Pelo Direito à Blasfêmia.

por desapiero

Atenção, leitor: este artigo sofre de síndrome de Tourette!

No final de semana passado, um evento dedicado a promover desenhos do profeta Maomé, a figura religiosa central do islamismo, foi realizado em Garland, nos EUA. Durante o evento, dois extremistas muçulmanos armados chegaram ao local e abriram fogo, tentando matar um guarda desarmado, mas foram mortos pela polícia logo depois (Counter Terrorists win). Esse foi o terceiro ataque de extremistas muçulmanos especificamente destinados a combater a blasfêmia no mundo ocidental desde janeiro.

Há muitas vozes dizendo que eventos como esse são uma provocação gratuita e que nós, ocidentais, não temos o direito de ofender a religião de outrem (o Irã tem o direito, por outro lado, de fazer competições de caricaturas do Holocausto). Bem, a despeito do que as opiniões superficiais e palatáveis do senso-comum cuspam, a questão é que nós temos, sim, o direito de blasfemar gratuitamente e que esse direito foi conquistado após séculos de sacrifícios do clero e dos profanos.

Porco Deus! Lembremo-nos um pouco: durante séculos, blasfemar a cristandade não era uma questão de opinião, de boa ou má educação, mas um crime punido legalmente, inclusive, com pena de morte. Desrespeitar a religião e as figura religiosas não era uma prerrogativa do pensamento crítico ou da liberdade individual, era, simplesmente, uma heresia, uma deviação comportamental que deveria ser duramente castigada.

São Tomás de Aquino considerava que a blasfêmia era um ato pior que o homicídio, pois, se no assassinato um ser humano matava o seu igual, na blasfêmia, o ser humano direcionava sua agressividade a Deus, seu Criador e o Ser absoluto. Dante, na Divina Comédia, caminha pela mesma via: os blasfemos são pecadores que usam sua inteligência e sua vontade consciente para produzir violência contra Deus. Assim, eles são piores que assassinos e e suicidas que, respectivamente, utilizam seu intelecto e sua vontade para realizar violências contra seus iguais e seu próprio corpo. Presos no terceiro sub-círculo do sétimo círculo do Inferno, os blasfemadores sofrem, todos nus, recebendo uma chuva de fogo, como aquela que destruiu Sodoma. O único pecado que Dante considerou igual a esse era o de ser homossexual, pois, apesar de não ser uma violência direta contra Deus, era uma violência contra a ordem natural das coisas, que o Altíssimo criou. Dante explica que a punição dos blasfemos jaz em sua inabilidade de compreender a superioridade do Criador e em sua raiva impotente em tentar ofendê-Lo.Os extremistas muçulmanos, Maomé pedófilo empalado por mulheres aiúbidas menstruadas!, 700 anos depois do Sumo Poeta, acreditam que Deus possa ser ofendido por palavras bestas.

De diversas maneiras, ao longo dos séculos, o comportamento blasfemo foi severamente punido pelo cristianismo. As diversas Inquisições europeias prendiam, torturavam e matavam indivíduos que, supostamente, negavam a veracidade dos Dogmas ou que cometessem apostasia, ou seja, abandonavam a religião cristã. Também nas colônias estadunidenses as (supostas) bruxas eram enforcadas, apedrejadas e afogadas. Isso gerava muitos lols para as classes de homens branco, cristãos dominantes, mas, lá pelo século XVIII, começou a surgir o consenso de que não era uma atitude razoável matar uma pessoa por não compartilhar de sua fé. E com isso veio muita porrada.

As primeiras ideias laicas ou ateias só começaram em se materializar em larga escala com a Revolução Francesa. Cansados dos abusos da nobreza e do clero, que os Iluminados viam como exploradores do populacho, os revolucionários instauraram a Primeira República, um governo inteiramente ateu e descristianizado. Ao longo da década de 1790, o calendário foi renomeado com nomes mais racionais, uma Declaração dos Direitos dos Homens e do Cidadão foi criada e, em seu décimo artigo, defendia a liberdade de expressão, mesmo quando ela ofendesse opiniões religiosas, e, na Catedral de Nôtre-Dame, a Chama da Razão foi acendida (sérião), para lembrar que os seres humanos não se deveriam deixar atrasar pelas superstições religiosas.

charlie

“Porque o direito à blasfêmia”. Sem outra explicação.

