Eu não tenho medo

por desapiero

De acordo com um site confiável, o medo é uma resposta natural do ser humano para alertas de situações de perigo. Sua função é a de causar no indivíduo uma resposta de fuga ou de luta, com o intuito de se preservar. A coragem, inversamente, consistiria na capacidade de não sentir o medo e agir sem se deixar interferir por ele. Agora, Tarkovsky, por outro lado, nos mostra que, em alguns casos, não sentir medo é deixar de ser humano.

Andrei Tarkovsky (1932-1986) foi um dramaturgo soviético de origem ucraniana que consagrou seu nome na História do cinema por introduzir uma abordagem metafísica e não-linear para o enredo e a direção de filmes, realizando, portanto, os primeiros “filmes-sonhos”. Seus filmes foram pioneiros em introduzir segmentos de alucinações ou de devaneios, além de flashbacks, que interrompem ou confundem a linearidade da narrativa, o que são elementos que foram adotados em filmes contemporâneos, como “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”.  Além disso, Tarkovsky, depois de tirar o bigode, tornou-se técnico da seleção brasileira.

Um de seus filmes mais notáveis foi “A Infância de Ivan”, de 1962. O filme não é baseado em fatos reais, mas conta a estória perfeitamente plausível de um menino de 12 anos chamado Ivan que, após perder toda a família para as balas nazistas na batalha de Stalingrado, não tem mais para onde ir e, então, passa a viver com soldados do Exército Vermelho que, como podem, cuidam dele.

Não bastasse, porém, a batalha de Stalingrado ter sido a maior e possivelmente mais cruel batalha da História da Humanidade – e, portanto, certamente um dos piores locais para se criar uma criança – os soldados que o acolheram perceberam que Ivan, pelo seu tamanho reduzido e perfil discreto, era perfeito para missões de escolta e reconhecimento que eles realizavam diariamente. De fato, Ivan conseguia passar despercebido pelas linhas inimigas, enquanto que os soldados adultos eram sempre interceptados e mortos por fogo de metralhadora.

No começo, houve certa hesitação em se utilizar uma criança para uma missão de guerra em Stalingrado. Conforme o tempo vai passando, porém, os soldados percebem que Ivan estava completamente acostumado com a guerra: enquanto soldados novatos tremem de medo com as explosões de artilharia, rajadas de metralhadora e sirenes de alerta, Ivan, com o olhar frio e distante da realidade, afirma simplesmente que: “Eu não tenho medo.”

Ivan dizendo aos

Tocados com a realidade sombria do garoto, seus camaradas arranjam para que ele seja enviado para um escola militar e fique sob bons cuidados. A vingança infernal arde em seu coração, no entanto, e Ivan decide fugir para continuar a lutar com armas ao lado de milícias locais. Logo após a queda de Berlim, enquanto as tropas do Exército Vermelho comemoram ao som de Katyusha, descobre-se que Ivan morreu enforcado em um lager de extermínio perto de Minsk.

Na primeira vez que assisti esse filme, achei que Ivan fosse um garoto excepcionalmente corajoso. Depois de revê-lo, porém, entendi que Ivan era excepcionalmente perturbado pela realidade. Não sentir mais medo, no seu caso, era viver com a aceitação tácita da morte aleatória e ordinária e da violência e da vingança como únicos meios efetivos de se obter alguma satisfação na vida, ou melhor dizendo, na sua extinção. Ivan parou de sentir medo, pois já não media mais a vida como um ser humano com expectativas. Devia ser algo como viver em São Paulo dos dias de hoje. Ou ainda, como o poeta italiano Giuseppe Ungaretti resume em quatro versos:

Os Soldados

Nos sentimos como,
No Outono,
Nas árvores,
As folhas.

TL;DR: Não, este post não é sobre o romance “Eu não tenho medo” do Niccolò Amaniti.

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