O Laranja, o Preto e o Invisível

por desapiero

Orange is the New Black é uma série de sucesso no Netflix (e você com certeza já viu todos os episódios). Baseada em fatos reais, ela narra a experiência de Piper Chapman, uma mulher branca de classe alta e educação superior, que foi parar na cadeia por um pequeno deslize da sua juventude. O pequeno deslize em questão foi ajudar a traficante internacional de drogas (e sua amante), Alexander Vause, a transportar dinheiro de drogas entre a Europa e os Estados Unidos.

O seriado é uma comédia dramática e, pelo menos na primeira temporada, boa parte das risadas e das lágrimas que ele desperta vêm da dificuldade de Piper em se adaptar à realidade de estar numa prisão, ainda que de segurança mínima. Acostumada com uma vida mimada em Boston, ela tem sérias dificuldades em lidar com a ausência de conforto, liberdade e privacidade da vida na prisão.

De detalhes pequenos, como a necessidade de se improvisar chinelos para não pegar frieira nos banheiros coletivos, até um irremediável distanciamento social, econômico, político, filosófico, religioso e linguístico entre Piper e os outros presos, tudo mostra que aquele não é o lugar dela. Tudo é estranho, inacessível e incompreensível para a loira rica de Boston e parece que o mundo dela vai desabar.

Aos poucos, porém, ela começa a compreender que suas companheiras de prisão não são pessoas tão distantes dela e que todas compartilham uma fagulha comum de humanidade. Ela enxerga que as outras presas são indivíduos com desejos, aspirações, falhas, dilemas, contradições e ambições como ela mesma. As histórias de vida das outras detentas são reveladas, de maneira individual, por flashbacks que mostram quais crimes elas cometeram no passado, e por quais razões.

De repente, a loira rica não é só um ser superior que estupidamente descendeu aos escalões da plebe profana. Ela passa a defender o interesse das outras presas pessoas (e faz questão que elas sejam vistas como indivíduos, não como fantasmas abstratos do mal) e se enxerga nelas. A cozinheira russa maluca, a homocida haitiana justiceira, as jovens traficantes negras e mexicanas, todas elas, estão no mesmo barco e são equivalentes no plano moral, ainda que não no social-econômico.

Por causa dessa delicadeza e sensibilidade de quebrar a barreira social entre os ricos e os excluídos, mostrando que todo indivíduo tem uma história digna de seriado,  a série ganhou tantos prêmios que fiquei com preguiça de contar e se tornou a série mais assistida no Netflix. Bem… só que há só um probleminha com essa ideia de se pensar nos pobres e nos esquecidos… e as vítimas do tráfico de internacional de drogas que Chapman, tanto no seriado quanto na vida real, de maneira narcisista e egoísta, condenou à morte?

Essa questão não é nem remotamente abordada no seriado, nem sequer tangencialmente mencionada. Chapman passa meses na cadeia e ela tem infinitas oportunidades para refletir sobre tudo o que ela fez na vida dela. De fato, há vários momentos, sobretudo no começo da série e quando ela está na solitária, quando ela pensa no passado e nas decisões da vida dela. Ela reflete sobre como as decisões da sua vida, anos depois, afetaram: seu relacionamento com seu noivo, sua sexualidade, sua relação com seus pais, sua relação com sua melhor amiga, sua relação com sua ex-namorada lésbica, seu trabalho, a empresa que ela tinha, o trabalho do noivo dela, suas novas amizades na cadeia, a maneira como ela vê as outras mulheres e por aí vai…

Nunca, porém, nem por um único momento, passa pela cabecinha alienada dela que o fato de que ela ajudou um traficante – que ainda por cima era um Senhor das Armas da África Ocidental – a conseguir dezenas de milhares de dólares. Essas dezenas de milhares de dólares, depois, se transformariam em armas e corrupção de oficiais que levariam nós, terceiro mundistas, a termos vidas ainda mais difíceis. O Laranja é o novo Preto, mas o Terceiro Mundo é invisível e não faz parte dos “excluídos” que são incluídos nas considerações da série. Nós somos excluídos de segundo grau, ausentes até do grupo dos que já estão marginalizados.

E, não, este autor não está sendo pedante, melodramático ou moralista. Ok, talvez esteja, mas o ponto é válido. Nós, brasileiros, sabemos o quanto o tráfico de drogas está afundando nosso país e nem sequer preciso elaborar sobre o assunto. Acima disso, porém, a ONU considera que o tráfico de drogas seja uma séria ameaça à paz mundial e, em particular, à África e ao Oriente Médio.

