Os cossacos escrevem uma carta

por desapiero

“Dos Cossacos das margens do rio Dnieper, para o Sultão da Turquia,

Oh, Sultão, diabo turco, amigo e parente do capeta, secretário do próprio Lúcifer. Saudações!

Que diabo de cavaleiro você é, que não consegue nem matar um porco-espinho com sua bunda pelada? O diabo defeca e seu exército come. Você não vai, seu filho da puta, fazer escravos de filhos cristãos; nós não temos medo do seu exército e por terra e por mar nós vamos lhe enfrentar. A sua mãe que se foda.

Seu copeiro babilonês, cocheiro macedônio, cervejeiro de Jerusalém, fornicador de cabras da Alexandria, pastor de porcos do Alto e Baixo Egito, porco da Armênia, ladrão da Podólia, catamita [rapaz homosexual] da Tartária, carrasco da Bielorússia, tolo de todo o mundo e submundo, um idiota perante Deus, neto da Serpente, pé no nosso saco, nariz de porco, traseiro de asno, vira-lata de abatedouro, brutamontes não batizado, vá comer sua mãe! Isso é o que os cossacos têm a lhe dizer, seu animalzinho descendente do populacho. Você não é digno de governar verdadeiros cristãos!

Assim declaram os [cossacos] da Zaporíjia, seu vigarista. Você sequer pastoreará porcos cristãos. Terminamos a carta assim mesmo [sem dizer qual é o dia], porque não sabemos a data e não temos um calendário: a lua está no céu, o ano pertence a Deus, o dia é o mesmo aqui e aí. Beijem nossos traseiros.

Assinado: Otaman [coronel] Ivan Sirko, com toda a hoste da Zaporíjia.”

Imagem
Os cossacos da Zaporíjia respondem ao Sultão Mehmed IV do Império Otomano, 1880-91, por Ilya Repin. Reparem na cara de lulz do cossaco segurando a pena.

Essa obra-prima da trollagem da literatura mundial é uma carta real, escrita em 1676 pelos cossacos do rio Dnieper em resposta a um últimato do sultão da Turquia. Os cossacos – antepassados do povo ucraniano e, em menor medida, do povo russo – haviam sido aliados dos turcos, mas, agora, os janízaros lhes ameaçavam com guerra… mas eles não estavam nem aí! 

Hoje mesmo, manifestantes ucranianos da cidade de Zaporizhzhya invadiram um prédio do Governo, mostrando que os protestos nessa país, apesar da morte de manifestantes, só faz aumentar. Isso leva a crer que o espírito de independência (e a capacidade de insultar estrangeiros) dos cossacos continua vivo no povo ucraniano e não vai se apagar em breve.

Naturalmente, penso nos protestos que ocorreram no ano passado no Brasil. Cossacos mantêm a chama da insurreição viva por séculos, mas parece que os brasileiros já começaram a dispersar sua energia em causas de duvidosos benefícios ao país. Resta então torcer que algum vento venha soprar a brasa já quase estinguida do nosso ímpeto de revoltas:

Fischia il Vento
(Felice Cascione, 1944)

Assobia o vento e enfurece a tempestade,
Sapatos quebrados e, ainda assim, precisamos ir
 A conquistar a vermelha privamera
De onde surge o sol do futuro.

Todo país é pátria do rebelde,
Toda mulher lhe dá um sospiro,
Na noite os guiam as estrelas,
Forte o coração e o braço ao bater.

Se nos pega a cruel morte,
Dura vingança virá do partigiano;
Já certa é a dura sorte
Do fascista, vil traidor.

Cessa o vento, calma é a tempestade,
Volta à casa o orgulhoso partigiano,
Flamulando a sua vermelha bandeira;
Vitoriosos e, ao fim, livres nós somos.

 

TL;DR: Os cossacos ucranianos escreveram a maior carta troll da História (pior que comentários do YouTube). 300 anos depois, eles continuam trollando o Governo. Nós, por outro lado, vamos brigar com os shoppings, porque nosso Governo nos mete medo…

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