Et in Arcadia…

Uma tentativa de apresentar a Arte como a afirmação da vida.

Mês: abril, 2014

O Bem que vem do Mal

“Concerto à memória de um anjo” é o título de uma coleção de quatro contos do escritor francês Éric-Emmanuel Schmitt, vencedora do prêmio Goncourt  de contos de 2010. Os três primeiros contos do livro narram histórias de pessoas que cometeram grandes crimes ou erros no seu passado e, depois, por alguma forma de intervenção de Santa Rita – o autor foi criado agnóstico, mas tornou-se católico – encontraram, ou rejeitaram a redenção. O quarto conto tinha um começo chato e eu não o li, mas deve dizer algo parecido, também.

Um dos contos narra a história de dois violinistas: Chris, um jovem arrogante e inescrupuloso, disposto a tudo para conseguir sucesso, e Axel, um rapaz dócil, altruísta e despreocupado com sua carreira. O primeiro é um violinista bom, mas que não exibe um talento nato e necessita de muito treino e dedicação, enquanto que Axel, sem o menor esforço, transforma qualquer demonstração no violino numa obra mestra. Um professor dizia que Axel possuía tanta doçura e carinho que ele era capaz de transformar o Concerto à Memória de um Anjo, obra dodecafônica (ou seja, criada para ser assustadoramente feia)  de Alban Berg em algo belo de ser ouvido. Clique, leitor, aqui e veja se isso é possível.

Enfim, os dois violinistas são convidados a participar de um concurso e, num determinado momento, Axel fica preso numa fenda numa praia e começa a se afogar. Chris presencia o ocorrido, mas, com a certeza de que seu rival coseguiria o prêmio do concurso no seu lugar, o deixa afogar-se e e morrer.

Vinte anos depois desse episódio, descobre-se que Axel não morreu, pois foi socorrido por um outro participante do concurso, mas ficou meses em coma e teve sérias sequelas que o fizeram perder os movimentos abaixo da cintura. Tendo que abandonar a música, ele se mudou para a China, onde tornou-se um empresário bilionário, explorando a mão de obra local para fabricar e objetos religiosos e, também, falos de borracha lol. Com tudo que lhe ocorreu, Axel tornou-se o oposto daquilo que fora um dia: cínico, ele dispensa todo ser humano como um animal tão bom quanto o seu ambiente lhe permita ser e afirma que a inocência das pessoas deve ser aproveitada.

Após longos períodos de pesquisa, Axel finalmente descobre o paredeiro do homem que o deixou para morrer e decide exercer sua vingança sobre ele. Ao encontrar Chris, no entanto, ele percebe que, ao longo desses vinte anos, seu assassino tinha se arrependido profundamente do que ele havia feito. De fato, Chris abandonou sua carreira de músico e dedicou sua vida a cuidar de adolescentes problemáticos e de idosos com problemas de saúde. Não obstante, Axel, com o auxílio de seus capangas, leva seu inimigo, sob a mira de um revólver, para dentro de um barco e, então, para o meio de um lago.

No meio do lago, Axel obriga Chris a amarrar pesos de chumbo em seus pés e começa um diálogo com ele. Os dois percebem, então, que cada um tornou-se o oposto do que eles foram na juventude. Chris, no entanto, se sente o maior culpado: com o episódio do afogamento, ele viveu anos tentando tentando se redimir e tornar-se uma pessoa melhor, ao passo que seu pecado levou Axel a tornar-se uma pessoa má; ele não só tentou matar um inocente, mas matou sua inocência. Ciente disso, Chris decide, por si mesmo, jogar-se no lago e se afogar, esperando que esse gesto incute no seu antigo rival uma faísca de humanidade. Axel, então, entende que ele não desejava a morte de Chris e se joga de sua cadeira de rodas para tentar salvar seu antigo assassino. Dez anos mais tarde, um pescador encontrar dois esqueletos de homens adultos abraçados e um padre local batiza um rochedo próximo de Caim e Abel.

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Caim logo depois de matar Abel, por Henri Vidal. Está na Praça das Tulherias, em Paris.

Em ambos os casos, essas pessoas cometeram atos atrozes e, por causa deles, decidiram se redimir. O fato deles terem feito algo errado foi a trampolim a partir do qual eles se lançaram para uma vida de virtude, em busca da redenção. De certa maneira, eles só descobriram o bem por conta do mal que fizeram e, no perdão, entenderam o valor da compaixão.

