A Má Educação

por desapiero

A má educação não é algo exclusivo de nossa sociedade, de nosso país ou de nosso tempo. A falta de educação, por falta de esmero em expressar-se com delicadeza ou como uma afronta provocada ou gratuita a autoridades, é algo tão antigo quanto a própria História. De fato, a falta de educação é algo que parece nos aproximar e nos permitir, mais por vício do que por virtude, comungar com povos antigos e distantes.

Os grafites de Pompéia, uma cidade romana fundada há 2700 anos, por exemplo, conseguem ser tão ofensivos e vulgares quanto os grafites de banheiros de pizzarias do centro de São Paulo. Os meus dois favoritos são: “Teophilus, não faça sexo oral em mulheres apoiadas contra os muros da cidade como se você fosse um cachorro!” e “Chie, espero que suas hemorróidas se esfreguem tanto que elas doam muito mais do que já doeram antes!”

Dois milênios depois de Teophilus e Chie terem sido vulgarmente ofendidos por mensagens nos muros de Pompéia, os maiores nomes da literatura ocidental também mancharam papel com linhas ofensivas ou de suposto mau gosto. Dante, por exemplo, no XXI Canto do Inferno, conta de um diabo que peida, ou melhor, que “do seu cu, faz uma trombeta”, enquanto que Boccaccio, no Decamerão, conta histórias tão bizarras quanto ofensivas a qualquer tipo de autoridade, como a de um abade que flagra um monge fazendo sexo com uma mulher, somente para mandá-lo embora e transar com a mulher em seu lugar, e a de ladrões que desenterram corpos de nobres e figurões da Igreja para roubar as jóias sepultadas com os cadáveres.

Os movimentos de vanguarda do século XX, porém, foram os que provavelmente mais se aprofundaram na afronta e na má educação, até chegar ao ponto de institucionalizá-la. Os dadaístas, por exemplo, organizavam happenings  nos quais eles ofendiam gratuitamente pessoas e autoridades que estava passando pelas ruas. Benjamin Péret ficou (quase lol) famoso por ser fotografado no ato de xingar um padre desavisado que teve a infelicidade de passar por perto dele. Por que ele fez isso? Because fuck you, that’s why. E essa liberdade de ofender, ainda que muitas vezes gratuita, foi o que liderou o caminho para obras de arte que criticam as hipocrisias de nossa sociedade, como o escandaloso filme A Má Educação de Pedro Almodóvar, que, apesar de ser ofensivo ao Catolicismo, defende a liberdade sexual e de identificação de gênero.

Imagem"Nosso colaborador Benjamin Péret xingando um padre", atualmente na Scottish National Gallery of Modern Art

 

E bem, qual é a relevância disso tudo? Na verdade, não muita lol, mas aconteceu algo na abertura da Copa do Mundo que – para não manter a educação – me deixou puto. Segundo relatos dos jornais, o setor VIP da platéia cantou em coro, por três vezes, um pedido para que a presidente deste país experimentasse a sodomia. Ora, o que essa cachorrada faz com seus milhares de reais e o que eles latem para a presidente é algo que nem remotamente me interessa, bem como todo esse espetáculo esportivo. O que realmente me doeu foi, depois, ver a mídia reproduzindo uma série de críticas à plateia VIP, não pela esquizofrenia de sustentar um evento esportivo com milhares de reais após as promessas de que #nãovaiterCopa, não por não terem convidado o presidente do evento à prática sodômica, não por não terem defendido os cinquenta gatos pingados que foram passados a tropel pela PM, mas, sim, porque… soem os tambores… xingar a presidente é falta de educação para com uma autoridade e a presidente merece respeito.

A presidente merece respeito por ser uma autoridade? Devemos respeitar as outras autoridades, também? Os grevistas da CPTM fizeram grafitis satirizando o Governador; como isso pode ser permitido? Os protestantes do ano passado pixaram a prefeitura de São Paulo, quando da tentativa de aumento da tarifa de ônibus, mas que falta de educação? Posso chamar de aula de etiqueta o tropel da Cavalaria, quando passa por cima dos que os chamam de “porcos de uniforme”? O musical Jesus Cristo Superstar é de muito mau gosto e ofende a moral católica, então podemos censurá-lo? Ou… espera aí, algumas pessoas podem criticar, mas outras não, e algumas autoridades podem ser criticadas, mas nem todas… E quem nos dará a lista de quem está habilitado para criticar e para ser criticado? Como saberei se estarei sendo educado ou não? Ou temos a obrigação de respeitar todas as autoridades, ou temos a liberdade de criticá-las todas. Cercear essa liberdade parcialmente ou impor essa obrigação quando ela convém só pode ser oportunismo.

Há muitas coisas erradas aqui em Bananópolis, mas se ater à falta de educação das pessoas é um moralismo e um legalismo que soaria antiguado mesmo no século XIX e uma maneira barata de tirar o foco das coisas importantes que estão ocorrendo aqui. Nosso país parece uma família disfuncional paralisada num lodo de inutilidade: o pai só faz reclamar do preço do whiskey e dos charutos importados e de quanto o populacho o incomoda, a mãe, mais cândida que Pangloss, vê o Brasil atual como o cruzado da justiça e da modernidade, a caminho de alcançar, apesar das conspirações da “turma do contra”, o paraíso na terra. E, enquanto a imbecilidade e a hipocrisia – sejam coxinhas ou empadas – discutem entre tapas e beijos, a sociedade, esse filho adolescente, abandonado e sem educação e sem inspiração, vai drogar-se para esquecer-se da miséria em que vive. Para retratar, elogiar ou criticar uma realidade dessas é conveniente usar palavrões, pois só eles serão capazes de traduzir fielmente o que se passa nas casas grandes e senzalas destes tristes trópicos.

Que tenhamos, então, a coragem dos cossacos, que eu já elogiei neste post, e que, quando for preciso, possamos nos levantar e mandar tudo para puta que o pariu. Pois, se a boa educação, eu tenho certeza, nos perdoará, agora, não posso dizer o mesmo sobre as gerações que herdarão a miséria de nossa inação.

TL;DR: Este post elogia a liberdade de se poder ofender gratuitatemente. Se você não ficou ofendido, clique aqui e vá descendo a tela.

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