Porque o quotidiano vale a pena.

por desapiero

Os últimos três finais de semana, aqui em São Paulo, foram nublados, chuvosos e relativamente frios. Isso é exatamente o oposto da imagem que construímos do Brasil como o país do sol e das praias maravilhosas, onde  as pessoas sorridentes, alegres e levemente ébrias jogam futebol na areia e se divertem numa eterna micareta.

Eu deveria, portanto, estar reclamando dessa frente fria, dessas nuvens ou do que quer que seja que frustrou meus planos de ter uma final de semana alla comercial de cerveja. E, no entanto, não é o que eu estou fazendo. Dias perfeitos de sol não são a regra do cotidiano e estou em paz com isso. Embora isso pareça estranho, foi por culpa (ou por mérito) de um francês piradão que eu comecei a pensar assim. É um bigodudo chamado Courbet.

Gustave Courbet foi um pintor realista francês que realizou a transição entre o Romantismo e o Realismo. Ele decidiu abandonar os temas consagrados de pinturas históricas ou de temas clássicos e mitológicos para pintar as pessoas, paisagens e coisas como elas realmente são e em seus momentos e acontecimentos ordinários. Para nós, isso pode parecer balela porque o resultado é, quase sempre, mulheres brancas e peladas olhando para cima, mas, lá em 1850, isso causou sensação.

De fato, ao invés de pintar heróis da antiguidade ou cenas bíblicas, ele pintava acontecimentos comuns, com um enterro com pessoas entediadas, um nu feminino de uma mulher com pelos pubianos e, sobretudo, paisagens que, hoje em dia, não serviriam para nenhum comercial de tv ou de revistas. Uma das que mais me impressionou foi a que eu pude ver no Museu Wallraf na cidade de Colônia.

DSC02236 - Cópia

A praia (1865) por Gustave Courbet. deixei a foto assim pq tenho preguiça lol , quero dizer, para reforçar o ponto do valor do cotidiano

Sim, o quadro é só isso mesmo. É uma praia cinza, sem ondas, sem veleiros charmosos, sem pessoas ou animais, num dia nublado. O traço incerto das pinceladas piora ainda mais a situação e deixa tudo um pouco turvo e esfumaçado. É o tipo de paisagem que você nem se dignaria a olhar, pela janela de um carro ou de um ônibus. E, no entanto, ela está emoldurada e presa na parede de um museu respeitado de uma cidade do primeiro mundo.

É uma cena ordinária do quotidiano que está emoldurada. Essa é a praia como ela é na maior parte do tempo. Esso quadro fez essa minha ficha cair: o quotidiano não pode ou não deve ser arte? Devemos viver sempre esperando pela praia do comercial de cerveja e pela mulher ou homem da propaganda de perfumes? Será que o nosso dia-a-dia não é digno disso? E, se ele não o for, como faremos com todos esses finais de semana de chuva:

Alfred Hitchcock disse (ou pelo menos disseram que ele disse lol) que “Drama é a vida, com as partes entediantes eliminadas” enquanto que Clarice Lispector pediu: “O que me mata é o quotidiano. Eu queria só exceções.” Se isso for mesmo verdade, nós não temos vida nenhuma e morremos um pouco todos os dias. E, embora isso talvez até seja verdade, eu, por mim, devo admitir que amo o cinza sem graça de nossas praias e que a chuva não me incomoda…

Os Limões
Eugenio Montale (1896 – 1981)

(…)

Vê, nestes silêncios no qual as coisas
Se abandonam e parecem quase
Trair o seu último segredo
Às vezes se espera
Poder descobrir um erro da Natureza
O ponto morto do mundo, o elo fraco da corrente
O fio que, desemaranhado, nos coloque
No meio de uma verdade.
O olhar passa em volta. (…)
São os silêncios que se vêem,
Em cada sombra humana que se afasta,
Uma disturbada Divindade.

Mas falta a ilusão e o tempo nos traz de volta
Às cidades barulhentas, onde o azul só se mostra
Nuns pedacinhos, lá em cima, entre os tetos.
A chuva cansa a terra, e, depois, cresce
O tédio do inverno sobre as casas,
A luz vira mão de vaca – a alma vira mão de vaca.
Quando, um dia, através de um portão mal fechado,
Por trás das árvores de um pátio,
Aparecem os amarelos dos limões sicilianos
E o gelo do coração se derrete
E, no peito, atacam
As canções
As trombetas de ouro da luz do Sol.

TL;DR: Um pintor francês chamado Courbet mostrou que as coisas não precisam ser sempre espetaculares para que possamos gostar delas e da vida. Um italiano chamado Montale diz que podemos ficar felizes só de olhar um limoeiro. E, sim, eu que tirei a foto e por isso que está podre lol

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