O cúmulo, Moisés catamita atropelado por camelos encapetados!, ao meu ver, foi transformar a Catedral de Santa Genoveva, uma das maiores catedrais do cristianismo, no Panthéon, uma igreja secular dedicada à Revolução Francesa, colocando um monumento que a simboliza no lugar do altar (o lugar mais santo da igreja!), enterrando ateus como Voltaire dentro dela e, por fim, utilizando sua estrutura, com o pêndulo de Foucault, para provar que, ao contrário do que a Bíblia diz, a Terra é geoide e rotaciona. O lugar era uma catedral santa e, hoje em dia, as pessoas nem sequer são obrigadas a descobrir a cabeça para entrar no Panthéon. Isso é muito ofensivo para com os católicos. De fato, tudo isso, além de humilhar desnecessariamente os católicos, é feito para provar o quanto eles estavam errados em suas crenças. Como católico, isso me ofende profundamente e eu ficaria feliz em ver o Panthéon transformado, novamente, numa igreja. Mas, bem, isso não vai acontecer. E, quer saber, não há problema. Há outras igrejas que eu posso frequentar e minha fé não será abalada pela ação de um bando de velhos, que têm o direito de ofender, questionar e criticar minhas crenças. Muitas pessoas morreram antes de se chegar ao consenso de que é melhor poder blasfemar.

“Ah, mas as blasfêmias são ofensas gratuitas aos sentimentos religiosos das pessoas, elas são de mau gosto, elas são desnecessárias”. Sim, elas são tudo isso. Mas as pessoas podem fazê-las. Vejam o exemplo do San Culamo.

San Culamo é um grupo italiano de Porno Rock. Eles são pessoas desprezíveis e escrotas que fazem canções péssimas nas quais eles têm o único propósito de ofender o máximo possível aos demais. Uma delas é dedicada a um dos mais nobres seres humanos que viveu no século XX e começo do XXI:  São João Paulo II, o antepenúltimo papa do Vaticano.

São João Paulo II, nascido como Karol Józef Wojtyła na Polônia de 1920, é uma das pessoas mais imaculadas que viveu nos último século. Crescendo numa Europa cada vez mais anti-semita, São João Paulo II, na adolescência, era amigo de numerosas famílias judias e, inclusive, jogava futebol pelo lado hebraico na partidas entre católicos e judeus. Durante o Holocausto, ele salvou a vida de uma menina judia de 14 anos, ajudou outros judeus e escaparem da Gestapo e, como padre, se recusou a converter forçadamente um menino judeu, dizendo que ele tinha o direito de crescer e exercer sua religião.

Ao longo de sua vida como Papa, ele: visitou mais de 120 países; ajudou a derrubar o ditador haitiano Jean-Claude Duvalier; contribui à queda de Pinochet, no Chile e de Stroessner no Paraguai; denunciou o apartheid na África do Sul; foi o primeiro líder de um país a chamar o desastre de Ruanda de 1992 de “genocídio”; condenou a I e a II Guerra/Invasão do Iraque; defendeu a natureza laica dos países europeus; elogiou e incentivou o diálogo com outras religiões como o judaísmo, o islamismo, o budismo, as vertentes ortodoxas e protestantes do cristianismo e (muito importante, pois isso raramente é feito pelo líder de uma religião organizada) o animismo. Além disso, ele, em nome da Igreja Católica, pediu oficialmente e publicamente o perdão por: terem acusado Galileo Galilei; pelo envolvimento da Igreja no tráfico de escravos africanos; pela falta de ação dos católicos durante o Holocausto; pelo tratamento desigual das mulheres e pelos autos-da-fé e pelas guerras entre os católicos e os protestantes. Apesar de ter sido retrógrado em outras questões, pode-se dizer que São João Paulo II mandou bem e que o atual Santo Padre aprendeu bem com ele.

Bem, o San Culamo não vê as coisas assim. Na sua canção “Vecchio Pazzo Stronzo” (Velho Maluco Escroto), eles dizem o seguinte sobre ele:

Velho Maluco Escroto

(conversando)
-Hey, Girolamo!
-Hey, Pasquale! Deus Porco!
-Escuta, então, domingo à tarde vamos ao estádio ver o jogo do nosso time?
-Mas o que você está dizendo? Ele foi adiantado para o sábado!
-Mas como assim no sábado?
-É, no sábado. No domingo jogará outro time!
-Porco Deus!
-Cristo que vá para o Inferno!
-Caralho, eu tenho o batismo do meu sobrinho! A Madona boqueteira que vá para o Inferno!
-O batismo que vá para o inferno!
-Porco Deus! Porca Madona! Porco Deus! Porca Madona! Porco Deus &tc…
(conversando)

É um gordão
Que pesa uma tonelada
Se aproxima de janela nos domingos às 8h.

E você que fica lá embaixo
Naquela muvuca
Engole as merdas
Desse pobre cretino.

