Guerra, a única higiene do mundo

por desapiero

“Não existe beleza, senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para reduzi-las e prostrá-las diante do homem. (…) Nós queremos glorificar a guerra – a única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutor dos libertários, as belas idéias pelas quais se morre e [só de quebra] o desprezo pela mulher.”

Estes são só alguns dos pontos do Manifesto Futurista que o italiano Filippo Tommaso Marinetti publicou há 106 anos, a 5 de fevereiro de 1906. Alguns anos mais tarde, na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os antigos ideais de guerra cavalheiresca, com ginetes encouraçados de lanças e elmos cintilantes, foram rapidamente destroçados pelo fogo das metralhadoras, granadas de mão e artilharia de longa distância, que reduziram o ímpeto e o movimento da guerra antiga a uma morte lenta, dolorosa e sufocante na lama das trincheiras salpicadas de corpos humanos despedaçados e temperadas com gás mostarda. Hoje, nós sabemos disso e, portanto, conseguimos imaginar os futuristas que apoiaram esse manifesto com uma tremenda cara de bunda. Naquele momento, no entanto, havia poucas vozes que não faziam coro às virtudes da guerra e que não clamavam pela sua vinda.

Àquela época, a guerra ainda era visto como algo positivo para a humanidade e muitas pessoas achavam que ela ajudaria a livrar os jovens da época de vícios como o alcoolismo, a vagabundagem e a libertinagem sexual. O livro A Beleza e a Dor: uma história íntima da Primeira Guerra Mundial, escrito pelo sueco Peter Englund e publicado no Brasil no ano passado pela Companhia das Letras, mostra o ponto de vista de pessoas de diversos estratos sociais e de diversos países antes, durante e após a guerra. A aprovação da guerra era quase unânime: idosos achavam que os jovens tinham uma conduta libertina porque não sabiam o que era o trabalho duro de verdade, algo que aprenderiam na guerra; jovens achavam que a Primeira Guerra Mundial seria o acontecimento do século e que seria a maior idiotice não aproveitar essa oportunidade única de ir fazer história; jovens mulheres, participando como motoristas, enfermeiras ou pilotos, viam a guerra como uma oportunidade de mostrarem seu valor ao mundo e dar nova vida ao feminismo internacional; algumas correntes artísticas e intelectuais, por fim, viam esse conflito como uma oportunidade de renovar o mundo e prepará-lo para a revolução, seja ela fascista ou socialista. Enfim, todos queriam a guerra… até que ela veio de verdade.

"Seja honesto consigo mesmo. Tenha certeza que sua assim chamada razão não seja uma desculpa egoísta."

“Seja honesto consigo mesmo. Tenha certeza que sua assim chamada razão não seja uma desculpa egoísta.”

E quando ela veio, uma nova sinfonia de dores e lamentos se faz ouvir em todas as artes. Há uma grande quantidade de romances, telas, peças de teatro, canções e filmes que retratam o que ela causou. Um dos mais emblemáticos é o romance “Nada de novo no fronte ocidental” do alemão Erich Maria Remarque. Nesse livro pacifista, que Hitler posteriormente mandaria ser queimado em praça pública, sob a acusação de ser derrotista e contra a nação alemã, Remarque conta com detalhes como o êxtase inicial de se alistar no exército com seus amigos se torna rapidamente numa realidade cinzenta e horripilante.

Ele narra a história de Paul Bäumer, um jovem alemão que, incentivado pelo professor do colegial a se alistar, decide embarcar nessa aventura com seus colegas de classe. Logo ao começar seu treinamento, ele começa a enxergar todas as expectativas que ele tinha sobre a guerra se desmancharem. Honra, lealdade e coragem dão lugar a corrupção, traição e letárgica covardia. Seus dias no fronte são o mais puro tédio, recheados de tarefas repetitivas como cavar trincheiras e limpar armas, com breves interrupções de momentos de puro terror, como um ataque inesperado de gás, ou um bombardeio surpresa.

Com o apoio que ele recebe de um soldado mais experiente, Stanislaus Katczinsky, ele aprende dicas importantes para se manter vivo e alimentado. Após alguns anos nas trincheiras, Bäumer já viu de tudo: colegas serem explodidos por artilharias e terem seus membros pelados presos a árvores; soldados inexperientes, sem saber utilizar corretamente as máscaras de gás, serem consumidos pelo gás mostarda e, cegos, agonizarem por semanas antes de terem uma morte horrível, clamando por suas mães, em macas de hospitais de campo; crânios fragmentados por explosões e outras coisas corriqueiras da guerra.

Apesar de todos os cuidados que Bäumer toma, seus camaradas, bem como seus valores vão morrendo, paulatinamente, um a um. Por fim, dias antes do fim da guerra, por uma banal explosão de granada, Katczinky, seu amigo e mentor, morre. A este ponto, toda sua fé na decência humana já tinha sido consumida, tudo perde seu sentido e seu próprio instinto de sobrevivência acabava sendo inibido: sem mais prospectivas de que nada possa melhorar, Bäumer se deixa morrer. No dia de seu óbito, o comunicado oficial do exército alemão diz que não houve nada de novo no fronte ocidental.

Hoje, podemos entender que a Primeira Guerra Mundial foi um tremendo erro. No seu início, no entanto, ela parecia uma ótima ideia. E, hoje, temos a certeza de que jamais nos deixaremos errar de maneira tão profunda novamente. E é aqui que eu sinto meu intelecto e meu coração vacilarem.

Há uma campanhas de abaixo-assinado na internet, com suas milhares de assinaturas, pedindo para “determos” o Estado Islâmico. “Determos” não significa absolutamente nada na realidade. Não se detém um exército, pois um exército não é uma abstração intelectual. O que se faz é matar, explodir, metralhar, queimar e desmembrar pessoas. Não podemos conclamar a guerra-sabonete que vai “limpar” esses rebeldes do mapas, pois essa ideia agradável não tem contraparte real no mundo concreto. O que podemos fazer é mandar tropas que vão matar e destruir até que os extremistas islâmicos se rendam, ou sejam mortos até o último fanático. Estamos todos empolgados com a ideia de “detê-los”, mas será que sabemos qual será o custo real disso para todos?

Não me entendam errado, considero que combater o Estado Islâmico seja tecnicamente possível, politicamente necessário e moralmente justo. Só temo, como os futuristas de 1906, acabar com uma cara de bunda daqui a alguns anos, pois, mesmo com todo nossos recursos técnicos, não sabemos medir a dor que causaremos nos demais. E, com belos discursos, acabaremos mandando milhares de Paul Bäumer para sua morte. E quem terá a coragem de medir as vidas na balança para tomar essa decisão?

Sou uma criatura
Giuseppe Ungaretti
(Fronte Italiano, Valloncello, 5 de agosto de 1916)

Como esta pedra
Do [monte] San Michele
Tão fria
Tão dura
Tão seca
Tão refratária
Assim totalmente
Desanimada

Como esta pedra
É o meu pranto
Que não se vê

A morte
Se desconta
Vivendo

TL;DR: A guerra é a única higiene do mundo, mas fazê-la suja, e muito, as suas mãos.

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