“Sou rico, branco e lindo e faço o que eu quero.”

por desapiero

Há várias maneiras de se definir liberdade. Além da definição de dicionário – como “agir de maneira desimpedida”, podemos utilizar conceitos filosóficos e sociológicos para esse propósito.

Podemos nos inspirara em Sartre e dizer que somos condenados à liberdade de escolha e que, portanto, não podemos não ser livres e não temos como fugir de nossa liberdade. Ou podemos voltar alguns milênios e encontrarmos Diógenes de Sinope, o filósofo Cínico da Grécia antiga. Ele acreditava que a verdadeira liberdade consistia em viver acima e além das mesquinhezas da sociedade, como um punk, desprezava todas as normas, convenções e bens materiais da tidos em estima pela sociedade que, aos seus olhos, não cumpriam nenhum propósito se não o de corromper e escravizar o espírito humano. E, de fato, além de desprezar os poderosos, como Alexandre Magno, ele vivia num barril, comia restos de comida e, como um cachorro (“cínico” significa “canino” em grego) ele fazia os números 1, 2 e 3 nas ruas, ou seja, ele urinava, defecava e masturbava-se no ágora. lol

Mas, nada disso!, eu fui ao cinema assistir “50 Tons de Cinza” e, então, fui  introduzido a um conceito de liberdade inteiramente inovador e que me agradou muito mais que as chatices desses velhos comunistas esquizofrênicos: ser livre é ser rico, branco e lindo para que se possar fazer o que quiser. Explico-me.

Comumente, os conceitos de liberdade pressupõem ou algum grau de independência dos valores vigentes na sociedade ou alguma forma de respeito à identidade alheia, como afirmar que a minha liberdade termina lá onde começa a de outrem. “50 Tons de Cinza”, porém, atropela essas conceitos antiguados. Se eu sou branco, rico e lindo e, portanto, atendo às expectativas mais exigentes da sociedade, então eu posso vencer a liberdade dos outros e nada mais me limita. Isso porque – se o leitor viveu os últimos anos como ermitão e não sabe sobre o que tratam esse filme o livro que o originou, saiba que seu enredo será revelado – Christian Grey, o protagonista, compra conquista o corpo coração de Ana Steele unicamente pelo fato dele ser rico, branco e lindo. Nem estou exagerando, o filme é ruim nesse nível.

Não há cortejo, não há diálogos interessantes, não há explosão química de personalidades, não há cenas românticas antiguadas alla Errol Flynn. Na verdade, não há qualquer explicação ao fato de que Ana Steele se apaixona por Christian Grey. Por um acaso, ela entra em seu escritório, observa seus atributos de carteira, pele e rosto e SHAZAM! está apaixonada. Para mim, esse “detalhe” foi a a parte mais problemática da narrativa inteira de “50 Tons de Cinza”: sem qualquer desenvolvimento narrativo ou explicação razoável, como um acidente natural, Ana se apaixona genuinamente e perdidamente por Christian. E o expectador que se conforme ou que teça na sua cabeça alguma narrativa que coloque as coisas no lugar.

Ora, a mensagem disso tudo é bem clara: mulheres são naturalmente e irreparavelmente dadas à hipergamia e os homens não tem culpa (ou alternativa) se não a de aproveitar dessa inclinação natural feminina. Como recompensa por prover caverna, caça e fogo, o homem pode fornicar, ou deixar de fornicar, e bater na sua mulher. O próprio ato sexual bilateral com a mulher, nesse filme, é reduzido e definido a um contrato impresso que, com algumas cessões de misericórdia à mulher, torna Ana no butim de guerra de Christian. Até nunca mais Anaïs Nin, adeus Simone de Beauvoir.

Num auto-exame de sobriedade, ponderei que o fato de que esse fanfic da série Crepúsculo romance foi escrito por uma mulher e que ele esteja fazendo um estrondoso sucesso entre o público feminino deveriam significar que, na verdade, não há nada de errado em seu enredo e que estou distorcendo as coisas. Eu bem que gostaria que fosse assim, mas acredito que a questão aqui seja mais primordial. O que se vê no filme é que ser branco, rinco e lindo, além de perdoar defeitos de personalidade que não seriam perdoáveis em gente pobre, feia e de outras etnias, dá direito absoluto sobre uma mulher.

O que desprende disso é uma inversão completa de todas as noções de liberdade que os filósofos e teólogos discutiram durante décadas. Ser livre é dominar, seja o corpo de uma mulher virgem ou os pobres de uma cidade. Ser livre é exercer poder sobre os demais e ter cada um de seus caprichos atendidos sem nenhuma consequência. Ser livre, portanto, é render-se aos piores instintos, inseguranças e preconceitos que provêm do âmago de seu ser e também do consenso dos fatos sociais. Relembrando esta postagem de 2013, ser livre, como se vê nesse filme, em suma, é ser um estúpido e amar é comprar e ser comprado.

O Triunfo da Riqueza, de Hans Holbein, o Jovem. (1532-1534).

O Triunfo da Riqueza, de Hans Holbein, o Jovem. (1532-1534)

E, do outro lado da narrativa, ser amado é nada mais que acovardar-se diante dos poderosos e tornar-se seu objeto sexual e sua posse bem guardada, ou melhor, bem isolada. Diferentemente do conceito de amor romântico, ou, até mesmo, do amor cavalheiresco medieval, a função da pessoa amada é a de estar em reclusão perpétua, esperando a vinda do amante poderoso, para que se possa satisfazê-lo. Em outras palavras, amor nesse filme é síndrome de Estocolmo, que responde à pergunta secular de Camões: “Mas como causar pode o seu favor/ Nos mortaes corações conformidade, /Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?” com um “porque eu sou poderoso”.

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Inocência preferindo Amor à Riqueza, de Pierre-Paul Prud’hon (1804)

E, apesar de tudo, sou da opinião de que vale muito a pena assistir esse filme. Isso porque a forma grotesca como ele exalta tudo aquilo que durante séculos intelectuais, pensadores e artistas tentaram denunciar é a melhor forma de se entender a necessidade da resistência artística, do questionamento intelectual e da denúncia social. Nesse sentido, paradoxalmente, esse “50 Tons de Cinza”, de maneira inadvertida, argumenta melhor que Sartre e Diógenes. Ah, e também rola peitinho.

TL;DR: Você pode fazer e ser tudo o que você quiser. Só lembre-se de nascer da maneira correta e ter um cartão de crédito platinum.

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