Et in Arcadia…

Uma tentativa de apresentar a Arte como a afirmação da vida.

Mês: dezembro, 2013

“Que será de ti, desconsolado?”

A Reconquista da Espanha por parte dos reinos católicos levou quase 800 anos. De 711 d.C. até 1492 d.C. os mouros estiveram fortemente enraizados em terras ibéricas e foi necessária a intervenção de muito ferro, fogo e gente armada para tirá-los de lá. Talvez interesse ao leitor saber que nada menos que metade da ascendência do autor deste blog é composta por galegos mata-mouros que lutaram contra os invasores (a outra metade da minha ascêndencia, como é bem sabido, vem da casa de Elendil). Mas esta postagem não é sobre minha linhagem (isto fica pra depois) ou sobre a História da Península, ela é, na realidade, sobre redenção.

A Reconquista da Espanha foi completada quando a cidade de Granada, derradeiro bastião ibérico da gente não batizada, foi tomada pelos reis Dona Isabela e Dom Fernando. Após esse feito, diversas obras de arte foram encomendadas ou produzidas espontaneamente para celebrar a reunificação do território espanhol. Uma das que mais me tocou foi “¿Qu’és de ti, desconsolado?”, uma canção que pondera sobre o destino do rei mouro de Granada.

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A Rendição de Granada, 1882, por Francisco Pradilla

Os versos dessa canção se referem ao feito histórico da tomada dessa cidade e, no entanto, eu cismei em interpretá-la como um questionamento da alma humana. Tal interpretação certamente foge da intenção de seu autor, Juan del Encina, mas, mesmo assim, me pareceu até mais válida do que a sua intenção original, sobretudo nesta época de Natal, na qual todos nós, até os mouros, paramos para… comprar presentes caros para pessoas com as quais não nos importamos.

Que seja. Rogo ao leitor que leia a tradução que se segue, ou que a ouça nesta versão sublime de Jordi Savall. Imagine – e agora eu roubo as metáforas de Santo Agostinho e dos Sonetos Sagrados de John Donne  – que Granada cristã era o nosso coração tomado pela virtude. Por vacilo humano e/ou pelas cirscustâncias do destino, nossa fortaleza foi tomado pela “seita malvada”. Como humanos, nós tendemos ao bem e à perfeição, como diz Aristóteles, então é um desejo implacável que nós melhoremos. Por meio de muita oração e de muita gente armada, ou seja, de boas intenções e atos concretos, nós conseguimos reconquistar Granada, o nosso coração, e lhe devolvemo ao seu dono original: a virtude.

Se minha interpretação estiver correta, então é o destino natural de todo ser humano melhorar e tender à perfeição. E essa esperança de recuperação existe até mesmo lá onde o mal resistia de maneira mais forte, em sua fortaleza mais impenetrável, e por quase 800 anos. Pode ser que leve séculos e haja muito sacrifício, mas podemos todos nos salvar. Quero dizer, se até mesmo Granada foi reconquistada, por que não, então, nosso pequenino coração?

¿Qu’es de ti, desconsolado?

Que é de ti, desconsolado?
Que é de ti, rei de Granada?
Que é de tua terra e de teus mouros?
Onde tens tu [agora] tua morada?

Renega já Maomé
E sua seita malvada
Que viver en tal loucura
É o desvario mais desvairado.

Retorna, retorna tu, bom rei
À nossa lei consagrada,
Porque, se perdeste o reino,
Que a sua alma seja recuperada.
Sendo vencido por tais reis,
Muita honra te será dada.

Oh! Granada enobrecida
Por todo o mundo conhecida,
Até aqui foste cativa
E, agora, já é liberada.

Perdeu-te o rei Dom Rodrigo
Por sua desventura desaventurada;
Ganhou-te o rei Dom Fernando
Com ventura prosperada,

A rainha Dona Isabel,
A mais temida e amada,
Ela com suas orações
E ele com muita gente armada.

Da maneira como Deus faz seus feitos
A defesa estava condenada,
Que onde Ele põe sua mão
O impossível se torna um quase nada.

Feliz Natal a todos nós!

TL;DR: A reconquista cristã da Espanha levou quae 8 séculos e precisou de vária guerras. Numa metáfora agressivamente eurocêntrica, considere seu coração como Granada, a última fortaleza moura, tomada pela maldade. Até mesmo ele pode ser recuperado.

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“Aqui jaz, em pouca terra, aquele que todo mundo temia…”

A recente morte de Nelson Mandela emociou o mundo e teve repercussões em todas a mídia, desde comentários de Facebook até capas de jornal. É no mínimo justo que alguém que tenha se esforçado tanto para avançar a humanidade receba tamanha atenção e, por fim, tenha um morte boa.

