A Terra Desolada de T. S. Eliot em Mad Max

por desapiero

Universos pós-apocalípticos são cenários normais para filmes, video-games e livros hoje em dia. Há um certo consenso de que os filmes australianos Mad Max  (1979) e Mad Max 2: The Road Warrior (1981) foram os responsáveis por tornar esse tipo de cenário comum para as audiências modernas. Embora, sem dúvida, esses filmes tenham sido divisores de água nas artes, eu ainda acredito que eles, por sua vez, não teriam existido sem a poesia do nobel estadunidense Thomas S. Eliot.

Após ter observado os horrores da Primeira Guerra Mundial,  T. S. Eliot, utilizando-se de uma metáfora geográfica e climática, descreveu liricamente um mundo no qual o potencial humano de destruição deixou todos os aspectos da humanidade estéreis. Essa obra se chama “The Waste Land”, que o poeta Ivan Junqueira traduziu como “Terra Desolada”. A edição traduzida que ele fez dessa obra está esgotada no Brasil inteiro, então as traduções deste post serão do autor do blog.

The Waste Land, um poema dividido em cinco cantos, foi publicado em 1922, quando T.S Eliot estava em convalensça… convalênscia… convalescênça num hospital suíço. Além de uma crise pessoal na sua vida matrimonial, Eliot estava estressado com seu trabalho num banco e, acima de tudo, desiludido com o Ocidente, após ter observado a destruição em escala industrial da Primeira Grande Guerra, a primeira guerra total da modernidade. Assim, o tom da a obra é permeado por um cético pessimismo em relação à capacidade, e à possibilidade, de regeneração da humanidade após ela ter revelado sua habilidade de aliar engenho à destruição. A citação do poeta latino Petrônio que abre The Waste Land resume bem essa visão de mundo: nela, uma sibila – uma sacerdotisa da Grécia mítica que era capaz de prever o porvir – afirma, diante da descoberta do futuro, que ela deseja morrer.

Em suma, Eliot crê que a humanidade se esterilizou e que o futuro não reserva nenhuma possibilidade de melhora e… bem… duas décadas depois dele publicar esse poema, a humanidade deu ao mundo o fascismo, o nazismo, o stalinismo, o Holodomor, o Holocausto, o Massacre de Nanquim, Auschwitz e a Unidade 731 e, por fim, a bomba atômica. Esta última seria o testamento da humanidade, pois ela tornaria viável, pela primeira vez na História, sua completa e irrevocável extinção.

"O Triunfo da Morte" de Pieter Bruegel, o Velho, 1562. Museu do Prado, Madri.

“O Triunfo da Morte” de Pieter Bruegel, o Velho, 1562. Museu do Prado, Madri.

“The Waste Land” é um texto profundamente hermético e elitista. Os 434 versos que o compõe são um emaranhando de citações  de livros religiosos ou de obras obscuras em inglês, francês, italiano, alemão, grego, latim e sânscrito. É praticamente impossível entender o texto sem centenas de notas de rodapé e dúzias e dúzias de páginas com anotações que o explicam. Dito isso, o quinto canto, no meu entendimento, é o mais fácil de entender e, talvez por isso, o mais significativo e prazeroso de se ler. É ele que resume melhor a imagem da humanidade estéril em busca vã de salvação:

V. O QUE O TROVÃO  DISSE

(…)

Aquele que vivia agora está morto

Nós que vivíamos agora estamos morrendo

Com um pouco de paciência

Aqui não há água, mas só rocha

Rocha e nenhuma água e a estrada arenosa

O caminho serpenteando acima, por entre as montanhas

Que são as montanhas de rocha sem água

Se houvesse água, nós deveríamos parar e beber

Entre as rochas, não se pode parar ou pensar

Suor está seco e os pés na areia

Monte morto numa boca com dentes careados que não pode cuspir

Aqui não se pode estar de pé, nem deitar-se e tampouco sentar-se

Não há sequer silêncio nas montanhas

Mas o seco, estéril trovão sem chuva

Não há sequer solidão nas montanhas

Mas as faces vermelhas e inchadas que escarneiam e rugem

De portas de casas de argila rachada

Se houvesse água

E nenhum rocha

Se houvesse rocha

E também água

E água

Uma fonte

Uma poça entre as rochas

Não a cigarra

E a grama seca assobiando

Mas o som da água sobre a rocha

(…)

Mas não há água.

É precisamente esse clima que se percebe em Mad Max. Tudo é rocha e areia num campo estéril onde nada cresce: nem plantações, nem sociedades e nem relacionamentos humanos. A hostilidade da rocha é instilada no espírito humano e a única interação entre os indivíduos é, basicamente, uma medição de poder. Isso é especialmente verdadeiro em Mad Max: Estrada da Fúria, que apresenta a luta pela distribuição da água como uma metáfora dos esforços humanos de acabar com a esterilidade da guerra nuclear e recuperar a fertilidade da civilização.

De fato, no filme, o poder do vilão Immortan Joe reside no fato que ele controla a distribuição de água na sua cidade. Ele possui um clã numeroso, um exército grande, uma frota notável de veículos, muitas mulheres para a reprodução e por aí vai. No final das contas, porém, o mais importante é que ele controla o acesso à água. A água permite o renascimento da paz e da vida no mundo e, enquanto ela estiver represada, Immortan Joe é o senhor da guerra e da morte.

Há uma analogia interessante aqui entre a figura de Immortan Joe e de Jesus Cristo. Enquanto um represa a água e cobra por ela, o Cristo a oferece de graça a todos que vem buscá-la, conforme profetizado por João no Apocalipse 21:6: “Eis que está cumprido! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Àqueles que tiverem sede, eu darei gratuitamente a água da fonte da vida.” Essa analogia é aprofundada num video-game, também inspirado na obra de T. S. Eliot, chamado Fallout, mas isso ficará para uma reflexão futura.

Por enquanto, encerro esta postagem lembrando que, enquanto a coisa esquenta na Síria e no Iraque; os Estados Unidos da América e o Brasil enfrentam secas históricas; milhares de pessoas morrem devido às ondas de calor na Índia e no Paquistão a temperatura quebra recordes no Canadá, Alemanha, França e Inglaterra, a humanidade talvez precise de uma mudança de clima radical… ou talvez, pelo menos, moderada.

TL;DR: “Guerra, a guerra nunca muda.”

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