O que nos espera agora?

por desapiero

Após um hiato de um mês, o sem-número de cartas que recebi pedindo minha volta ao blog ficou tão volumoso que meu prêmio Pullitzer já nem servia mais de peso de papel e me vi obrigado a voltar teclar aqui. Aos curiosos sobre minha ausência, eu me justifico: passei os últimos trinta dias tentando entender o que, de Norte a Sul, aconteceu neste país e o que o nosso povo, nos dois turnos de votação, pretendia fazer. Após meu cérebro ferver e cozinhar como um missoshiro, cheguei -ou melhor, fui arrastado- à conclusão de que há coisas que só podem ser lamentadas, mas jamais compreendidas.

Curiosamente, tive essa conclusão quase simultaneamente com a festa de Halloween -ou festa do Saci, o que for menos problemático- e com o dia de Finados. Comecei a pensar o quanto a Política e a Morte têm em comum: ambas são inevitáveis, ambas levam ao Céu ou ao Inferno e, pelo visto, elas só podem ser lamentadas pelo ser humano. Pensando nisso, e amparado no clima assustador que se vê no país atualmente (refiro-me aos enfeites de Halloween!) decidi apresentar aqui duas canções sobre o pós-vida: a primeira apresenta o inferno como morada final, enquanto que a segunda aponta para o Paraíso.

Quand Je Menais mes Chevaux Boire, sugestão de uma amiga musicista, é uma canção tradicional francesa  do século XVIII, composta na região da Normandia. Ela fala sobre como a morte é inevitável e imprevisível e sugere a existência humana como fatalmente fora do controle -e da compreensão- das pessoas.

Quand je menais mes chevaux boire

Quando levei meus cavalos para beber água
Eu ouvi o cuco cantar
Ele me dizia na sua língua

Ele me dizia na sua língua:
“Tua bem amada vão enterrar.”
Ah! Que dizes, besta malvada?
Eu estava ao lado dela ontem à noite!

Mas, quando eu fui ao campo,
Ouvi os sinos tocarem.
Mas, quando eu fui à igreja,
Ouvi os padres cantarem.

Dei um chute no caixão:
-Desperta-te, se tu dormes!
-Não, eu não durmo e nem estou sonhando,
Eu te espero de dentro do inferno.

Veja, minha boca está cheia de terra
E a tua está cheia de amor
Ao meu lado resta um lugar
E para ti que o estão guardando.

Dia da Morte, de Carlos Schwabe, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Por trás dos véus, ele não pode ser previsto e nem compreendido inteiramente.

A segunda canção chama-se “Will the Circle be Unbroken?” (O círculo será refeito?) e foi composta nos Estados Unidos da América em 1907 pela missionária inglesa Ada Habershon. Ela fala sobre a separação entre os mortos e os vivos, mas apresenta uma perspectiva muito mais positiva que a canção normanda acima:

Will the Circle be Unbroken?

Há pessoas amadas na Glória
De cujas queridas formas tu amiúde sentes saudades
Quando encerrares tua história terrenal,
Tu te juntaras a eles no júbilo?

O círculo será refeito
Aos poucos, aos poucos?
Há uma morada melhor aguardando
No Céu, no Céu?

Nos dias alegres da infância
Sempre falavam de amores maravilhosos
Apontados ao Salvador moribundo;
Agora eles moram com Ele lá em cima,

Tu te lembras das canções do Paraíso
Que cantavas com voz de criança?
Tu amas os hinos que te ensinaram,
Ou canções mundanas são tua escolha?

Tu podes recriar encontros alegres
Em volta do fogueira, há muito tempo?
E tu pensas nas despedidas cheias de lágrimas
De quando eles te deixaram aqui embaixo?

Um a um, seus assentos se esvaziaram.
Um a um, eles foram embora.
Agora a família está partida.
Ela será completada um dia?

O círculo será refeito
Aos poucos, aos poucos?
Há uma morada melhor aguardando
No Céu, no Céu?

Se o leitor chegou até aqui, imagino que ele gostaria de saber que o vídeo que hyperlinkei acima foi retirado do game Bioshock: Infinite. Sim, mencionei esse jogo neste outro post. Se o leitor, por outro lado, se pergunta por que este post não possui (tantas) piadas e infantilismo quanto os outros que ele encontra aqui, a resposta é simples: não há nada para rir aqui, só coisas para lamentar.

TL;DR: As duas canções são sobre o pós-vida, mas uma é o contrário da outra. O quadro é simbolista e fala sobre a incompreensão da existência. Não deu para entender direito? Bem, há muitas coisas assim aqui.

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