Isto não é arte

por desapiero

Chegar a uma definição unívoca e universal de arte é uma tarefa impossível. Se apelarmos à etimologia, arte vem do latim ” ars” e significa “habilidade”, “ofício” ou até mesmo “profissão”. Por outro lado, se nos aliarmos a Kant, devemos definir arte como alguma expressão bela e sublime do ser humano em diversos meios, como dança ou literatura. Por fim, nos aproximando do século XX, levando em consideração sobretudo os movimentos Dadá e Surrealista, poderíamos definir arte como qualquer expressão criativa do espírito humano.

Independentemente dessas definições, sempre houve  dualidade entre um valor estético e outro conceitual na arte. Em alguns momentos históricos, houve uma evolução conjunto desses dois valores, mas, com o desenvolvimento de certas tecnologias, como a fotografia, o cinema e o jornal, chegou-se a um consenso de que o valor estético da arte era obsoleto por ser incapaz de superá-las. Em outras palavras, a partir do momento em que se torna impossível, com a pintura a óleo, superar a perfeição de uma fotografia, então deve-se se pensar em outra razão para a arte.

Nesse momento, a arte conceitual começa a ganhar força. Os dadaístas criticavam o público e a crítica que ia às exposições buscando algo que fosse agradar seus sentidos, mas que tinham preguiça demais para aliar inteligência à contemplação e ter que forçar o cocoruto para entender o que estavam vendo. É o que os dadaístas chamavam de “arte para os olhos”, mas que não era arte para a cabeça. Para argumentar e defender esse ponto de vista, essa vanguarda utilizava meios bastantes chocantes, desde xingar um padre e fotografar esse ato, até organizar uma peça de teatro que consistia unicamente em xingar os espectadores até que eles se ofendessem e fossem embora ou arremessassem  comida neles lol.

Quando li sobre a performance “Macaquinhos”, que ocorreu hoje no Centro Cultural São Paulo, esperava ver algo inovador e chocante. A performance consiste em um grupo de nove atores que ficam explorando – examinando, tocando, cheirando, lambendo e não sei o que mais – os ânus um do outro, como pode ser visto neste vídeo deles. Eles apresentam o projeto da seguinte maneira: “desbunde: deboche: degredo: ingênuo: vulgar: arcaico: frágil: intimo: comum: construir uma fisicalidade a partir do cu: brincar de epistemologia do cu: parodiando: Macaquinhos assenta em três orientações: aprender que existe cu: aprender a ir para o cu: aprender a partir do cu e com o cu.”  Eu assisti o realease inteiro e, depois, ainda assisti outros releases de outras versões de “Macaquinhos” e… bem… isso, concluí que isso não é arte, sob qualquer aspecto.

A princípio, achei que os criadores pensassem em fazer uma defesa à liberdade de escolha sexual, mas não há nenhum elemento erótico  ou de defesa social nessa performance. Do ponto de vista estético, eles só alcançaram uma visão mais assustadora e real da Centopéia Humana e a ausência de outros elementos estéticos como coreografia, música e design certamente não impressionam. Por fim, do ponto de vista conceitual, não há nada em “Macaquinhos”que Marcel Duchamp não tenha feito antes e os seus criadores estão atrasados em um século. E, se formos julgar uma obra somente pelo seu valor de choque ou de repulsa, então eu proclamo que o filme alemão “A Melancolia do Anjo”, no qual cenas simuladas de estupro e tortura se misturam a cenas reais de tortura e morte de animais, é um emprego de tempo mais proveitoso. Além disso, a visão de um monte de gente branca não conseguir enxergar nada além de seus próprios ânus não é algo realmente novo.

Me lembrei, então de um artista italiano, o conde Piero Manzoni. Na década de 1960, ele já havia quebrados várias barreiras do pensamento conceitual artístico com duas obras inovadoras: “A Merda do Artista” e “Declaração de Autenticidade”. A primeira obra (não é difícil de descobrir) consiste em latas de aço com pedaços de fezes do artista, enquanto que a segunda é uma série de documentos registrados em cartórios que se declaram como obras de arte para as pessoas que os compraram. Manzoni foi esperto e irônico ao mostrar que era perfeitamente capaz de manipular e brincar com público e crítica e que, enquanto artista, poderia fazer qualquer coisa se passar por arte e ainda sair ganhando com isso. Ao fazer isso, porém, ele não dependeu da reação dos outros, mas a previu e brincou com ela.

Obra de arte criada e certificada por Piero Manzoni em 1962.

Obra de arte criada e certificada por Piero Manzoni em 1962.

Infelizmente, não encontrei nada nisso em “Macaquinhos”. Algumas pessoas comentaram que, se os atores que a fizeram conseguiram qualquer reação do público, então seu objetivo foi cumprido e que isso é arte. Bem, nesse caso, eu devo ter perdido o momento em que arte passou a ser definida nas colunas de fofocas.

TL;DR: Quer ver uma versão real da Centopéia Humana? Clique no link no corpo do texto.

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