É errado eu não me importar?

por desapiero

O Cavaleiro da Lua é um super-herói insólito. Ele era um mercenário que, num surto de culpa, tentou parar de vez com suas matanças. Seus colegas de profissão o mataram e deixaram-no num templo no Egito. Comovido pelo seu arrependimento, o deus egípcio da vingança, Konshu, o reviveu para que ele pudesse alcançar o perdão, prendendo -nunca mais matando- bandidos. Pelo menos é o que ele acha: psiquiatras da SHIELD dizem que ele nunca morreu e inventou essa estória para poder conviver com a culpa. Quase todos o consideram um lunático (entendeu o trocadilho?) e um esquizofrênico, que se droga e usa métodos violentos para satisfação um impulso de violência.

Bem, super-heróis ensinam lições e Marc Spector – essa é a identidade secreta do Cavaleiro da Lua! – ensinou uma valiosa. Não importa o que aconteça e o que você tenha feito, nunca se culpe. Culpe o tempo, as circunstâncias, as pessoas, a sociedade, o destino, a sua saúde (“É minha genética!”), o ódio que há no mundo, culpe Deus, ou o diabo, culpe seus inimigos, seu amigos ausentes, mas, nunca, nunca se culpe… ou você não conseguirá viver com isso.

"Culpe tudo, menos a si mesmo, porque você nunca será capaz de viver com isso."

“Culpe tudo, menos a si mesmo, porque você nunca será capaz de viver com isso.”

Eis que um dia estou comendo um não tão delicioso sorvete de iogurte com pedaços de cookies e gotas de chocolate no meu carro, quando vejo uma mendiga no farol. Ela me pede dinheiro, mas estou sem trocados porque gastei a bagatela de 10 reais na minha sobremesa. Mas, também, dar dinheiro a mendigos faz mais mal do que bem, pois incentiva que eles fiquem na rua. Além disso, a culpa é da família dela, que não quis cuidá-la. E é dos políticos, também, porque eles roubam muito. Metade do preço do meu sorvete é imposto que deveria ser utilizado para cuidar de pessoas como ela. E estava muito calor e o sorvete é saudável, pois é de iogurte. É comida, não é droga. E… não. A verdade é que eu estou mais preocupado em tomar sorvete do que ajudar o meu próximo. Eu poderia, potencialmente, salvar a vida dela, mas eu não me importo sinceramente com isso. Ela saiu desse farol, aliás.

Eu não sou o único. Todo o mundo é assim. Literalmente. De acordo com dados (de 1998) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, USD 9 bilhões bastariam para acabar com os problemas mundiais de acesso a água e a saneamento básico. Nesse mesmo ano, somente na Europa, gastou-se USD 11 bilhões com sorvetes. Com perfumes, o valor foi de USD 13 bilhões e, com drogas ilícitas, USD 400 bilhões.Um ano de “jejum” de sorvetes no Velho Continente arrecadaria mais do que o necessário para resolver o problema da água no mundo. Por quê isso não ocorre? Ao fim de uma sequência de malabarismos morais, a resposta que se nos escancara é: porque não nos importamos de verdade. Não o suficiente, pelo menos.

Essa noção atravessa as artes. Jean-Luc Godard e Bernardo Bertolucci transformaram obras do autor italiano Alberto Moravia em filmes. Sua obra prima, Os Indiferentes, ainda não virou filme, no entanto. Nele, o protagonista falha em suas ações morais por falta de esforço legítimo: só o que interessa é se esforçar um pouco para limpar a conciência e depois se conformar com a situação vigente. O vácuo moral da sociedade silencia todo o demais.

Na música, a canção “Is it wicked not to care?” (“É errado eu não me importar?) do grupo escocês Belle and Sebastian resume bem esse conceito e, por isso mesmo, ela encerrará esta postagem, antes que o leitor pare de se importar:

“Eu sei que a verdade me espera
Mas, ainda assim, eu hesito por ter medo.”

TL;DR: Tomar sorvete é mais importante do que curar o mundo.

Anúncios