Et in Arcadia…

Uma tentativa de apresentar a Arte como a afirmação da vida.

Mês: março, 2015

“Mau por natureza. E você me fez assim.”

Hora da Aventura, (ou Hora de Aventuras, se você almoçou bacalhau ou funge ao invés de feijoada) é um desenho animado exibido pelo canal Cartoon Network. Por ter uma trama surrealista e geralmente nonsense, mais ou menos como Bob Esponja Calça Quadrada, é difícil explicar do que ele trata exatamente, mas pode-se dizer que Hora da Aventura narra a história de um garoto humano chamado Finn e seu irmão/cachorro mágico Jake e que, juntos, eles participam de uma série de aventuras, protegendo o Reino Doce, onde tudo e todos são feitos de açúcar, de bruxos malvados.

Pois é. Não é nada de excepcional. Por conta disso, nerds com barba no pescoço e blogueiros de final de semana que assistem esse desenho tomam bastante cuidado em realizar análises prolixas e supostamente profundas de seus episódios para que, quando eles sejam surpreendidos assistindo desenhos animados, tenham algo com o que se defender. Portanto, vamos lá. É hora da aventura do malabarismo filosófico!

Além de Finn e Jake, Hora da Aventura tem outros personagens importantes. O Reino Doce é governado pela Princesa Jujuba. Nos primeiros episódios, ela parece ser uma princesa justa e bondosa, mas, conforme a série vai progredindo, percebe-se que ela é uma déspota louca por controle, que espiona todos os habitantes do seu reino (que aliás, ela sintetizou em laboratórios), realiza prisões sumárias e sem julgamentos e tem um senso de moral utilitarista que atropela qualquer apelo ao sentimentalismo. Além disso, ela é uma cientista cujas ambições de descobertas não são freadas por questionamentos éticos. E, de fato, num de seus experimentos fracassados, ao tentar criar pessoas doces como os habitantes do Reino Doce, ela, sem querer querendo, criou o Conde de Lemongrab. Mary Shelley mandou um beijo.

O Conde é, literalmente, um limão siciliano (ou um limão, se você tomou vinho verde ou cachipembe ao invés de caipirinha) e, como tal, tem uma personalidade azeda, irritante e cruel com os demais. Ele não entende e não respeita o jeito doce de ser e é incapaz de conceber o mundo como um local agradável e açucarado. Em função disso, ele é banido do Reino Doce e tem de governar seu próprio reino, o Condado de Lemongrab. Em pouco tempo, a maneira atroz dele governar deixa condado parecido com Leningrado sob o cerco nazista e todos seus habitantes morrem.

Após esse desastre, o Conde retorna ao Reino Doce e pede à Princesa Jujuba que lhe forneça mais colonos. Irritada, ela diz que não consegue entender porque ele arruína tudo e não se dá bem com ninguém. Nesse momento, Lemongrab surta, se joga de uma torre, arranca suas roupas e começa gritar que: “Ninguém me entende… eu sou sozinho e você me fez desse maneira. Você me fez! Você me fez! Você… é… meu Deus. Você é meu Deus!” Aqui, é importante parar e mencionar que, na versão original em inglês, ele diz “You’re my glob!”. “Glob” – assim como “bleu”, ao invés de “Dieu”, em francês – é uma maneira de se evitar dizer “God”, para que a linguagem do desenho fique mais infantil. Isso fornece uma ambiguidade poética ao discurso de Lemongrab e uma negação plausível para que se possa dizer que não se estava tentando discutir o papel do Deus criador num desenho animado feito para crianças.

E Elohim criou Adão, 1795. William Blake.

E Elohim criou Adão, 1795. William Blake.

Ao longo desse episódio, a questão fica ainda ainda mais complicada. O Conde de Lemongrab diz que, olhando no coração-limão que ele recebeu de sua criadora, ele sente que as coisas que ele faz não podem ser erradas. Ele também passa a questionar se o modo limão de ser não poderia, quem sabe, ser melhor que o modo doce de ser. A Princesa Jujuba diz que pode ajudar Lemongrab a parar com esse comportamento e, já sem paciência, o Conde retruca que: “Foi você quem me fez assim! Como você poderia me ajudar?“.

E, se de fato, o ser humano é criado perfeito, como é possível, então, que os instintos humanos que sentimos, como impulsos de reprodução e de violência, que têm origem em nossa condição humana, possam nos enganar ou possam estar errados? Se o ser humano é criado de maneira perfeita, então seus desejos sombrios e malvados não são, por ende, perfeitos? Pois seria um atentado à lógica assumir que, do perfeito, se criaria o imperfeito e vice-versa. E a questão do papel de Deus no aperfeiçoamento do homem também é problematizada no episódio. Se  Deus criou o homem de maneira imperfeita, como Ele mesmo seria capaz de consertá-lo? Ou Ele é impotente  e não consegue criar um homem perfeito, ou não é benevolente, pois cria um homem, mesmo sabendo que  ele sofrerá com a sua capacidade de ser mal. Diante disso, como Lemongrab diz, o homem ficaria melhor sem Deus, pois ele não pode ou não quer consertar a humanidade e, agora, o ser humano deve entender que ele estará sozinho e sem respostas no mundo.