As mãos dele ficam tremendo,
Quase nem consegue ficar em pé,
Se apoia no bastão
Para não cair no chão

E fala 7 línguas [ele falava 12, na verdade]
Mas é tudo igual
Sempre a mesma pizza
De um porco hipócrita. Diga-me…

Diga-me, como caralho você faz para dizer
Que você acredita
Nesse velho
Maluco escroto.

Está no bem bom
Dentro do Vaticano,
Com mil escrotos que
Beijam a mão dele.

Colares e anéis de ouro
Que valem milhões,
Tem até um belo diamante,
Encrustado no meio dos colhões. Diga-me…

E diz merdas
Da época medieval,
Nem mesmo quando eu era criança,
Te juro, eu acreditava.

Nós estamos no ano 2000,
Ele, porém, não.
Sempre me perguntei
Mas que merda ele quer da gente?

Intolerante retrógrado
E conformista
Eu quero um Papa negro
E também comunista.

E, possivelmente,
Que não tenho 90 anos,
Nem arteriosclerose
E mais um monte de doenças. Diga-me…

Honestamente
Como você faz
Para crer num homem
Que (ele diz) nunca transou?

Ainda por cima é polaco
Com o cérebro que já virou uma papa
E que, talvez, em três anos
Ele já bate as botas.

É um velho infantilizado
Que até dá um pouco de pena
Mas, no fundo, é só um anel
De uma esquálida corrente
De padres, cardeais, bispos,
Politicantes
Corrompidos até o osso
Mas com máscaras de santo. Diga-me…

Diga-me, como caralho você faz para dizer
Que você acredita
Nesse velho
Maluco escroto.

Essa é provavelmente a canção mais ofensiva e mais injusta que eu já ouvi. Maria circuncidada numa bar mitzva xiita!, tenho vontade de colocar os membros do San Culamo num quarto e cuspir na cara deles. Mas, bem, isso seria pouco civilizado. E é aqui que eu vejo um problema sério com quem condena as pessoas por trás da exposição que eu mencionei, do jornal Charlie Hebdo, do Muhammad Sex Simulator, do Dia de Desenhar Maomé &ct.

O comportamento civilizado não consiste em jamais ofender ninguém, mas sim em ser ofendido e não reagir com violência. A liberdade de expressão não termina lá onde começam os sentimentos das outras pessoas, mas sim onde ela convoca ao ódio entre grupos. A civilização ocidental não errou e tropeçou por séculos para regredir em suas conquistas laicas e a covardia que clama por segurança é a mesma que sufoca a liberdade. Não foi para isso que pessoas como Voltaire viveram e morreram.

Piss Christ, 1987, André Serrano. É um crucifixo imerso em urina. Muitas cristão choraram sangue ao ver isso, mas ninguém foi agredido ou morto.

Piss Christ, 1987, André Serrano. É um crucifixo imerso em urina. Muitos cristãos choraram sangue ao ver isso, mas ninguém foi agredido ou morto.

Aqui surge outro problema. Como, de maneira geral, a vida no Ocidente (sobretudo para os mais abastados) melhorou constantemente ao longo dos séculos, desde a Idade Média, tem-se a noção de que, automaticamente, tudo melhora. Antigamente, havia escravidão; hoje, ela não existe. Antes, mulheres não podiam votar; agora (não na Arábia Saudita lol) elas votam. Outrora, tínhamos monarquias absolutas e ditaduras; agora nós elegemos nossos representantes. Em outros tempos, as pessoas morriam de cólera e tuberculose; hoje temos antibióticos e analgésicos. É sempre melhor nascer depois do que nascer antes, pois tudo, naturalmente, evolui para o melhor. Logo, na mesma narrativa, precisamos proibir as blasfêmias para proteger as minorias (ou maiorias!) que antes eram perseguidas. Esse é o decorrer natural do progresso da História.

Bem, nem tudo melhora automaticamente sempre. Além disso, apesar de nossos anseios de ordem, a História, uma mera invenção antropológica, não é linear, não segue um percurso, não tem fim, nem propósito. Fatos e eventos simplesmente ocorrem e, em nossa imaginação, os ordenamos e traçamos uma narrativa para eles. Por isso, não podemos passivamente observar enquanto conquistas sociais de duzentos anos são rasgadas em nome… em nome de quê? Em nome de Deus? Deus que me perdoe, (e vou orar A Flecha de Ouro para isso), mas a liberdade de expressão é sagrado e censurar é pecado mortal.

TL;DR: Seus sentimentos não estão acima da liberdade de expressão.

Edição: muitos leitores me mandaram mensagens dizendo que  se sentiram ofendidos pelas blasfêmias deste post. Convido todos que se sentiram ofendidos a clicarem neste link para que possam relaxar e encontrar um conteúdo menos ofensivo.

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