Wassily Kandinsky e o equilíbrio do Universo

por desapiero

A maneira pela qual as coisas acontecem em nossas vidas particulares ou na História do humanidade geralmente leva a duas interpretações opostas: ou as coisas simplesmente acontecem sem nenhuma razão, causa ou propósito, ou todas as nossas vidas são um precioso balé coreografado e orquestrado segundo a música ressonante do Universo.

Se, como os ateus chocantes, vikings marxistas e outros tipos de intelectuais que ganham batalhas de teclados na internet, pensamos que o pensamento humano segue uma evolução mais ou menos linear, então cremos que nos aproximamos cada vez mais da Verdade, conforme a História se desenrola. Isso significaria, portanto, que na Idade Média, o pensamento da Humanidade – ou Ocidental, que quer dizer a mesma coia – ainda estava numa fase adolescente e marcada pela necessidade de auxílio da religião como fonte de explicação para os fenômenos e fatos da vida. Em contraposição, hoje teríamos uma visão mais crítica, racional, materialista e madura do mundo tal qual ele é: o resultado casual de fenômenos que vão e vêm alheios às vontades humanas. Talvez eles estejam certos, mas há duas obras, uma medieval e outra contemporânea, que fogem dessa lógica: “Oh Fortuna” e “Composição VIII”.

“O Fortuna” é um canto que faz parte da coleção Carmina Burana, escrita, talvez, no século XIII por monges goliardos. Esses monges, em sua maior parte, eram filhos sem heranças de nobres que acabavam sendo obrigados a estudar teologia e seguir, sem vocação ou vontade, a vida monástica. Eles eram famosos pelo comportamento deplorável, pelas sátiras e sarcasmos à igreja e por outros atos de zoeira. Céticos e descrentes, eles viam o mundo como um local de vício e vida como uma sem-razão.

“O Fortuna” é uma das canções mais famosas do Carmina Burana. Ela apresenta a deusa romana Fortuna, encarnação do acaso, como a imperatriz que rege o destino do mundo, destronando, portanto, o Deus cristão. A vida, nessa canção, é uma coleção aleatória de coisas boas ou ruins, que vêm sem qualquer relação com o mérito do indivíduo ou com alguma noção de justiça cósmica. Ela foi musicada por um alemão chamado Carl Orff e você certamente já a ouviu, pois ela aparece na abertura do filme do Jackass. Sugiro clicar no hyperlink abaixo, porém, pois ele é mais engraçado lol

O Fortuna

Oh Fortuna,
Como a lua
Variável de estado
Sempre cresces
Ou decresces.
Vida detestável
Agora oprimes
Depois alivias
Como um jogo
A pobreza
E o poder
Dissolves como um gelo.

Sorte monstruosa
E vazia
Gira a tua roda,
Perversa
(…)

A sorte na saúde
E na virtude
Agora me está contrária
Enfraquecido
E sem conforto,
Sempre escravo
Nesta hora
Sem demora
Toca tuas cordas vibrantes,
Que a Sorte
Derruba o forte.
Chorem todos comigo!

Depois dessa visão sem desalentadora do mundo, fui procurar por alguma espécie de consolo. O lugar onde menos esperava encontrá-lo, mas onde o achei em abundância, foi nas obras do período tardio de Wassily Kandinsky.

Kandinsky é o cara que foi homenageado pelo Google na última terça-feira. Ele é mormente conhecido por ter co-fundado o movimento Der Blaue Ritter, (O Cavaleiro Azul), na década de 1910 na Alemanha.  Suas obras tardias são características por unirem, de maneira assustadoramente harmoniosa, formas geométricas e zonas cromáticas para produzir uma composição imensa, complexa e em equilíbrio irretocável.

Ele escreveu um livro chamado “Ponta, linha e superfície”, que nunca foi traduzido e publicado aqui no Brasil, mas que pode ser achado no estrangeiro. Nele, de maneira minuciosa, o pintor analisa os efeitos e as sensações que toda forma plástica causa na mente humana. Isso resulta numa visão de mundo fascinante e cheia de vida e sinestesias. Por exemplo, a cor amarela, segundo Kandinsky, é um cor quente, que aproxima,boa para triângulos e que corresponde à nota Dó, enquanto que a cor azul é mais fria, que afasta e indicada para círculos.  O papel do artista, nesse contexto, é orquestrar os diferentes efeitos de cada forma e cor e ouvir a respiração que cada obra, uma entidade viva, produz. Assim, ele alcançará, a partir do caos, um equilíbrio perfeito e cheio de beleza.

Composição VII, Wassily Kandinsky, 1923. Museu Guggenheim de Nova Iorque.

Composição VIII, Wassily Kandinsky, 1923. Museu Guggenheim de Nova Iorque.

O leitor veja a obra acima. Do aparante caos de cada forma desenhada, Kandinsky realiza um equilíbrio majestoso. Se não acredita, que faça o teste: cubra com seu dedo uma só forma do quadro acima e você verá como toda a obra se desmonta imediatamente.

Em suma, ao contrário dos monges zoeiros, se vermos nossas vidas, o decorrer da História e o andar do Universo como um quadro desses, então veremos que, a partir do caos absoluto e de todas as coisas sem razão aparente e de formas diferentes, é possível alcançar uma harmonia que não só é equilibrada e justa, mas também intrinsecamente maravilhosa, no mínimo, pela sua própria improvável existência. Nesse sentido, ver harmonia no mundo não é covardia intelectual, mas só uma aplicação superior da razão humana.

TL;DR: Comparando Carmina Burana e Kandinsky, você vai quer, quando tudo parece estar perdido, é porque deve haver uma ordem por trás disso. Ou não lol

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