“Que será de ti, desconsolado?”

por desapiero

A Reconquista da Espanha por parte dos reinos católicos levou quase 800 anos. De 711 d.C. até 1492 d.C. os mouros estiveram fortemente enraizados em terras ibéricas e foi necessária a intervenção de muito ferro, fogo e gente armada para tirá-los de lá. Talvez interesse ao leitor saber que nada menos que metade da ascendência do autor deste blog é composta por galegos mata-mouros que lutaram contra os invasores (a outra metade da minha ascêndencia, como é bem sabido, vem da casa de Elendil). Mas esta postagem não é sobre minha linhagem (isto fica pra depois) ou sobre a História da Península, ela é, na realidade, sobre redenção.

A Reconquista da Espanha foi completada quando a cidade de Granada, derradeiro bastião ibérico da gente não batizada, foi tomada pelos reis Dona Isabela e Dom Fernando. Após esse feito, diversas obras de arte foram encomendadas ou produzidas espontaneamente para celebrar a reunificação do território espanhol. Uma das que mais me tocou foi “¿Qu’és de ti, desconsolado?”, uma canção que pondera sobre o destino do rei mouro de Granada.

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A Rendição de Granada, 1882, por Francisco Pradilla

Os versos dessa canção se referem ao feito histórico da tomada dessa cidade e, no entanto, eu cismei em interpretá-la como um questionamento da alma humana. Tal interpretação certamente foge da intenção de seu autor, Juan del Encina, mas, mesmo assim, me pareceu até mais válida do que a sua intenção original, sobretudo nesta época de Natal, na qual todos nós, até os mouros, paramos para… comprar presentes caros para pessoas com as quais não nos importamos.

Que seja. Rogo ao leitor que leia a tradução que se segue, ou que a ouça nesta versão sublime de Jordi Savall. Imagine – e agora eu roubo as metáforas de Santo Agostinho e dos Sonetos Sagrados de John Donne  – que Granada cristã era o nosso coração tomado pela virtude. Por vacilo humano e/ou pelas cirscustâncias do destino, nossa fortaleza foi tomado pela “seita malvada”. Como humanos, nós tendemos ao bem e à perfeição, como diz Aristóteles, então é um desejo implacável que nós melhoremos. Por meio de muita oração e de muita gente armada, ou seja, de boas intenções e atos concretos, nós conseguimos reconquistar Granada, o nosso coração, e lhe devolvemo ao seu dono original: a virtude.

Se minha interpretação estiver correta, então é o destino natural de todo ser humano melhorar e tender à perfeição. E essa esperança de recuperação existe até mesmo lá onde o mal resistia de maneira mais forte, em sua fortaleza mais impenetrável, e por quase 800 anos. Pode ser que leve séculos e haja muito sacrifício, mas podemos todos nos salvar. Quero dizer, se até mesmo Granada foi reconquistada, por que não, então, nosso pequenino coração?

¿Qu’es de ti, desconsolado?

Que é de ti, desconsolado?
Que é de ti, rei de Granada?
Que é de tua terra e de teus mouros?
Onde tens tu [agora] tua morada?

Renega já Maomé
E sua seita malvada
Que viver en tal loucura
É o desvario mais desvairado.

Retorna, retorna tu, bom rei
À nossa lei consagrada,
Porque, se perdeste o reino,
Que a sua alma seja recuperada.
Sendo vencido por tais reis,
Muita honra te será dada.

Oh! Granada enobrecida
Por todo o mundo conhecida,
Até aqui foste cativa
E, agora, já é liberada.

Perdeu-te o rei Dom Rodrigo
Por sua desventura desaventurada;
Ganhou-te o rei Dom Fernando
Com ventura prosperada,

A rainha Dona Isabel,
A mais temida e amada,
Ela com suas orações
E ele com muita gente armada.

Da maneira como Deus faz seus feitos
A defesa estava condenada,
Que onde Ele põe sua mão
O impossível se torna um quase nada.

Feliz Natal a todos nós!

TL;DR: A reconquista cristã da Espanha levou quae 8 séculos e precisou de vária guerras. Numa metáfora agressivamente eurocêntrica, considere seu coração como Granada, a última fortaleza moura, tomada pela maldade. Até mesmo ele pode ser recuperado.

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