Refletindo um pouco sobre o assunto, no entanto, eu me lembrei de uma figura que, nesse sentido, foi o exato oposto de Mandela. Uma figura tão desprezível que, logo após a sua morte, foi difamada e foi feita motivo de cachota por todo o Ocidente. O recipiente dessa duvidosa honra foi o general – ou condottiero – espanhol César Bórgia.

Image

Provável retrato de César Bórgia, por Altobello Melone (1500 -1524)

Nota do Lulu:9.1 #PegaAPrópriaIrmã; #RicoELindo; #CurteViolência; #FilhinhoDoPapa; #AguentaVáriasVezes

César Bórgia (1475 – 1507) tinha ruindade de primeira linhagem e, de fato, imoralidade parece ter sido uma característica mendeliana dominante em sua família. Seu pai, Rodrigo Bórgia, foi o famoso – talvez “infame” seja mais apropriado – papa Alexandre VI, que entrou para o história como o papa que mais trollou o Vaticano; só para citar alguns achievements, Rodrigo ficou conhecido por realizar orgias dentro dos aposentos papais e presentear os varões que tinham maior potência ejaculatória; ele manteve diversas amantes constantes, mesmo enquanto papa e, por fim, foi acusado, junto com o filho, de manter relações incestuosas com sua própria filha, Lucrezia Bórgia.

Enquanto seu pai se ocupava de fornicar, porém, César decidiu por conquistar o resto da Itália. Com o apoio de mercenários suíços e de tropas francesas, ele conquistou principados e ducados do Norte e do Sul da Itália, espalhando uma fama de crueldade e terror que até amedontrava suas próprias tropas. César, também chamado de “o duque Valentino”, prendeu, envenenou e traiu todas as pessoas que representassem qualquer ameaça para ele. Tamanha foi a sua fúria que, num primeiro momento, Maquiavel o citou como um exemplo de como se pacificar uma província rebelde.

Ele acumulou vitórias ininterruptas até a morte de seu pai: quando o papa morreu, ele perdeu todo o apoio político e teve que fugir à sua terra natal. Mas até para os poderosos a Morte existe e, por fim, em terras espanholas, numa tentativa de fuga de uma prisão, ele foi morto em combate. De acordo com pesquisas históricas mais recentes, ele foi morto pelo assassino Ezio Auditore da Firenze.

Ninguém se importou de verdade com a sua morte. Seu corpo foi dessacralizado diversas vezes e somente 2007 ele foi admitido novamente numa igreja. Na verdade, até seu epitáfio foi dessacralizado. O original dizia:

Aqui jaz em pouca terra
Aquele que todo mundo temia
E que a paz e a guerra
Em suas mãos detinha.

Oh tu que vás buscar
Coisas dignas de se louvar
Se buscas o mais digno
Pára aqui o teu caminho
Não te ocupes de mais caminhar.

Gonzales Fernandes de Oviedo, um historiador seu contemporâneo, porém, dizia o seu epitáfio na seguinte variação:

Aqui jaz em pouca terra
Aquele que não a merecia
E que, nem com paz e nem com guerra,
Coisa boa não fazia.

Oh tu que vás buscar
Coisas dignas de se louvar
Deixa o duque Valentino
Exceto se a tua viagem
Queres desperdiçar.

Por fim, é interessante notar que ele foi contemporâneo de Leonardo da Vinci e que o gênio florentino trabalhou na corte dos Bórgia. No entanto, da Vinci foi contratado somente como engenheiro militar, pois César Bórgia não tinha interesse em suas capacidades artísticas, mas somente em que ele criasse artefatos de destruição.

César Bórgia, mesmo acompanhado das mentes mais brilhantes e avançadas de sua época e vivendo em pleno Renascimento, só foi capaz de aprender o pior da humanidade. A influência positiva dos que o cercaram foi ignorada e ele só adquiriu o legado de miséria de sua família. E agora, nós que acabadmos de perder um exemplo tão grande de humanidade, qual será o legado que vamos copiar, se as pessoas boas continuam a desaparecer?

TL;DR: Nelson Mandela morreu há pouco e foi elogiado por todos. Há pessoas tão ruins, como César Bórgia, que são trolladas até mesmo em seus epitáfios. Com qual deles nos vamos aprender?

Porque o quotidiano vale a pena.

