O MASP em agonia

por desapiero

O MASP é uma joia encravada no coração de São Paulo e largamente ignorado pela população, pelo menos em proporção à sua importância. O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand é o mais importante museu de arte  européia do Hemisfério Sul e, entre suas 8 mil obras, pode-se contar obras primas de Botticelli, El Greco, Goya, Velázquez, Delacroix, Renoir, Monet, Cèzanne, van Gogh, Toulouse-Lautrec, Rubens, Rembrandt, van Dyke, Manet, Degas (incluindo esculturas), Rodin, Picasso, Duchamp, Ernst, Miró, Vitor Meireles, Anita Malfatti, Portinari, di Cavalcanti, Lasar Segall, Benedito Calixto, Tomie Ohtake, Diego Rivera, Andy Warhol, arte africana e asiática e, por fim, artistas contemporâneos e obras de fotografia. Não é pouca coisa e, de fato, é muito comum encontrar turistas surpreendendo-se com o acervo.

Apesar disso, a agonia do MASP é aparente. A pungência de sua obra, adquirida com esforços que beiravam a insensatez de seus criadores – Pietro Maria Bardi, marido da arquiteta Mario Bo Bardi, chegou a financiar R$ 5 milhões da família Rockfeller para poder adquirir novas obras para o acervo –  e a generosidade das famílias que continuam a doar obras e dinheiro para a instituição não são suficientes para injetar recursos no museu. Afundado em R$ 10 milhões de dívidas, o MASP não consegue pagar nem o salário de todos seus funcionários. Na verdade, o museu não consegue nem abrir exposições temporárias: as duas exposições atualmente em cartaz são só reposicionamentos de seu acervo permanente…

Na última vez que entrei no museu, ainda este ano, fui esperançoso de vê-lo vibrante e lotado de pessoas, a exemplo de outras exposições em São Paulo, como na mais recente de Yayoi Kusama e das últimas exposições do MIS. Quando me aproximei do museu, vi uma multidão debaixo do seu vão e supus que haveria um grande demanda para entrar nele.

As pessoas estavam reunidas lá somente para trocar figurinhas da Copa do Mundo 2014, no entanto. Enquanto me divertia imaginando a inclusão de cromos do Museu do Índio, de obras cívicas inacabadas ou dos protestos de 2013 no álbum, sem encontrar nenhuma fila, comprei um ingresso e subi para o MASP, fisgado pela exposição “Passagens por Paris”.

Comecei em sentido cronológico inverso, vendo primeiro as obras do século XX. Logo me dei conta de que “Passagens por Paris”, como mencionei acima, era só a relocalização de obras do acervo permanente do museu, o que me abriu os olhos para as dificuldades pelas quais a instituição está passando. De qualquer maneira, segui com passo lento pelos corredores quase vazios do museu, sendo ocasionalmente interrompido por algum turista estrangeiro comentando em sua língua-mãe as obras expostas. Muitas obras me causaram forte impressão, como Moema de Vítor Meireles, assombrosamente significativa em tempos de Altamira, e Rosa e Azul, de Renoir, que transmitia a alegria e a tranquilidade de um tempo já esquecido. Um retrato histórico, no entanto, foi o que mais me marcou.

Retrato do Conde-Duque de Olivares (1624) por Diego Velázquez

Retrato do Conde-Duque de Olivares (1624) por Diego Velázquez

No começo do século XVII, quando a Espanha era potência hegemônica global e era dona de territórios em todo o mundo conhecido, e inclusive do Brasil, por meio na União Ibéria, o Conde-Duque de Olivares era um Grande da Espanha e valido de Sua Majestade o rei Felipe IV. Ele foi primeiro ministro do império espanhol, o que significava que, em termos práticos, ele tinha o maior peso em decidir o futuro da Espanha e, por conseguinte, da História ocidental. Ele era, de fato, a pessoa mais poderosa e temida no mundo, naquele momento, pois, com uma ordem sua, convencia o rei a mandar os tercios espanhóis conquistar qualquer terreno, fosse nas Américas, na Holanda ou nas Filipinas.

Lá no MASP, porém, seu retrato era um dos mais ignorados do museu. Os turistas passavam rapidamente lá e só paravam para observá-lo se se davam conta de que foi Velázquez quem o pintou. Demorei-me um pouco observando esse personagem e todos os símbolos que ostentavam seu poder: roupas finais, a cruz da Ordem militar de Santiago, a have de governador e homem político, o bigode de aristocrata. Nada mais disso impressionava ninguém e seu olhar, agora tão vazio, parecia olhar com melancolia para o nada. Enquanto me perguntava se aquele também seria o destino do museu que abrigava seu retrato, não pude tirar um soneto de um contemporâneo seu, Francisco de Quevedo, da minha cabeça:

Miré los muros de la patria mía

Olhei os muros da pátria minha
Se um tempo fortes, já desmoronados
Pela corrida dos anos cansados
Por quem caduca já sua valentia.

Subi ao campo; vi que o sol bebia
Os arroios do gelo desatados
E, do monte, queixosos os gados
Que, com sua sombra, rouba sua luz ao dia.

Entrei em minha casa, vi que, manchada,
Da antiga habitação era os despojos;
Minha bengala, mais curva e menos forte.

Vencida pela idade senti minha espada,
E não achei coisa em que pousar os olhos
Que não fosse recordação da morte.

TL;DR: Quem dera tirar selfies no MASP estivesse na moda, ou que alguém fizesse lá um rolezinho.

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