booker volta ao passado, ao dia em que foi re-batizado em um rio, e, voluntariamente, se afoga, enquanto vê suas filhas, que deixarão de existir no futuro, desaparecerem diante de seus olhos. Ele reconhece que é uma pessoa má e que ele deve morrer e o jogador deve cumprir essa missão.

Booker reconhece que é um mal para o mundo e, voluntariamente, se afoga, diante de suas filhas.

Booker reconhece que é um mal para o mundo e, voluntariamente, se afoga, diante de suas filhas.

 

Diante disso, eu me coloquei a seguinte questão: o que será de nós? Somos como Raskolnikov e podemos/merecemos a redenção? Ou, como sugere Mlodinow e Booker exemplifica, somos incapazes da bondade real e de mudanças e o mundo é melhor sem nós? Nós, os filhos do Ocidente. Nós, os conquistadores de índios, escravizadores de negros, subjugadores de mulheres, senhores da guerra, envenenadores da natureza, dominadores do átomo. O que foi que realmente fizemos para o mundo? Somos capazes de sermos bons, ou, como grunhe Lemmy Kilmister, nós não somos mocinhos, no final das contas? E agora, para quem voltaremos nossos olhos deicidas?

Procurei resposta por todas partes, mas o máximo que eu achei foi um aviso para parar de procurar. Ele emanava, vejam só, da boca maldita de um sifílico esquizofrênico:

“Não enfrente monstros, sob o risco de tornar-te um deles. Se contemplares o abismo por muito tempo, sabe que o abismo te contemplará de volta.”

TL;DR: I thought that I was living out the perfect life/ But in the lonely hours when the truth begins to bite/ I thought about the times when I turned my back & stalled/ I ain’t no nice guy after all

 

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