Quando poesia e tanques nazistas andavam juntos.

por desapiero

O Panzerkampfwagen VI Tiger, mais conhecido como Tiger, foi o tanque de guerra nazista mais temido da Segunda Guerra Mundial. Apesar de pesar mais de 60 toneladas, ele alcançava quase 40 km/h de velocidade, tinha proteção frontal de 12 cm de aço de alta qualidade, tornando-o  praticamente imune a ataques frontais de qualquer tanque aliado ou soviético, e o seu canhão de 88mm podia derrubar um avião ou destruir um tanque oponente a mais de 4km de distância. Esse monstro de aço nasceu das ilusões do Führer de que uma super-arma poderia impedir o desmoronamento do Reich. Apesar de sua performance notável, ele não pode mudar o inevitável avanço das forças de Stalin. Pwned.

Dada essa introdução imponente do Tiger, alguém poderia imaginar como seria o treinamento dos soldados que estavam prestes a manejar o então tanque mais poderoso da guerra. Quem, como eu, imaginou uma cena alla Kubrick, com uma lavagem cerebral parecida com o de Alex (mas utilizada ao contrário), ou um treinamento psicopata e humilhante como o de Nascido para Matar, errou. De fato, fiquei mais surpreso e mais enojado ao saber que o manual de instruções do Tiger utilizava desenhos e poesia para ensinar os recrutas a dominar suas armas de destruição.

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Tradução dos versos à esquerda: Leia com atenção este manual/ Ou o seu Tiger vai se dar  mal! (Sérião)

Heinz Guderian, responsável pela organização dos tanques da Wehrmacht, aprovou a elaboração desses manuais que contêm dísticos de oito sílabas poéticas em todas as páginas, além de ilustrações bem-humoradas ou eróticas. A ideia era a de captar a atençãos dos recrutas, que não se interessavam em ler manuais técnicos de centenas de páginas e, por conta disso, acabavam causando uma série de erros ao pilotar, carregar, mirar, disparar e reparar seus Tigers. Em suma, ele usou ilustrações e poesia para criar uma versão TL;DR do manual do tanque mais poderoso do exército alemão.

Por um momento, fiquei pensando se era apropriado utilizar poesia, e particularmente versos de sabor tão infantil, para se referir àquilo que era a causa de maior terror dos soldados  aliados da guerra, incluindo os pracinhas brasileiros. Logo então, me lembrei que essa poesia não é nada inovadora, mas que já havia sido escrita, mas em tons mais sinceros, sóbrios e horripilantes, por um dos maiores poetas da Inglaterra:

O Tygre
(William Blake)

Tygre, tygre, de brilho fulgural
Ardendo  à noite na escura floresta,
Alguma mão ou algum olho imortal,
Contém  tua simetria tão funesta?

 Em qual céu distante ou abismo imenso
Arde, do teu olhar, o fogo intenso?
Com quais asas que ele, a voar, aspira?
Qual mão roubar vai o fogo da tua pira?

E qual é a arte e qual é a mão
Que as fibras dobrou, do teu coração?
Quando começou, teu peito, a bater
Qual mão, qual pé foi, o medo, te meter?

Qual é a corrente e qual é o martelo
Que pode forjar o teu cerebelo?
Qual bigorna e qual é o metal
Que pode encarar teu terror mortal?

Quando estrelas, seus dardos, lançaram
E, com o seu pranto, o Céu inundaram,
Ele sorriu para o trabalho feito?
E o Cordeiro fez, para o mesmo efeito?

Tygre, tygre, de brilho fulgural
Ardendo  à noite na escura floresta,
Alguma mão ou algum olho imortal,
Contém  tua simetria tão funesta?

A tradução em decassílabos heróicos é cortesia do blogueiro, mas o original, com ilustrações, é certamente melhor.

TL;DR: Quando disserem que poesia é inútil, lembre-se de que ela fez os alemães ganharem a guerra! Ops… espera aí…

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