Esse episódio de Hora da Aventura não acaba em tons tão sombrios, porém. A Princesa Jujuba decide clonar o Conde e, dando-lhe um igual, ele fica satisfeito em morar em Lemongrab. Bem, alguns episódios depois, as coisas dão errado de novo e, depois que o próprio Conde tenta criar pessoas-limão para o seu reino, a princesa realiza uma lobotomia nele. Mas isso ficará para outro post.

Depois de ver esse episódio umas três vezes, e temendo  que meus colegas intelectuais me retirassem o direito de usar boina e cachimbo, achei que compensaria essa gafe de assistir um desenho animado indo à ópera. Para minha redenção, dá-se o fato que, sob John Neschling, o Theatro Municipal de São Paulo está exibindo Otello de Giuseppe Verdi. Todo mundo sabe que Otello vale o dobro de pontos intelectuais, porque, tipo, é Giuseppe Verdi e Shakespeare juntos.

Bem, logo no começo do segundo ato, quando o tenor Gregory Kunde começou a cantar a aria “Credo in un Dio crudel” (Creio em um Deus cruel), não consegui tirar os gritos de Lemongrab da cabeça:

Creio em um Deus cruel

Vá embora! A tua meta eu já vejo
Te impulsiona o teu demônio
E o teu demônio sou eu,
E me arrasta o meu,
No qual eu creio
Inexorável Deus:

Creio em um Deus cruel
Que me criou semelhante a si
E que, na ira, eu nomeio.
Da vileza de um gérmen
Ou de um átomo vil eu nasci.
Sou perverso porque sou homem
E sinto a lama originária em mim.
Sim! Esta é a minha fé!
Creio com firme coração,
Assim com a crê a viuvazinha na igreja,
Que o mal que eu penso
Que de mim procede
Pelo meu destino eu cumpro.
Creio que o justo é um ator que tira sarro
Com seu rosto e seu coração;
Que tudo nele é mentiroso,
Lágrima, beijo, olhar,
Sacrifício e honra.
E creio [que] o homem [seja um] jogo de iníqua sorte
Do gérmen ao berço,
Ao verme e à sepultura.
Vem, depois de toda essa zombaria, a Morte.
E depois?… E depois?
A Morte é o o Nada.
Histórias de velhinhas é o Céu.

Aparentemente, somos isso mesmo. Por inclinação natural ou vocação adquirida, que seja, somos maus…

E, bem, de volta em casa, trancado no quarto e com fones de ouvido, coloquei mais alguns episódios de Hora da Aventura. Nele, Marceline a Rainha-Vampira – uma personagem que afirma que, após ter vivido mais de mil anos, qualquer código de moralidade perdeu sentido para ela – conversa sobre o que é certo e errado com a Princesa Caroço. A Princesa lhe pergunta se ter feito uma série de ações ruins a torna numa pessoa má. Marceline responde? “Hm… provavelmente não. Eu não acho que existam pessoas ruins. Eu acho que pessoas boas fazem coisas ruins às vezes e que, ah, isso é ruim.” Bem, então não precisamos ficar desconsolados.

TL;DR: Tudo bem assistir desenho se você for à opera de vez em quando. E tudo bem vacilar de vez em quando.

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“Sou rico, branco e lindo e faço o que eu quero.”

Há várias maneiras de se definir liberdade. Além da definição de dicionário – como “agir de maneira desimpedida”, podemos utilizar conceitos filosóficos e sociológicos para esse propósito.

Podemos nos inspirara em Sartre e dizer que somos condenados à liberdade de escolha e que, portanto, não podemos não ser livres e não temos como fugir de nossa liberdade. Ou podemos voltar alguns milênios e encontrarmos Diógenes de Sinope, o filósofo Cínico da Grécia antiga. Ele acreditava que a verdadeira liberdade consistia em viver acima e além das mesquinhezas da sociedade, como um punk, desprezava todas as normas, convenções e bens materiais da tidos em estima pela sociedade que, aos seus olhos, não cumpriam nenhum propósito se não o de corromper e escravizar o espírito humano. E, de fato, além de desprezar os poderosos, como Alexandre Magno, ele vivia num barril, comia restos de comida e, como um cachorro (“cínico” significa “canino” em grego) ele fazia os números 1, 2 e 3 nas ruas, ou seja, ele urinava, defecava e masturbava-se no ágora. lol

Mas, nada disso!, eu fui ao cinema assistir “50 Tons de Cinza” e, então, fui  introduzido a um conceito de liberdade inteiramente inovador e que me agradou muito mais que as chatices desses velhos comunistas esquizofrênicos: ser livre é ser rico, branco e lindo para que se possar fazer o que quiser. Explico-me.

