Os estranhos amores de Laura e Marinette

por desapiero

Mulheres-anjo são um tema recorrente na poesia e na arte ocidental. Depois de Dante Alighieri, Francesco Petrarca certamente foi o poeta medieval que melhor retratou a mulher dessa maneira: um ser tão perfeitamente belo e virtuoso que seu amor, ou simples bater de olhos seu, seria capaz de levar a salvação à alma do homem beato o suficiente para encontrá-la. Há um punhado de sonetos deles que apresentam bem essa ideia, mas o soneto “Erano i capei d’oro a l’aura sparsi” é certamente um dos mais famosos:

Estavam os cabelos de ouro espalhados ao ar,
Que se embaralhavam em mil doces nós
E os lumes macios com força de outrora brilhavam
Que agora, naqueles belos olhos, é escassa.

E seu rosto parecia, de cores piedosas,
-Não sei era verdade ou mentira – estar pintado.
Eu, que já tinha a isca do amor presa ao coração,
Sem surpresa, senti meu peito arder.

Não era o seu andar uma coisa mortal
Mas tinha uma forma angélica e as palavras
Pareciam algo além da simples voz humana.

Um espírito celeste, um sol vivo
Foi aquilo que eu vi – e mesmo que ela não seja mais assim
Afastar o arco não curou a ferida que ele causou.

Imagem

“Odeio quando uma mulher gigante está indo me coroar, mas um cupido de olhos vendados me mata antes.”

A tradução desse soneto é complicada e alguns dos jogos de palavras deles como a homofonia entre ” l’aura” e “Laura” (. respectivamente, “ar”, em italiano arcaico e “Laura”, o nome de sua musa) não podem ser traduzidos sem a perda de uma parte do sentido original. A ideia, porém, é bem clara: a imagem de Laura prende Petrarca num amor implacável, que não dá descanso ao poeta, mesmo após ela ter morrido. A escolha do termo “nós” ao invés de “cachos”, para descrever seus cabelos loiros, já adianta a noção de que seria impossível se livrar daquela mulher e a comparação de seus olhos com o sol, o seu andar com o de uma criatura celeste e a descrição da sua voz sobre-humana chegam até mesma a pintar uma imagem terrível dela (ainda que bem as cores eram piedosas!).

Na nossa época, poucos poetas, além de mim, conseguiram superar Petrarca ao descrever mulheres-anjos. Um desses foi um cantor francês chamado Georges Brassens, que mostrou sua genialidade ao falar das mulheres-anjo numa das mais tocantes chanson d’amour que já ouvi. Ela não dura nem 2 minutos, então clicar neste link vale a pena!

Marinette

Quando fui correndo cantar minha pequena canção para Marinette
A bela, a traíra já tinha ido à ópera!
Com minha cançãozinho, fiquei com cara de otário, ai! minha mãezinha,
Com minha cançãozinha, fiquei com cara de otário.

Quando fui correndo levar meu pote de mostarda para Marinette
A bela, a traíra já tinha acabado de jantar,
Com meu potinho, fiquei com cara de otário, ai! minha mãezinha,
Com meu potinho, fiquei com cara de otário.

Quando ofereci, como tributo, uma bicicleta para Marinette
A bela, a traíra já tinha comprado um automóvel.
Com minha bicicletinha, fiquei com cara de otário, ai! minha mãezinha,
Com minha bicicletinha, fiquei com cara de otário.

Quando fui correndo ao encontro de Marinette
A bela dizia “Eu te adoro” a um jão imundo que a abraçava.
Com meu buquê de flores, fiquei com cara de otário, ai! minha mãezinha,
Com meu buquê de flores, fiquei com cara de otário.


Quando fui correndo estourar os miolos da Marinette
A bela, a traíra tinha morrido de um problema no pulmão.
Com meu revolver, fiquei com cara de otário, ai! minha mãezinha,
Com meu revolver, fiquei com cara de otário.


Quando fui correndo ao enterro da Marinette
A bela, a traíra já tinha ressuscitado.
Com minha coroazinha de flores, fiquei com cara de otário, ai! minha mãezinha,
Com minha coroazinha de flores, fiquei com cara de otário.

Marinette, por sua vez, também supera Laura, realizando a façanha de ressuscitar só para atormentar aquele que a ama. E, por mais bizarro que esse final seja, em metáfora, não deixa de ser verdade, pois, se as mulheres-anjo-zumbis não voltam para atormentar, tudo que lhes traga à memória pode fazer isso: um papel, um desenho ou um perfume fazem bem esse serviço.

TL;DR: Poesia pode ser bem estranha, às vezes. Isso, ou é bom tomar cuidado com mulheres-anjos.

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