A profundidade do 2D

por desapiero

A Commedia dell’Arte italiana é célebre por ter criado uma série de personagens que influenciaram diversas formas de arte e que entraram no imaginário popular ocidental. Nomes como Arlequim, Pierrô e Colombina fazem parte do cotidiano e podem ser encontrados nos meios mais variados, desde de um desfile de Carnaval até óperas como Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, video-games como Chrono Cross e até obras de Picasso.

Paul como um Arlequim. Esse personagem foi um tema recorrente no período rosa e, também, no período azul do pintor.

Paul como um Arlequim. Esse personagem foi um tema recorrente no período rosa e, também, no período azul do pintor.

Quando do seu surgimento, na Itália do século XVI, a Commedia dell’Arte era uma espécie de teatro itinerante, baseado na improvisação e na comédia que hoje seria chamada de “pastelão”. As peças não tinham textos escritos, pois os personagens, ou “máscaras”, como também são chamados, pelo fato de cada personagem possuir uma máscara que o representava, sempre repetiam as mesmas ações e exibiam a mesma personalidades. Não era necessário escrever o texto, pois eles sempre dizem as mesmas coisas.

Pierrô, por exemplo, é sempre o eterno romântico apaixonado, que escreve versos para Colombina, a serva da casa, que costuma fugir com Arlequim, o servo malandro e comilão. Da mesma maneira, o Capitão Matamouros é sempre um capitão militar espanhol que só faz contar vantagens e proezas militares para, então,  desaparecer amedrontado ao primeiro sinal de perigo. O Doutor, por outro lado, faz questão de ser pedante e mostrar a todos os outros personagens seus conhecimentos de Filosofia, Lei, Artes, Medicina e de Latim, apesar da completa falta de interesse dos demais, mais ou menos como este blog. Sem dúvida, as máscaras são personagens superficiais e bidimensionais e esse tipo de teatro não sobreviveria aos padrões modernos de atuação de peças com enredos complexos.

Decidi, certo dia, assistir um vídeo sobre esses personagens para depois, poder me gabar para meus amigos. Rapidamente me entediei, porém, e decidi, então, passar para o minha fonte favorita de anedotas engraçadas: o Facebook. Esse dia foi particularmente fértil nesse sentido e, além de alimentar meu complexo de superioridade, pude rir muito e muito alto das asneiras que encontrei lá. Um comentário me pareceu particularmente marcante. A marca de cosméticos Garnier anunciou sei apoio às mulheres do exército de Israel e mandou uma série de produtos, de graça, para elas. A este respeito, a anônima a seguir declarou seu boicote à marca, explicando que:

fezes morais

Essa diarreia de fezes morais me fez pensar bastante sobre o assunto. O conflito na região de Gaza é um tema complexo que envolve países e grupos de interesses do mundo inteiro, parecendo não possuir uma solução imediata. O Estado de Israel tem seus interesses bem como os guerrilheiros -ou seja lá qual o nome que se deve utilizar aqui – do Hamas. São pessoas, famílias, grupos políticos e militares que usam seu poder de coerção para alcançar um objetivo. São pessoas de verdade, com todos os desejos, ambições, contradições, falhas, virtudes, ódio, coragem e esperança que os seres humanos sentem vivendo uma situação de verdade. Certamente, não é possível falar deles como se fossem entidades abstratas ou personagens de duas dimensões com objetivos simplórios e posições morais superficiais. Estar “sempre ao lado da vítima” é uma postura que afronta qualquer abordagem séria para questões morais e parte do pressuposto de que há uma definição absoluta e a priori de certo e errado para qualquer situação e que, naturalmente, o autor desse comentário está sempre do lado correto, porque é uma pessoa virtuosa.

Quando eu li esse comentário, logo me lembrei das máscaras do Commedia dell’Arte. Quando nós falamos sobre nós mesmos ou amigos íntimos, nós falamos de pessoas com personalidades complexas, com interesses e contradições. Pessoas capazes de serem boas ou malvadas, dependendo do momento e das circunstâncias, e que têm o seu valor. O outro, o diferente, a alteridade, por outro lado, não é mais do que um Máscara como Arlequim ou Colombina. A eles não damos o direito da complexidade. Não precisamos saber o que eles têm a dizer, porque eles são personagens superficiais. 

Os soldados israelenses não pessoas como nós, não são jovens que sentem enorme pressão de seus amigos e familiares para entrar numa luta que eles entendem como da sobrevivência de seu povo; eles são pessoas más. O Coxinha da elite branca nazi-católica não é uma pessoa com sentimentos ou capaz de pensar sobre a sociedade, ele é um autômato filo-americano que nasce com valores morais inferiores, na mesma medida em que os Rapaduras que recebem auxílio do Bolsa Família não são seres humanos com objetivos de vida e com aspirações de desenvolvimento social e econômico, eles são preguiçosos que se regozijam em comer o pão amassado por mãos alheias. (Mais duas máscaras para engrossar os personagens da Commedia dell’Arte!) A nós e nossos amigos, o script bem escrito de um drama de Oscar, aos outros, as máscaras.

E, bem, nesse momento, eu percebi que as máscaras da Commedia não se tornaram obsoletas e que, sim, elas continuam firmes e fortes no nosso cotidiano.

TL;DR: Na Commedia dell’Arte italiana, as personagens eram representadas por máscaras, pois suas falas e reações já eram conhecidas pelo público. Mais ou menos como as pessoas que pensam diferentes de nós lol

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