Café com leite

por desapiero

Está-se falando muito sobre liberdade de expressão ultimamente, em virtude dos ataques terroristas que ocorreram na França neste mês. Há vários pontos que foram tocados como o direito à blasfêmia, o antisemitismo e a noção de que a liberdade de expressão seria, secretamente, uma ferramenta para oprimir as minorias ao redor do mundo (o terrorismo seria a contraparte opressora não-secreta delas).  Os fiéis droogs que acampanham este blog sabe que o autor tem uma forte inclinação para participar das inúteis perigosíssimas brigas de teclados da internet (se lembram quando eu disse que não havia problema em xingar a chefe de Estado?). Desta vez, porém, o seu intrépido galante gladiador da internet vai se ater a somente um ponto: a relutância em ofender o Outro é a forma mais vil de antropocentrismo.

Os valores das sociedades ocidentais, há mais de um século, já foram repetidas vezes demolidos sem qualquer misericórdia. Dos dadaístas vestidos de freira fazendo poesia com recortes de jornais e surrealistas pintando os desejos mais deturpados da mente humana até South Park fazendo um vídeo no qual Jesus e George Bush, com outros americanos, defecam uns nos outros e na bandeira americana, além, é claro, do pedaço de lixo da obra arte chamada “Piss Christ”, na qual um crucifixo é imerso num recipiente cheio de urina. Nada mais é sagrado, além da noção sagrada de se poder criticar, e não existe qualquer garantia de que, por qualquer – ou nenhuma – razão, você não seja grosseiramente avacalhado em nossa sociedade.

Nós produzimos filmes como Laranja Mecânica, que escancaram a sede de sexo e violência do ser humano, e ainda fazemos um musical, Jesus Cristo Superstar, com o Redentor de nossa civilização. Lars von Trier, que disse “de brincadeira” ser nazista, faz uma trilogia de filmes grotescos sobre caos, sexo, niilismo desconcentrantes, inclusive, nomeando o último de “Anticristo”. George Brassens canta uma canção na qual compara exibir seu pênis em público à procissão do Santíssimo Sacramento numa igreja, além de dizer que pegou um padre realizando sexo oral na sua namorada. A pessoa ocidental é anestesiada contra tudo isso e, na arte, praticamente nada mais é capaz de nos ofender a um ponto que tenhamos que pedir para censurar algo,nem a abominação que apresento abaixo. Em suma, nós temos um queixo duro.

Linhas de 10 polegadas feitas nas cabeças de dois viciados, que receberam uma dose de heroína em troca. Santiago Serra, 2000. Em exposição temporário no Centre Pompidou em Paris.

Linhas de 10 polegadas feitas nas cabeças de dois viciados, que receberam uma dose de heroína em troca. Santiago Serra, 2000. Em exposição temporária no Centre Pompidou em Paris. (não, não são atores e, não, Santiago Serra não foi preso nem censurado por ter feito isso)

Agora, dado esse show de horrores que apresentei acima, há muita gente #nãosendocharlie criticando o revista Charlie Hebdo, por ofender minorias e, mais em pauta no momento, muçulmanos. Ou seja, demolir da maneira mais vil, blasfema, ofensiva, chocante, provocadora e gratuitamente repulsiva todos os valores da nossa sociedade e religião é algo não só aceitável, mas fruto de um intelecto aguçado, enquanto que, independentemente da razão por trás disso, satirizar os muçulmanos é algo condenável. Ler esse tipo de crítica me entristeceu muito, não porque eu nutra ódio pelos seguidores de Maomé, mas, ao contrário, porque eu os respeito e acredito que essa visão de mundo #jenesuispascharlie seja o cúmulo do etnocentrismo.

Explico-me. Nós, ocidentais, podemos criticar tudo que é nosso e expor o mal que fazemos, mas não temos a coragem ou a capacidade de enxergar o mal nos outros. Demolimo-nos por completo, mas trememos de medo ao dizer que algum país terceiro-mundista ou alguma minoria fez algo de errado. É como se nos considerássemos capaz de lidar com essas realidades, mas negássemos essa capacidade ao Outro. Nós nos enxergamos por inteiro, mas vemos só uma parte dos que estão do outro lado. Nem na idade medieval tínhamos essa presunção, pois se Ricardo Coração de Leão chamava a Saladin de inimigo, ele via nele várias virtudes cavalheirescas, e o recíproco era verdadeiro. Esse tempo passou, porém, e agora temos o monopólio duplo da moral.

Com efeito, no século XIX, o Ocidente tinha o monopólio do Bem, quando pregava o dever do homem branco de catequizar o mundo. Agora, nós nos tornamos melhores e ainda mais superiores, pois temos o monopólio do Mal. Somente nós somos capazes de sermos ofensivos e o resto do mundo é uma criança irresponsável. Assim, finalmente vencemos a batalha civilizacional: tão-somente nós somos potentes para o mal e o resto, bem, o resto é café com leite.

TL;DR: O monopólio do mal é o último estágio do etnocentrismo.

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