Mulheres fazendo o trabalho de homens e homens fazendo trabalho nenhum…

por desapiero

No colegial, comprei um caderno das Meninas Super Poderosas e, desde então, elas começaram a me trazer más lembranças. Elas me lembravam das folhas nas quais escrevi meia centena de sonetos esquecidos, sem contar de que, mais de uma vez, esse caderno me valeu umas (justificadas) surras entre os intervalos de uma aula e outra.

Recentemente, porém, eu mudei de ideia. Um amigo me enviou um link com um artigo sobre igualdade de gêneros e as Meninas Super Poderosas. Em síntese, ele afirma que esse desenho animado é mais eficiente em incutir nas crianças um espírito de igualdade de gêneros e de desconstrução dos moldes estereotipados de papéis socias dos sexos do que aulas normais numa escola. Com efeito, quem assistiu o programa deve se lembrar que o Professor tinha o papel de mãe das três meninas, que vários personagem se vestiam como pessoas do sexo oposto e que, de maneira geral, os homens são apresentados como atrapalhados e frágeis, enquanto as mulheres são expostas como o sexo forte, ou, melhor ainda, super poderoso.

A ideia de mulheres de liderança batendo em homens incompetentes e salvando a pátria no final do dia me fez lembrar de outra figura heróica. Essa mulher, porém, foi muito mais hardcore que as Meninas Super Poderosas e, de fato, teve um conduta e, sobretudo, um fim  mais heróico. Naturalmente, me refiro à Joana d’Arc.

J

Joana d’Arc, 1485. Centro Histórico dos Arquivos Nacionais de Paris.
A semelhança de estilo com As Meninas Super Poderosas é uma coincidência.

Santa Joana d’Arc (canonizada a 16 de maio de 1920) foi a Éowyn – ou a Katniss Everdeen, para os mais novinhos – da vida real. Na França ocupada da Idade Média, a Virgem de Orleans convenceu a família ducal de Orleans e a monarquia francesa a lhe darem o comando de suas tropas e, aos 17 anos de idade, ela , com armadura completa de cavaleiro, liderou pessoalmente as tropas francesas numa série de vitórias militares. Quando Santa Joana assumiu a liderança militar do país, boa parte do território francês, incluindo Paris, jazia sob julgo inglês, mas, após vitórias inacreditáveis e em pouco mais de um ano, ela estava na base dos ingleses, matando os carinhas deles.

Joana d’Arc nunca foi propriamente derrotada em batalha, mas seu excesso de cavalheirismo (ou “damismo” ?) a levou a ser capturada numa escaramuça em 23 de maio de 1430: ela se manteve no campo de batalha até que todas suas tropas pudessem ser evacuadas. Embora tal postura preservasse sua honra, o mesmo não pode ser dito de sua liberdade. Tomada pelos ingleses e abandonada por seus compatriotas, que se recusaram a pagar por sua libertação,  Joana foi injustamente acusada de heresia e, um ano depois, foi queimada viva na cidade de Rouen. Se a tivessem salvo, a História da França poderia ter seguido outros rumos, mas jamais saberemos disso…

Santa Joana d’Arc teve uma boa vida e uma boa morte, além de demonstrar uma coragem que supera a de heróis e heroínas de qualquer desenho ou história em quadrinhos. Seu legado é um exemplo indelével de que não há barreiras relevantes entre gêneros e que a virtude do indivíduo supera todos os preconceitos que uma sociedade ignorante, ingrata e mesquinha pode inventar. E para cimentar essa ideia, citarei um poema super poderoso escrito durante sua vida, em 1429, composto, vejam só, por uma mulher: a nobre veneziana Christine de Pisan:

Canção de Joana d’Arc
Estrofe 34

Ha! que honra ao feminino
Sexo! Que Deus o ama é evidente!
Enquanto todos os grandes homens
Desertaram este reino
Por uma mulher ele é salvado e recuperado,
(Coisa que cinco mil homens não conseguiram fazer)
E os traidores ela botou para fugir .
Quem teria acreditado nisto?

TL;DR: Há um monte de mulheres que poderiam te encher de porrada, sem peitos de silicone e marr macho que muito home.

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