O belo, o feio e o diretor nazista.

por desapiero

“O domínio do interessante não pode senão destruir a si mesmo e é, portanto, uma crise transitória do gosto. Mas as duas possíveis catástrofes que se lhe apresentam são de uma natureza muito diferente: se a arte se orienta prevalentemente em direção à energia estética, o gosto, sempre mais acostumado aos velhos estímulos, os pedirá cada vez mais e mais fortes e violentos: não tardará para passar ao picante e ao impressionante.
O picante é aquilo que excita em modo convulsivo uma sensibilidade entorpecida, enquanto que o impressionante é um estímulo e uma ferroada para a imaginação. Ambos são antecipações da morte próxima. O insulso é o avaro nutrimento do gosto impotente, enquanto que o chocante (…) é a úlitma convulsão do gosto agonizante” (Friedrich Schlegel, Sobre o estudo da poesia grega, em A História da Feiura, de Umberto Eco, p. 275)

Após essa introdução, Schlegel afirma que a sociedade de sua época – transição entre séculos XVIII e XIX – deixou de apreciar o belo e o esteticamente harmonioso para se viciar nos estímulos constantes e vertiginosos do feio, do excessivo, do exagerado, do errado e do arrebatador. Aparentemente, ele estava correto, pois o Romantismo, com suas tempestades, ímpetos, piratas, monstros e vampiros, surgiu nesse mesmo período. Schlegel, bem como outros intelectuais, temia que o sociedade perderia a capacidade de apreciar o harmonioso e o moderado, após viciar-se no exagero e no chocante. Como neste final de semana houve a estreia do filme “Ninfomaníaca” do diretor nazista dinamarquês Lars von Trier, vou me unir ao alemão do século XVIII e defender a harmonia.

Lars von Trier alcançou fama internacional na década de 1990, quando ele co-criou o movimento Dogma 95, que, em síntese, defendia o cinema como uma arte purista que gira entorna da atuação e do enredo dos filmes, abrindo mão de elementos supérfluos como efeitos especiais, cenários e inovações tecnológicas. Alguns anos depois, ele estava fazendo filmes com cenas não simuladas de sexo hardcore e longas sequências digitalizadas de cenas grotescas de horror, além de declarar a um jornal que ele é nazista, apesar de seu pai ser judeu.

Isso leva a suspeitar de que Schlegel estivesse certo. De fato, mergulhar nesse profundo e irresponsável niilismo dificilmente acrescenta algo ao espectador, além de dessensibilizá-lo perigosamente, até o ponto no qual ele se torna um cético incurável que passa suas tardes escrevendo artigos para a Encyclopedia Dramatica. Por outro lado, se Schlegel estiver duas vezes certo, então deve-se admitir que arte em harmonia deve re-estabelecer os sentidos de seus contemplador. Para fazer o teste, por que não contemplar um poema simples de William Wordsworth e uma natureza morta impressionista?

Daffodils
(Tradução do citarista Alberto Marsicano)

Solitário qual nuvem vaguei
Pairando sobre vales e prados,
De repente a multidão avistei
Miríade de narcisos dourados;
Junto ao lago, e árvores em movimento,
Tremulando e dançando sob o vento.

Contínua qual estrelas brilhando
Na Via Láctea em eterno cintilar,
A fila infinita ia se alongando
Pelas margens da baía a rondar:
Dez mil eu vislumbrei num só olhar
Balançando as cabeças a dançar.

As ondas também dançavam neste instante
Mas nelas via-se maior a alegria;
Um poeta só podia estar exultante
Frente a tão jubilosa companhia:
Olhei – e olhei – mas pouco sabia
Da riqueza que tal cena me trazia.

Pois quando me deito num torpor,
Estado de vaga suspensão,
Eles refulgem em meu olho interior
Que é para a solitude uma bênção;
Então meu coração começa a se alegrar,
E com os narcisos põe-se a bailar

Narcisos, por Berthe Morisot (1895).

Narcisos, por Berthe Morisot (1895).

TL;DR: Buscando sempre estímulos novos e mais intesos, ficamos viciados neles. O resultado é que você se tornará um velho ranzinza e nazista que só fala de sexo e violência.

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