Et in Arcadia…

Uma tentativa de apresentar a Arte como a afirmação da vida.

Mês: janeiro, 2014

Os cossacos escrevem uma carta

“Dos Cossacos das margens do rio Dnieper, para o Sultão da Turquia,

Oh, Sultão, diabo turco, amigo e parente do capeta, secretário do próprio Lúcifer. Saudações!

Que diabo de cavaleiro você é, que não consegue nem matar um porco-espinho com sua bunda pelada? O diabo defeca e seu exército come. Você não vai, seu filho da puta, fazer escravos de filhos cristãos; nós não temos medo do seu exército e por terra e por mar nós vamos lhe enfrentar. A sua mãe que se foda.

Seu copeiro babilonês, cocheiro macedônio, cervejeiro de Jerusalém, fornicador de cabras da Alexandria, pastor de porcos do Alto e Baixo Egito, porco da Armênia, ladrão da Podólia, catamita [rapaz homosexual] da Tartária, carrasco da Bielorússia, tolo de todo o mundo e submundo, um idiota perante Deus, neto da Serpente, pé no nosso saco, nariz de porco, traseiro de asno, vira-lata de abatedouro, brutamontes não batizado, vá comer sua mãe! Isso é o que os cossacos têm a lhe dizer, seu animalzinho descendente do populacho. Você não é digno de governar verdadeiros cristãos!

Assim declaram os [cossacos] da Zaporíjia, seu vigarista. Você sequer pastoreará porcos cristãos. Terminamos a carta assim mesmo [sem dizer qual é o dia], porque não sabemos a data e não temos um calendário: a lua está no céu, o ano pertence a Deus, o dia é o mesmo aqui e aí. Beijem nossos traseiros.

Assinado: Otaman [coronel] Ivan Sirko, com toda a hoste da Zaporíjia.”

Imagem
Os cossacos da Zaporíjia respondem ao Sultão Mehmed IV do Império Otomano, 1880-91, por Ilya Repin. Reparem na cara de lulz do cossaco segurando a pena.

Essa obra-prima da trollagem da literatura mundial é uma carta real, escrita em 1676 pelos cossacos do rio Dnieper em resposta a um últimato do sultão da Turquia. Os cossacos – antepassados do povo ucraniano e, em menor medida, do povo russo – haviam sido aliados dos turcos, mas, agora, os janízaros lhes ameaçavam com guerra… mas eles não estavam nem aí! 

Hoje mesmo, manifestantes ucranianos da cidade de Zaporizhzhya invadiram um prédio do Governo, mostrando que os protestos nessa país, apesar da morte de manifestantes, só faz aumentar. Isso leva a crer que o espírito de independência (e a capacidade de insultar estrangeiros) dos cossacos continua vivo no povo ucraniano e não vai se apagar em breve.

Naturalmente, penso nos protestos que ocorreram no ano passado no Brasil. Cossacos mantêm a chama da insurreição viva por séculos, mas parece que os brasileiros já começaram a dispersar sua energia em causas de duvidosos benefícios ao país. Resta então torcer que algum vento venha soprar a brasa já quase estinguida do nosso ímpeto de revoltas:

Fischia il Vento
(Felice Cascione, 1944)

Assobia o vento e enfurece a tempestade,
Sapatos quebrados e, ainda assim, precisamos ir
 A conquistar a vermelha privamera
De onde surge o sol do futuro.

Todo país é pátria do rebelde,
Toda mulher lhe dá um sospiro,
Na noite os guiam as estrelas,
Forte o coração e o braço ao bater.

Se nos pega a cruel morte,
Dura vingança virá do partigiano;
Já certa é a dura sorte
Do fascista, vil traidor.

Cessa o vento, calma é a tempestade,
Volta à casa o orgulhoso partigiano,
Flamulando a sua vermelha bandeira;
Vitoriosos e, ao fim, livres nós somos.

 

TL;DR: Os cossacos ucranianos escreveram a maior carta troll da História (pior que comentários do YouTube). 300 anos depois, eles continuam trollando o Governo. Nós, por outro lado, vamos brigar com os shoppings, porque nosso Governo nos mete medo…

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O belo, o feio e o diretor nazista.