Comumente, os conceitos de liberdade pressupõem ou algum grau de independência dos valores vigentes na sociedade ou alguma forma de respeito à identidade alheia, como afirmar que a minha liberdade termina lá onde começa a de outrem. “50 Tons de Cinza”, porém, atropela essas conceitos antiguados. Se eu sou branco, rico e lindo e, portanto, atendo às expectativas mais exigentes da sociedade, então eu posso vencer a liberdade dos outros e nada mais me limita. Isso porque – se o leitor viveu os últimos anos como ermitão e não sabe sobre o que tratam esse filme o livro que o originou, saiba que seu enredo será revelado – Christian Grey, o protagonista, compra conquista o corpo coração de Ana Steele unicamente pelo fato dele ser rico, branco e lindo. Nem estou exagerando, o filme é ruim nesse nível.

Não há cortejo, não há diálogos interessantes, não há explosão química de personalidades, não há cenas românticas antiguadas alla Errol Flynn. Na verdade, não há qualquer explicação ao fato de que Ana Steele se apaixona por Christian Grey. Por um acaso, ela entra em seu escritório, observa seus atributos de carteira, pele e rosto e SHAZAM! está apaixonada. Para mim, esse “detalhe” foi a a parte mais problemática da narrativa inteira de “50 Tons de Cinza”: sem qualquer desenvolvimento narrativo ou explicação razoável, como um acidente natural, Ana se apaixona genuinamente e perdidamente por Christian. E o expectador que se conforme ou que teça na sua cabeça alguma narrativa que coloque as coisas no lugar.

Ora, a mensagem disso tudo é bem clara: mulheres são naturalmente e irreparavelmente dadas à hipergamia e os homens não tem culpa (ou alternativa) se não a de aproveitar dessa inclinação natural feminina. Como recompensa por prover caverna, caça e fogo, o homem pode fornicar, ou deixar de fornicar, e bater na sua mulher. O próprio ato sexual bilateral com a mulher, nesse filme, é reduzido e definido a um contrato impresso que, com algumas cessões de misericórdia à mulher, torna Ana no butim de guerra de Christian. Até nunca mais Anaïs Nin, adeus Simone de Beauvoir.

Num auto-exame de sobriedade, ponderei que o fato de que esse fanfic da série Crepúsculo romance foi escrito por uma mulher e que ele esteja fazendo um estrondoso sucesso entre o público feminino deveriam significar que, na verdade, não há nada de errado em seu enredo e que estou distorcendo as coisas. Eu bem que gostaria que fosse assim, mas acredito que a questão aqui seja mais primordial. O que se vê no filme é que ser branco, rinco e lindo, além de perdoar defeitos de personalidade que não seriam perdoáveis em gente pobre, feia e de outras etnias, dá direito absoluto sobre uma mulher.

O que desprende disso é uma inversão completa de todas as noções de liberdade que os filósofos e teólogos discutiram durante décadas. Ser livre é dominar, seja o corpo de uma mulher virgem ou os pobres de uma cidade. Ser livre é exercer poder sobre os demais e ter cada um de seus caprichos atendidos sem nenhuma consequência. Ser livre, portanto, é render-se aos piores instintos, inseguranças e preconceitos que provêm do âmago de seu ser e também do consenso dos fatos sociais. Relembrando esta postagem de 2013, ser livre, como se vê nesse filme, em suma, é ser um estúpido e amar é comprar e ser comprado.

O Triunfo da Riqueza, de Hans Holbein, o Jovem. (1532-1534).

O Triunfo da Riqueza, de Hans Holbein, o Jovem. (1532-1534)

E, do outro lado da narrativa, ser amado é nada mais que acovardar-se diante dos poderosos e tornar-se seu objeto sexual e sua posse bem guardada, ou melhor, bem isolada. Diferentemente do conceito de amor romântico, ou, até mesmo, do amor cavalheiresco medieval, a função da pessoa amada é a de estar em reclusão perpétua, esperando a vinda do amante poderoso, para que se possa satisfazê-lo. Em outras palavras, amor nesse filme é síndrome de Estocolmo, que responde à pergunta secular de Camões: “Mas como causar pode o seu favor/ Nos mortaes corações conformidade, /Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?” com um “porque eu sou poderoso”.

innocence-preferring-love-to-wealth-1804

Inocência preferindo Amor à Riqueza, de Pierre-Paul Prud’hon (1804)

E, apesar de tudo, sou da opinião de que vale muito a pena assistir esse filme. Isso porque a forma grotesca como ele exalta tudo aquilo que durante séculos intelectuais, pensadores e artistas tentaram denunciar é a melhor forma de se entender a necessidade da resistência artística, do questionamento intelectual e da denúncia social. Nesse sentido, paradoxalmente, esse “50 Tons de Cinza”, de maneira inadvertida, argumenta melhor que Sartre e Diógenes. Ah, e também rola peitinho.

TL;DR: Você pode fazer e ser tudo o que você quiser. Só lembre-se de nascer da maneira correta e ter um cartão de crédito platinum.