A coragem de ser o pior

por desapiero

Mencionei num outro post que o cérebro humano é feito para se auto-iludir em relação às capacidades e às virtudes que cada indivíduo realmente possui, sempre mentindo um pouco (ou muito) para mais: assim as pessoas conseguem ficar satisfeitas com si mesmas.

Embora isso seja algo comum a todos, há casos de indivíduos que realmente se superam na arte de se auto-iludir e de se crer melhor que do que realmente são, o que os levou a ter uma coragem inédita de seguir em suas artes apesar do ridículo do público. Há casos de cantoras completamente desafinadas que se acreditavam divas da óperas, de poetas sem as noções mais elementares de métrica e ritmo que confundiam o riso do público com o aplauso e, atém mesmo, de blogueiros de final de semana que acreditavam poder falar de arte e de filosofia em postagens de cinco parágrafos recheadas de alusões sem graça à cultura nerd de video-games. Embora não consiga pensar agora num exemplo desta última categoria, há dois famosos exemplos de uma má cantora e de um mau poeta que seguiram e insistiram em suas carreiras: Florence Foster Jenkins e William McGonagall.

Florence Foster Jenkins, cujo nome de batismo, apropriadamente, era Narcissa, nasceu em 1868 na Pennsylvania. Desde sua infância, seus pais a desincentivaram a seguir uma carreira de cantora de ópera, pois, como os demais, perceberam que ela não tinha nem vagas noção de afinação, harmonia, ritmo e tempo. Apesar disso, ela fugiu de casa e, após receber a herança de seus defuntos pais e casar-se com um ator e empresário, ela adquiriu os meios e os contatos para dar o início, ainda que tardio, à sua carreira de soprano.

Desde o começo, suas aparições públicas eram o alvo do escárnio da crítica e do público, que ria descontroladamente de suas tentativas de canto; em algumas apresentações, os convidados enfiavam na boca seus guardanapos para tentar abafar o riso – para entender basta comparar esta gravação da ária “Der hölle Rache kocht in meinem Herzen” com esta. Atribuindo essas reações à inveja dos demais, porém, Florence prosseguiu com sua carreira e por trinta anos ela conseguiu atrair público e vender ingressos para suas apresentações, sempre revertendo parte do lucro à caridade.

O ponto alto de sua carreira veio um mês antes de sua morte: após incessantes pedidos, ela aceitou cantar no Carnegie Hall. Cinco mil pessoas se degladiaram para comprar os três mil ingressos à venda e a polícia teve que comparecer ao local para evitar que pessoas sem ingressos invadissem o teatro. Sobre sua carreira, ela, simbolicamente, disse: “As pessoas podem dizer que eu não sei cantar, mas ninguém jamais poderá dizer que eu não cantei,” Hoje, gravações de Foster ainda estão à venda e três peças de teatro, uma delas exibida na Broadway, foram feitas sobre ela.

                                                    Florence Jenkins dressed to kill

O poeta escocês William McGonagall não teve o mesmo sucesso que Florence Jenkins, mas teve a mesma coragem. Nascido em 1825, ele sempre trabalhou como um fiandeiro até que, aos 52 anos de idade, ele descobriu que era um poeta ao sentir “uma chama que ardia dentro de seu corpo inteiro, junto com uma vontade de escrever poesia”. Ciente de que precisaria de um mecenas, McGonagall escreveu uma carta à sua majestade Rainha Victória. Um secretário da monarca respondeu-lhe que “não, obrigado” e, desde então, ele passou a afirmar que a rainha da Inglaterra o havia agradecido por ele ter lhe mandado amostras de sua poesia.

Certo de que ele era um sucesso literário, o poeta escocês foi a Londres e a Nova Iorque para tentar uma carreira, mas voltou de mãos vazias. Por fim, ele tentou vender panfletos e coleções de seus versos, mas, sem sucesso, para poder continuar a recitar os versos que ele tanto amava, McGonagall aceitou tornar-se uma atração de circo de uma cidade pequena: enquanto recitava seus versos, os pagantes tinham o direito de arremessar ovos, sardinhas, farinha, batatas e pão mofado nele. O alvoroço causado pela sua aparição no circo logo levou à proibição do espetáculo e, apesar de episódios esporádicos de sucesso, em 1902, William McGonagall morreu sem dinheiro e reconhecimento, enterrado numa cova comunal.

De qualquer maneira, além de terem feito um filme sobre sua vida, sua obra ainda é publicada e lida hoje em dia, sendo que um de seus poemas mais famosos, “The Tay Bridge Disaster”, escrito acerca do desabamento de uma ponte que matou quase uma centena de pessoas, é relativamente bem conhecido:

O Desastre da Ponte Tay

Bela ponte de linha férrea do prateado [rio] Tay
Ai de mim! Sinto tanto em dizer
Que noventa vidas foram tiradas
No último dia de sabbath de 1879
Que será lembrado por um tempo muito longo.
(…)
Oh desditada ponte sobre o prateado [rio] Tay
Eu devo agora concluir meu canto
Dizendo, sem medo e sem desânimo, ao mundo
Que seus pilares centrais não teriam cedido,
Pelo menos é o que muitos homens sensatos dizem,
Se eles tivessem sido ancorados por pilares de suporte,
Pelo menos muitos homens sensatos confessam,
Pois, quão mais fortes nos construímos nossas casas,
Menores são as chances de sermos mortos.

A coragem desses dois indivíduos não se esgota só na história de suas vidas. Elas apresentam o cerne do força motora que empurra a sociedade e introduz mudanças. É aquele impulso sem o qual, por exemplo, o Impressionismo ou o Punk não existiriam. É preciso ter a coragem de ser o pior, o errado, para que se possa trazer as novidades que depois são aceitas.
Além disso, apesar das gargalhadas que fizeram a trilha sonora de suas vidas, McGonagall’s e Florence Jenkin’s terão sempre uma vitória silenciosa sobre muitos artistas que se adaptam para ouvirem o aplauso fácil: eles realmente gostavam do que faziam.

 

TL;DR: “I’m worse at what I do best
And for this gift I feel blessed.
Our little group has always been
And always will until the end.”

 

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