Venha a nós o Vosso Reino

por desapiero

Nós vivemos em tempos complicados e difíceis e o consenso parece ser o de que não há muitos motivos para se ser otimista. Muitas vezes, parece que o ideal seria que alguém, de alguma maneira, viesse para curar o mundo: um novo profeta, um forte exército, um cowboy, um anjo ou um presidente. Nós precisamos de um herói que venha e devolva ao mundo a justiça que foi perdida. Mas, e se isso realmente acontecesse, o que seria do mundo?

“Kingdom Come” é o título em inglês de uma série de gibis de DC que foi criada por Alex Ross e publicada em 1996. Esse termo vem do Pai Nosso em inglês e, na nossa língua, corresponderia a “Venha a Nós o Vosso Reino”. Esses quadrinhos tratam exatamente disso: de um mundo em que nossas preces por heróis são atendidas. Nele, os super-heróis tradicionais, que eram parcimoniosos demais ao administrar justiça, são suplantados por heróis mais novos, os metahumanos, que não hesitam em agredir e matar criminosos, em nome do bem comum. Super-Homem, Mulher Maravilha e Batman se tornam figuras do passado e acabam por exilar-se, enquanto que Magog, o líder dos metahumanos, assume a liderança da violenta luta contra o crime.

Super-Homem na indecisão  de intervir ou não nos problemas de um mundo que não é o seu

Super-Homem na indecisão de intervir ou não nos problemas de um mundo que não é o seu

Após uma década, torna-se claro que os metahumanos estão conduzindo uma espécie de terrorismo de Estado e que valores como liberdade e a sacralidade da vida humana perdem qualquer significado. Pressionado pela caminho que as coisas estão tomando, o Super-Homem decide voltar do Meio-Oeste americano e conduzir uma guerra civil contra Magog e seus seguidores. Após quase destruir o planeta, os metahumanos extremistas são derrotados e a Liga da Justiça, reformada pelos antigos heróis, passa a intervir na sociedade por meio da atuação política legítima, não mais pelo vigilantismo acima da lei.

Kingdom Come se encerra com uma conclusão inusitada: o que a maior parte das pessoas entende como um herói nada mais é que um vilão que está do lado delas. Matar não é intrinsicamente errado; isso só depende de quem está morrendo. A violência é legítima quando é aplicada para defender os nossos interesses e o grosso da população entende que direitos humanos são uma formalidade necessária para se manter a aparência de civilidade, mas que – convenhamos – não servem para nada. E o mais chocante é que o Super-Homem, que nem sequer é humano ou depende da Terra, é o que mostra mais humanidade ao levantar essas questões.

Há alguns meses, meliantes foram presos, espancados e amarrados em postes em algumas cidades brasileiras. Muitos manifestaram indignação, mas não fizeram nada concreto a respeito. Outras pessoas e uma apresentadora com o cabelo oxigenado elogiaram a atuação desses vigilantes. Em suma, mascaramos um sorriso de satisfação com repulsa infrutífera. Alex Ross estava certo: no nosso íntimo, desejávamos ver a vingança exercida sobre os criminosos e precisávamos de alguém que materializasse nossos impulsos de violência. Nós criamos metahumanos. Será que nossas preces deveriam mesmo ser atendidas?

A Vida de Galileu (1939)
Bertolt Brecht

Andrea: Infeliz é o país que não produz heróis.
Galileo: Não, Andrea: Infeliz é a o país que precisa de heróis.

TL;DR: O grosso da sociedade não enxerga a contradição entre pregar a civilidade e, ao mesmo tempo, tirar satisfação  da conveniência de ver um ato ou outro de vigilantismo de vez em quando.

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