Foi por causa de uma namorada…

por desapiero

Na terça-feira passada, dia 18 de março, comemorou-se o centenário de nascimento de César Guerra-Peixe. Esse carioca filho de portugueses é mundialmente conhecido por ter um sobrenome engraçado e por se parecer com o hobbit Odo Proudfoot da abertura do filme do Senhor dos Anéis.

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César Guerra-Peixe tocando violino numa festa do Condado.

Ele também ficou famoso por ter feito o que, provavelmente, foi a mais extensa pesquisa já realizada sobre a música do foclore brasileiro, pesquisando a fundo e arquivando todos os detalhes de nossa música tradicional, em particular a da música tradicional do Recife. Por suas pesquisas, descobriu-se, por exemplo, que o frevo é um dança de origem eslava e espanhola, e não africana, como se supunha antes. Além disso, ele compôs obras de maravihosa orquestração, como a Suíte Sinfônica #1 “Paulista”, que, no final da década de 1950, no auge da Guerra Fria, foi executada em Kiev e Odessa, e a Sinfonia #2 “Brasília” que, tardiamente, foi executada como uma homenagem à inauguração da nossa atual capital.

Bem, o que moveu esse hobbit a pesquisar tanto sobre música e tornar-se um dos maiores compositores brasileiros do século XX? Eis que eu estava ouvindo o programa “FIm de Tarde” do maestro Júlio Medaglia (também conhecido como Conde Dookan) e ele veiculou uma entrevista que ele havia realizado com Guerra-Peixe. Nela, o maestro revela como ele entrou no mundo da música: “Foi por causa de uma namorada”.

Não foi amor à pátria, dedicação à causa, busca da fama, persguição de glória e riquezas. Não foi uma tentativa de se melhorar e explorar o máximo de seu potencial. Não foi resultado de pressão dos pais ou da sociedade. Não foram experimentos de abduções alienígenas ou lavagem cerebral dos comunistas. Foi por causa de uma namorada que César-Peixe começou o que ele fez. Será que eu deveria ter ficado surpreso com isso? O Sumo Poerta, no final da Divina Comédia, já havia nos alertado sobre isso, quando falou do “amor, que move o Sol e as outras estrelas”.

Para terminar, então, deixo o soneto abaixo. É um tradução minha de uma versão espanhola de um cancioneiro de um poeta polonês chamado Jan Bełoski que, por acaso, comprei numa visita ao mercado n’El Rastro de Madri. Às vezes, ideias malucas dão certo, né?

Quantos homens eu vi perder o siso,

Buscando, neste mundo, glória vã.

Outros tantos perderam a mente sã,

Desejando o que não lhes é preciso.

 

Outros  inda, perderam o juízo

Gozando hoje e esquecendo do amanhã.

Em ganância e luxúria má e vilã,

Esqueceram o valor que há num sorriso.

 

Mas a minha loucura é mais sensata

Porque foi inspirada em tua beleza

E não por vontades ímpias e obscuras.

 

Diga-se, então, aos de memória ingrata

Que haverá, sempre, em mim, esta pureza:

Amor é a mais nobre das loucuras.

 

TL;DR: Guerra-Peixe, um dos maiores compositores da história do Brasil, começou a compor por causa de uma namorada. “Dar la vida y el alma a un desengaño/ Esto es amor, quien lo probó lo sabe.”

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