Et in Arcadia…

Uma tentativa de apresentar a Arte como a afirmação da vida.

Mês: março, 2014

Foi por causa de uma namorada…

Na terça-feira passada, dia 18 de março, comemorou-se o centenário de nascimento de César Guerra-Peixe. Esse carioca filho de portugueses é mundialmente conhecido por ter um sobrenome engraçado e por se parecer com o hobbit Odo Proudfoot da abertura do filme do Senhor dos Anéis.

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César Guerra-Peixe tocando violino numa festa do Condado.

Ele também ficou famoso por ter feito o que, provavelmente, foi a mais extensa pesquisa já realizada sobre a música do foclore brasileiro, pesquisando a fundo e arquivando todos os detalhes de nossa música tradicional, em particular a da música tradicional do Recife. Por suas pesquisas, descobriu-se, por exemplo, que o frevo é um dança de origem eslava e espanhola, e não africana, como se supunha antes. Além disso, ele compôs obras de maravihosa orquestração, como a Suíte Sinfônica #1 “Paulista”, que, no final da década de 1950, no auge da Guerra Fria, foi executada em Kiev e Odessa, e a Sinfonia #2 “Brasília” que, tardiamente, foi executada como uma homenagem à inauguração da nossa atual capital.

Bem, o que moveu esse hobbit a pesquisar tanto sobre música e tornar-se um dos maiores compositores brasileiros do século XX? Eis que eu estava ouvindo o programa “FIm de Tarde” do maestro Júlio Medaglia (também conhecido como Conde Dookan) e ele veiculou uma entrevista que ele havia realizado com Guerra-Peixe. Nela, o maestro revela como ele entrou no mundo da música: “Foi por causa de uma namorada”.

Não foi amor à pátria, dedicação à causa, busca da fama, persguição de glória e riquezas. Não foi uma tentativa de se melhorar e explorar o máximo de seu potencial. Não foi resultado de pressão dos pais ou da sociedade. Não foram experimentos de abduções alienígenas ou lavagem cerebral dos comunistas. Foi por causa de uma namorada que César-Peixe começou o que ele fez. Será que eu deveria ter ficado surpreso com isso? O Sumo Poerta, no final da Divina Comédia, já havia nos alertado sobre isso, quando falou do “amor, que move o Sol e as outras estrelas”.

Para terminar, então, deixo o soneto abaixo. É um tradução minha de uma versão espanhola de um cancioneiro de um poeta polonês chamado Jan Bełoski que, por acaso, comprei numa visita ao mercado n’El Rastro de Madri. Às vezes, ideias malucas dão certo, né?

Quantos homens eu vi perder o siso,

Buscando, neste mundo, glória vã.

Outros tantos perderam a mente sã,

Desejando o que não lhes é preciso.

 

Outros  inda, perderam o juízo

Gozando hoje e esquecendo do amanhã.

Em ganância e luxúria má e vilã,

Esqueceram o valor que há num sorriso.

 

Mas a minha loucura é mais sensata

Porque foi inspirada em tua beleza

E não por vontades ímpias e obscuras.

 

Diga-se, então, aos de memória ingrata

Que haverá, sempre, em mim, esta pureza:

Amor é a mais nobre das loucuras.

 

TL;DR: Guerra-Peixe, um dos maiores compositores da história do Brasil, começou a compor por causa de uma namorada. “Dar la vida y el alma a un desengaño/ Esto es amor, quien lo probó lo sabe.”

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É errado eu não me importar?

O Cavaleiro da Lua é um super-herói insólito. Ele era um mercenário que, num surto de culpa, tentou parar de vez com suas matanças. Seus colegas de profissão o mataram e deixaram-no num templo no Egito. Comovido pelo seu arrependimento, o deus egípcio da vingança, Konshu, o reviveu para que ele pudesse alcançar o perdão, prendendo -nunca mais matando- bandidos. Pelo menos é o que ele acha: psiquiatras da SHIELD dizem que ele nunca morreu e inventou essa estória para poder conviver com a culpa. Quase todos o consideram um lunático (entendeu o trocadilho?) e um esquizofrênico, que se droga e usa métodos violentos para satisfação um impulso de violência.

Bem, super-heróis ensinam lições e Marc Spector – essa é a identidade secreta do Cavaleiro da Lua! – ensinou uma valiosa. Não importa o que aconteça e o que você tenha feito, nunca se culpe. Culpe o tempo, as circunstâncias, as pessoas, a sociedade, o destino, a sua saúde (“É minha genética!”), o ódio que há no mundo, culpe Deus, ou o diabo, culpe seus inimigos, seu amigos ausentes, mas, nunca, nunca se culpe… ou você não conseguirá viver com isso.

"Culpe tudo, menos a si mesmo, porque você nunca será capaz de viver com isso."

“Culpe tudo, menos a si mesmo, porque você nunca será capaz de viver com isso.”

Eis que um dia estou comendo um não tão delicioso sorvete de iogurte com pedaços de cookies e gotas de chocolate no meu carro, quando vejo uma mendiga no farol. Ela me pede dinheiro, mas estou sem trocados porque gastei a bagatela de 10 reais na minha sobremesa. Mas, também, dar dinheiro a mendigos faz mais mal do que bem, pois incentiva que eles fiquem na rua. Além disso, a culpa é da família dela, que não quis cuidá-la. E é dos políticos, também, porque eles roubam muito. Metade do preço do meu sorvete é imposto que deveria ser utilizado para cuidar de pessoas como ela. E estava muito calor e o sorvete é saudável, pois é de iogurte. É comida, não é droga. E… não. A verdade é que eu estou mais preocupado em tomar sorvete do que ajudar o meu próximo. Eu poderia, potencialmente, salvar a vida dela, mas eu não me importo sinceramente com isso. Ela saiu desse farol, aliás.

Eu não sou o único. Todo o mundo é assim. Literalmente. De acordo com dados (de 1998) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, USD 9 bilhões bastariam para acabar com os problemas mundiais de acesso a água e a saneamento básico. Nesse mesmo ano, somente na Europa, gastou-se USD 11 bilhões com sorvetes. Com perfumes, o valor foi de USD 13 bilhões e, com drogas ilícitas, USD 400 bilhões.Um ano de “jejum” de sorvetes no Velho Continente arrecadaria mais do que o necessário para resolver o problema da água no mundo. Por quê isso não ocorre? Ao fim de uma sequência de malabarismos morais, a resposta que se nos escancara é: porque não nos importamos de verdade. Não o suficiente, pelo menos.

Essa noção atravessa as artes. Jean-Luc Godard e Bernardo Bertolucci transformaram obras do autor italiano Alberto Moravia em filmes. Sua obra prima, Os Indiferentes, ainda não virou filme, no entanto. Nele, o protagonista falha em suas ações morais por falta de esforço legítimo: só o que interessa é se esforçar um pouco para limpar a conciência e depois se conformar com a situação vigente. O vácuo moral da sociedade silencia todo o demais.

Na música, a canção “Is it wicked not to care?” (“É errado eu não me importar?) do grupo escocês Belle and Sebastian resume bem esse conceito e, por isso mesmo, ela encerrará esta postagem, antes que o leitor pare de se importar:

“Eu sei que a verdade me espera
Mas, ainda assim, eu hesito por ter medo.”

TL;DR: Tomar sorvete é mais importante do que curar o mundo.