“O domínio do interessante não pode senão destruir a si mesmo e é, portanto, uma crise transitória do gosto. Mas as duas possíveis catástrofes que se lhe apresentam são de uma natureza muito diferente: se a arte se orienta prevalentemente em direção à energia estética, o gosto, sempre mais acostumado aos velhos estímulos, os pedirá cada vez mais e mais fortes e violentos: não tardará para passar ao picante e ao impressionante.
O picante é aquilo que excita em modo convulsivo uma sensibilidade entorpecida, enquanto que o impressionante é um estímulo e uma ferroada para a imaginação. Ambos são antecipações da morte próxima. O insulso é o avaro nutrimento do gosto impotente, enquanto que o chocante (…) é a úlitma convulsão do gosto agonizante” (Friedrich Schlegel, Sobre o estudo da poesia grega, em A História da Feiura, de Umberto Eco, p. 275)

Após essa introdução, Schlegel afirma que a sociedade de sua época – transição entre séculos XVIII e XIX – deixou de apreciar o belo e o esteticamente harmonioso para se viciar nos estímulos constantes e vertiginosos do feio, do excessivo, do exagerado, do errado e do arrebatador. Aparentemente, ele estava correto, pois o Romantismo, com suas tempestades, ímpetos, piratas, monstros e vampiros, surgiu nesse mesmo período. Schlegel, bem como outros intelectuais, temia que o sociedade perderia a capacidade de apreciar o harmonioso e o moderado, após viciar-se no exagero e no chocante. Como neste final de semana houve a estreia do filme “Ninfomaníaca” do diretor nazista dinamarquês Lars von Trier, vou me unir ao alemão do século XVIII e defender a harmonia.

Lars von Trier alcançou fama internacional na década de 1990, quando ele co-criou o movimento Dogma 95, que, em síntese, defendia o cinema como uma arte purista que gira entorna da atuação e do enredo dos filmes, abrindo mão de elementos supérfluos como efeitos especiais, cenários e inovações tecnológicas. Alguns anos depois, ele estava fazendo filmes com cenas não simuladas de sexo hardcore e longas sequências digitalizadas de cenas grotescas de horror, além de declarar a um jornal que ele é nazista, apesar de seu pai ser judeu.

Isso leva a suspeitar de que Schlegel estivesse certo. De fato, mergulhar nesse profundo e irresponsável niilismo dificilmente acrescenta algo ao espectador, além de dessensibilizá-lo perigosamente, até o ponto no qual ele se torna um cético incurável que passa suas tardes escrevendo artigos para a Encyclopedia Dramatica. Por outro lado, se Schlegel estiver duas vezes certo, então deve-se admitir que arte em harmonia deve re-estabelecer os sentidos de seus contemplador. Para fazer o teste, por que não contemplar um poema simples de William Wordsworth e uma natureza morta impressionista?

Daffodils
(Tradução do citarista Alberto Marsicano)

Solitário qual nuvem vaguei
Pairando sobre vales e prados,
De repente a multidão avistei
Miríade de narcisos dourados;
Junto ao lago, e árvores em movimento,
Tremulando e dançando sob o vento.

Contínua qual estrelas brilhando
Na Via Láctea em eterno cintilar,
A fila infinita ia se alongando
Pelas margens da baía a rondar:
Dez mil eu vislumbrei num só olhar
Balançando as cabeças a dançar.

As ondas também dançavam neste instante
Mas nelas via-se maior a alegria;
Um poeta só podia estar exultante
Frente a tão jubilosa companhia:
Olhei – e olhei – mas pouco sabia
Da riqueza que tal cena me trazia.

Pois quando me deito num torpor,
Estado de vaga suspensão,
Eles refulgem em meu olho interior
Que é para a solitude uma bênção;
Então meu coração começa a se alegrar,
E com os narcisos põe-se a bailar

Narcisos, por Berthe Morisot (1895).

Narcisos, por Berthe Morisot (1895).

TL;DR: Buscando sempre estímulos novos e mais intesos, ficamos viciados neles. O resultado é que você se tornará um velho ranzinza e nazista que só fala de sexo e violência.