Os últimos três finais de semana, aqui em São Paulo, foram nublados, chuvosos e relativamente frios. Isso é exatamente o oposto da imagem que construímos do Brasil como o país do sol e das praias maravilhosas, onde  as pessoas sorridentes, alegres e levemente ébrias jogam futebol na areia e se divertem numa eterna micareta.

Eu deveria, portanto, estar reclamando dessa frente fria, dessas nuvens ou do que quer que seja que frustrou meus planos de ter uma final de semana alla comercial de cerveja. E, no entanto, não é o que eu estou fazendo. Dias perfeitos de sol não são a regra do cotidiano e estou em paz com isso. Embora isso pareça estranho, foi por culpa (ou por mérito) de um francês piradão que eu comecei a pensar assim. É um bigodudo chamado Courbet.

Gustave Courbet foi um pintor realista francês que realizou a transição entre o Romantismo e o Realismo. Ele decidiu abandonar os temas consagrados de pinturas históricas ou de temas clássicos e mitológicos para pintar as pessoas, paisagens e coisas como elas realmente são e em seus momentos e acontecimentos ordinários. Para nós, isso pode parecer balela porque o resultado é, quase sempre, mulheres brancas e peladas olhando para cima, mas, lá em 1850, isso causou sensação.

De fato, ao invés de pintar heróis da antiguidade ou cenas bíblicas, ele pintava acontecimentos comuns, com um enterro com pessoas entediadas, um nu feminino de uma mulher com pelos pubianos e, sobretudo, paisagens que, hoje em dia, não serviriam para nenhum comercial de tv ou de revistas. Uma das que mais me impressionou foi a que eu pude ver no Museu Wallraf na cidade de Colônia.

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A praia (1865) por Gustave Courbet. deixei a foto assim pq tenho preguiça lol , quero dizer, para reforçar o ponto do valor do cotidiano

Sim, o quadro é só isso mesmo. É uma praia cinza, sem ondas, sem veleiros charmosos, sem pessoas ou animais, num dia nublado. O traço incerto das pinceladas piora ainda mais a situação e deixa tudo um pouco turvo e esfumaçado. É o tipo de paisagem que você nem se dignaria a olhar, pela janela de um carro ou de um ônibus. E, no entanto, ela está emoldurada e presa na parede de um museu respeitado de uma cidade do primeiro mundo.

É uma cena ordinária do quotidiano que está emoldurada. Essa é a praia como ela é na maior parte do tempo. Esso quadro fez essa minha ficha cair: o quotidiano não pode ou não deve ser arte? Devemos viver sempre esperando pela praia do comercial de cerveja e pela mulher ou homem da propaganda de perfumes? Será que o nosso dia-a-dia não é digno disso? E, se ele não o for, como faremos com todos esses finais de semana de chuva:

Alfred Hitchcock disse (ou pelo menos disseram que ele disse lol) que “Drama é a vida, com as partes entediantes eliminadas” enquanto que Clarice Lispector pediu: “O que me mata é o quotidiano. Eu queria só exceções.” Se isso for mesmo verdade, nós não temos vida nenhuma e morremos um pouco todos os dias. E, embora isso talvez até seja verdade, eu, por mim, devo admitir que amo o cinza sem graça de nossas praias e que a chuva não me incomoda…

Os Limões
Eugenio Montale (1896 – 1981)

(…)

Vê, nestes silêncios no qual as coisas
Se abandonam e parecem quase
Trair o seu último segredo
Às vezes se espera
Poder descobrir um erro da Natureza
O ponto morto do mundo, o elo fraco da corrente
O fio que, desemaranhado, nos coloque
No meio de uma verdade.
O olhar passa em volta. (…)
São os silêncios que se vêem,
Em cada sombra humana que se afasta,
Uma disturbada Divindade.

Mas falta a ilusão e o tempo nos traz de volta
Às cidades barulhentas, onde o azul só se mostra
Nuns pedacinhos, lá em cima, entre os tetos.
A chuva cansa a terra, e, depois, cresce
O tédio do inverno sobre as casas,
A luz vira mão de vaca – a alma vira mão de vaca.
Quando, um dia, através de um portão mal fechado,
Por trás das árvores de um pátio,
Aparecem os amarelos dos limões sicilianos
E o gelo do coração se derrete
E, no peito, atacam
As canções
As trombetas de ouro da luz do Sol.

TL;DR: Um pintor francês chamado Courbet mostrou que as coisas não precisam ser sempre espetaculares para que possamos gostar delas e da vida. Um italiano chamado Montale diz que podemos ficar felizes só de olhar um limoeiro. E, sim, eu que tirei a foto e por isso que está podre lol