“Aqui jaz, em pouca terra, aquele que todo mundo temia…”

por desapiero

A recente morte de Nelson Mandela emociou o mundo e teve repercussões em todas a mídia, desde comentários de Facebook até capas de jornal. É no mínimo justo que alguém que tenha se esforçado tanto para avançar a humanidade receba tamanha atenção e, por fim, tenha um morte boa.

Refletindo um pouco sobre o assunto, no entanto, eu me lembrei de uma figura que, nesse sentido, foi o exato oposto de Mandela. Uma figura tão desprezível que, logo após a sua morte, foi difamada e foi feita motivo de cachota por todo o Ocidente. O recipiente dessa duvidosa honra foi o general – ou condottiero – espanhol César Bórgia.

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Provável retrato de César Bórgia, por Altobello Melone (1500 -1524)

Nota do Lulu:9.1 #PegaAPrópriaIrmã; #RicoELindo; #CurteViolência; #FilhinhoDoPapa; #AguentaVáriasVezes

César Bórgia (1475 – 1507) tinha ruindade de primeira linhagem e, de fato, imoralidade parece ter sido uma característica mendeliana dominante em sua família. Seu pai, Rodrigo Bórgia, foi o famoso – talvez “infame” seja mais apropriado – papa Alexandre VI, que entrou para o história como o papa que mais trollou o Vaticano; só para citar alguns achievements, Rodrigo ficou conhecido por realizar orgias dentro dos aposentos papais e presentear os varões que tinham maior potência ejaculatória; ele manteve diversas amantes constantes, mesmo enquanto papa e, por fim, foi acusado, junto com o filho, de manter relações incestuosas com sua própria filha, Lucrezia Bórgia.

Enquanto seu pai se ocupava de fornicar, porém, César decidiu por conquistar o resto da Itália. Com o apoio de mercenários suíços e de tropas francesas, ele conquistou principados e ducados do Norte e do Sul da Itália, espalhando uma fama de crueldade e terror que até amedontrava suas próprias tropas. César, também chamado de “o duque Valentino”, prendeu, envenenou e traiu todas as pessoas que representassem qualquer ameaça para ele. Tamanha foi a sua fúria que, num primeiro momento, Maquiavel o citou como um exemplo de como se pacificar uma província rebelde.

Ele acumulou vitórias ininterruptas até a morte de seu pai: quando o papa morreu, ele perdeu todo o apoio político e teve que fugir à sua terra natal. Mas até para os poderosos a Morte existe e, por fim, em terras espanholas, numa tentativa de fuga de uma prisão, ele foi morto em combate. De acordo com pesquisas históricas mais recentes, ele foi morto pelo assassino Ezio Auditore da Firenze.

Ninguém se importou de verdade com a sua morte. Seu corpo foi dessacralizado diversas vezes e somente 2007 ele foi admitido novamente numa igreja. Na verdade, até seu epitáfio foi dessacralizado. O original dizia:

Aqui jaz em pouca terra
Aquele que todo mundo temia
E que a paz e a guerra
Em suas mãos detinha.

Oh tu que vás buscar
Coisas dignas de se louvar
Se buscas o mais digno
Pára aqui o teu caminho
Não te ocupes de mais caminhar.

Gonzales Fernandes de Oviedo, um historiador seu contemporâneo, porém, dizia o seu epitáfio na seguinte variação:

Aqui jaz em pouca terra
Aquele que não a merecia
E que, nem com paz e nem com guerra,
Coisa boa não fazia.

Oh tu que vás buscar
Coisas dignas de se louvar
Deixa o duque Valentino
Exceto se a tua viagem
Queres desperdiçar.

Por fim, é interessante notar que ele foi contemporâneo de Leonardo da Vinci e que o gênio florentino trabalhou na corte dos Bórgia. No entanto, da Vinci foi contratado somente como engenheiro militar, pois César Bórgia não tinha interesse em suas capacidades artísticas, mas somente em que ele criasse artefatos de destruição.

César Bórgia, mesmo acompanhado das mentes mais brilhantes e avançadas de sua época e vivendo em pleno Renascimento, só foi capaz de aprender o pior da humanidade. A influência positiva dos que o cercaram foi ignorada e ele só adquiriu o legado de miséria de sua família. E agora, nós que acabadmos de perder um exemplo tão grande de humanidade, qual será o legado que vamos copiar, se as pessoas boas continuam a desaparecer?

TL;DR: Nelson Mandela morreu há pouco e foi elogiado por todos. Há pessoas tão ruins, como César Bórgia, que são trolladas até mesmo em seus epitáfios. Com qual deles nos vamos aprender?

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