Em Orange is The New Black, o país exato de origem do traficante que Chapman ajuda não é mencionado, mas é seguro assumir que ele seria de nosso parceiro de colonização, a Guiné-Bissau, que se tornou um dos países africanos mais importantes para o escoamento internacional do tráfico de cocaína. Esse país é tão pobre que, até 2010, literalmente, não existiam prisões no país e a primeira que construíram sequer tinha fundos para colocar barras nas celas. É um grau de miséria e sofrimento que sequer podemos começar a compreender. Estima-se que o tráfico de cocaína seja duas vezes maior que o PIB dessa nação, então é fácil de imaginar o como é fácil corromper oficiais com dinheiro do tráfico. O fato de que Piper Chapman para que essa nação afundasse no lodo, porém, jamais pesa na consciência dela.

Traficar drogas na África Ocidental é quase tão charmoso quanto no seriado. Agence France-Presse.

Traficar drogas na África Ocidental é quase tão charmoso quanto no seriado. Agence France-Presse.

Aliás, no seriado há algmas cenas sobre o poder devastador do vício em drogas. Uma personagem, inclusive, até morre de overdose e isso é visto como uma grande tragédia. O elo entre o fato de que viciados compram drogas de traficantes e que Chapman e sua amante eram traficantes jamais é feito, porém. Ou, então, é ofuscado pelo glamour do quão chique é ser um traficante internacional de drogas, um bon vivant (se você não sabe é o que é um bon vivant, então você não é um bon vivant) que aproveita das melhores coisas da vida. Ou ele é abafado pelo som de outras preocupações importantes para a protagonista, como, por exemplo, que os pais delas são pessoas horríveis por não a aceitarem na alta sociedade de volta. Jamais, porém, ela considera se ela seria uma pessoa má e que mereceria sofrer. A grande epifania de Chapman foi descobrir que ela é igual aos outros presos, mas, na verdade, ela é pior que os demais e isso ela ainda não enxergou. Que seja.

"Eu estou aqui porque eu não sou diferente das outras pessoas aqui." Não, Piper, você só é impenitente e pior que as outras.

“Eu estou aqui porque eu não sou diferente das outras pessoas aqui.”
Não, Piper, você só é impenitente e pior que as outras.

Como as pessoas-formigas que são esmagadas pelos caprichos narcisistas da nossa companheira loira não recebem atenção, eu deixarei aqui uma contraparte: uma oração. Um poema-oração à Virgem Maria que o poeta francês Francis Jammes escreveu em 1906 e dedicou a todos os esquecidos e excluídos:

(…)

Agonia.

Pelo menininho que morre ao lado de sua mãe
Enquanto que outras ciranças se divertem no pátio;
E pelo pássaro ferido que não sabe como
Sua asa, subitamente, começa a sangrar e perde altura;
Pela a sede, a fome e o delírio ardente:
Eu te rogo, Maria.

Flagelação.

Pelos os rapazes que apanham do bêbado que volta para casa,
Pelo asno que recebe chutes na barriga,
Pela humilhação do inocente que é castigado,
Pelos filhos cujas mães foram insultadas:
Eu te rogo, Maria.

Coroação de Espinhos.

Pelo mendigo que nunca teve outra coroa
Que o vôo das vespas, amigas dos pomares amarelos,
E outro cetro que um bastão contra os cachorros;
Pelo poeta cuja cabeça sangrante é cingida
De espinhos dos desejos que ele jamais obteve:
Eu te rogo, Maria.

Carregamento da Cruz.

Pela velha que, tremendo sob peso excessivo,
Grita: “Meu Deus!”. Pelo infeliz cujos braços
Não puderam se apoiar sobre um amor humano
Como a Cruz do Filho sobre Simão de Cirene;
Pelo cavalo caído sob a carruagem que o arrasta:
Eu te rogo, Maria.

Crucificação

Pelos quatro horizontes que crucificam o Mundo,
Por todos aqueles cuja carne se desfaz ou sucumbe,
Por todos aqueles que são sem pés, por aqueles que são sem mãos,
Pelos doentes que foram operados e gemem
E pelo justo colocado ao lado dos assassinos:
Eu te rogo, Maria

(…)

TL;DR: “Na prisão, eu aprendi, tipo, que tudo mundo é igual no mundo, mas que o Terceiro Mundo não existe.”

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