Curioso foi notar que um estúdio polonês, inspirados em filmes de velho-oeste italianos, transmitiu a mesma ideia por meio de um video-game. O protagonista do jogo Call of Juarez: Gunslinger deve passar o jogo inteiro na cola do assassino de seu irmão. Após anos de busca, ele entende que sua sede de vingança o fez matar mais pessoas e o tornou numa pessoa pior que o próprio assassino que, justamente, ele tentava alcançar. Para resolver essa equação, no entanto, sempre é necessário que haja amor.

TL;DR: “O sacrifício é a medida de todo amor.” Éric-Emmanuel Schmitt

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Venha a nós o Vosso Reino

Nós vivemos em tempos complicados e difíceis e o consenso parece ser o de que não há muitos motivos para se ser otimista. Muitas vezes, parece que o ideal seria que alguém, de alguma maneira, viesse para curar o mundo: um novo profeta, um forte exército, um cowboy, um anjo ou um presidente. Nós precisamos de um herói que venha e devolva ao mundo a justiça que foi perdida. Mas, e se isso realmente acontecesse, o que seria do mundo?

“Kingdom Come” é o título em inglês de uma série de gibis de DC que foi criada por Alex Ross e publicada em 1996. Esse termo vem do Pai Nosso em inglês e, na nossa língua, corresponderia a “Venha a Nós o Vosso Reino”. Esses quadrinhos tratam exatamente disso: de um mundo em que nossas preces por heróis são atendidas. Nele, os super-heróis tradicionais, que eram parcimoniosos demais ao administrar justiça, são suplantados por heróis mais novos, os metahumanos, que não hesitam em agredir e matar criminosos, em nome do bem comum. Super-Homem, Mulher Maravilha e Batman se tornam figuras do passado e acabam por exilar-se, enquanto que Magog, o líder dos metahumanos, assume a liderança da violenta luta contra o crime.

Super-Homem na indecisão  de intervir ou não nos problemas de um mundo que não é o seu

Super-Homem na indecisão de intervir ou não nos problemas de um mundo que não é o seu

Após uma década, torna-se claro que os metahumanos estão conduzindo uma espécie de terrorismo de Estado e que valores como liberdade e a sacralidade da vida humana perdem qualquer significado. Pressionado pela caminho que as coisas estão tomando, o Super-Homem decide voltar do Meio-Oeste americano e conduzir uma guerra civil contra Magog e seus seguidores. Após quase destruir o planeta, os metahumanos extremistas são derrotados e a Liga da Justiça, reformada pelos antigos heróis, passa a intervir na sociedade por meio da atuação política legítima, não mais pelo vigilantismo acima da lei.

Kingdom Come se encerra com uma conclusão inusitada: o que a maior parte das pessoas entende como um herói nada mais é que um vilão que está do lado delas. Matar não é intrinsicamente errado; isso só depende de quem está morrendo. A violência é legítima quando é aplicada para defender os nossos interesses e o grosso da população entende que direitos humanos são uma formalidade necessária para se manter a aparência de civilidade, mas que – convenhamos – não servem para nada. E o mais chocante é que o Super-Homem, que nem sequer é humano ou depende da Terra, é o que mostra mais humanidade ao levantar essas questões.

Há alguns meses, meliantes foram presos, espancados e amarrados em postes em algumas cidades brasileiras. Muitos manifestaram indignação, mas não fizeram nada concreto a respeito. Outras pessoas e uma apresentadora com o cabelo oxigenado elogiaram a atuação desses vigilantes. Em suma, mascaramos um sorriso de satisfação com repulsa infrutífera. Alex Ross estava certo: no nosso íntimo, desejávamos ver a vingança exercida sobre os criminosos e precisávamos de alguém que materializasse nossos impulsos de violência. Nós criamos metahumanos. Será que nossas preces deveriam mesmo ser atendidas?

A Vida de Galileu (1939)
Bertolt Brecht

Andrea: Infeliz é o país que não produz heróis.
Galileo: Não, Andrea: Infeliz é a o país que precisa de heróis.

TL;DR: O grosso da sociedade não enxerga a contradição entre pregar a civilidade e, ao mesmo tempo, tirar satisfação  da conveniência de ver um ato ou outro de vigilantismo de vez em quando.