O Lado Certo da História

por desapiero

Temos que tomar cuidado com a História. Há uma serie de decisões que a historiografia não perdooa e quem num momento era um herói, pelas próximas gerações, passa a ser visto como um vilão. Os jornais brasileiros, em 1945, chamaram a bomba atômica de “sensacional engenho de guerra“, mas, hoje essa certamente não é considerada a maneira apropriada para se remeter a essa arma de destruição em massa.

Há várias pessoas que nos lembram de qua História pode nos julgar de maneira severa pelos erros que cometemos. O espírito por trás dessa ideia é o de se ter coragem de lutar por aquilo que se vê como justo. Outras pessoas, porém, vêm isso noutro espírito, porém,  e acham que o julgamento historiográfico tem o propósito de ser utilizado como meio de coerção.

John Oliver é um comediante político britânico que apresenta o programa “Last Week Tonight”, exibido pela HBO e que pode ser visto pelo YouTube, comentando sobre temas políticos e sociais da atualidade. Recentemente, ele dedicou um trecho do seu programa para falar sobre direitos dos transgêneros. Peço desculpas aos meus irmãos lusófonos por não apresentar aqui uma versão traduzida, mas o trecho exibido pode ser conferido em inglês neste link da Rolling Stone.

Após exibir uma série de dificuldades pelas quais pessoas transgêneros têm que passar, ele encerra seu discurso dizendo que, em última instância, é necessário que nós nos sensibilizemos com a causa transgênera devido ao fato de que a “todos nós sabemos como isso termina. Se você não optar pelo lado dos direitos civis,  a História não será nada gentil com você.” Em seguida, ele emenda afirmando que Hollywood faz filmes, os Correios fazem selos e as cidades edificam monumentos sobre as pessoas que ficam do lado certo da História e que não defender o direito dos transgêneros não dará glória e reconhecimento aos que foram opositores. E, então, eu me pergunto: é por isso que eu devo defender os direitos dos transgêneros? Porque eu tenho medo de ser julgado pela posteridade?

Tempo Salvando a Verdade da Mentira e da Falsidade, 1737. A obra mestre que François Lemoyne completou um dia antes de se suicidar, devido a boatos e conspirações que espalharam a seu respeito na corte real francesa.

Tempo Salvando a Verdade da Mentira e da Falsidade, 1737. A obra mestre que François Lemoyne completou um dia antes de se suicidar, devido a boatos e conspirações que espalharam a seu respeito na corte real francesa.

No Brasil, eu cresci e me eduquei sob a égide dos ideais iluministas e aprendi que a Declaração Universal dos Direitos Humanos é um axioma sobre o qual podemos embasar nossa moralidade. Em função disso, eu entendo que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.” Por ende, julgar uma pessoa em função de sua identificação de gênero e sexualidade é um ato irracional e bárbaro, que atenta contra a tentativa de se construir um mundo civilizado e contribuir para a redução do sofrimento humano no mundo. Por isso, eu acredito que os direitos dos transgêneros devam ser garantidos.

Há muitos bons argumentos para eu estar do lado dos transgêneros e eu  não acredito que eu deva defender os direitos deles como uma posição estratégica que eu devo tomar para garantir que, no futuro, minha imagem seja defendida pelas novas gerações. Isso não é nem nobre moralmente e tampouco é  um argumento convincente: que me importa o que pensarão de mim quando eu já estiver morto e enterrado? E, bem mais sério e importante do que isso, com qual certeza eu posso prever as posições morais que serão adotadas no futuro?

O poeta georgiano Joseb Jughashvili, aos 23 anos de idade.

O poeta georgiano Joseb Jughashvili, aos 23 anos de idade.

Na década de 1910, um jovem e charmoso poeta georgiano chamado Joseb Jughashvili estava lutando contra a opressão do czar em diversos territórios da Rússia. Ele era um rapaz brilhante e profundamente tocado pela causa de ajudar as classes oprimidas. Um ávido leitor, ele conhecia todos os escritos e as teorias socialistas de sua época, mas também tinha a vivência e a coragem do trabalhador comum, tendo sentido na pele a dificuldade de ser um simples camponês e de arriscar sua vida em greves contra petroleiras de bilionários ocidentais em Baku, no Azerbaijão.

Movido pela necessidade de transformar a Rússia num país moderno e livre, que seria o estadarte da justiça social no mundo, ele foi para Moscou, onde pretendia angariar ajuda financeira, política e militar. Chegando lá, ele recebeu apoio de todos os estratos da sociedade, mas, em particular, em parte da aristocracia russa, cujos indivíduos iluminados acreditavam que Joseb Jughashvili transformaria  a Rússia num país do futuro. Poucos anos depois, o poeta georgiano assumiu o seu nome mais famoso: Josef Stalin. Bem, o resto é História… o lado errado dela, pelo visto.

Algumas décadas depois disso, houve outro exemplo de pessoas que jogaram os dados para tentar advinhar o lado certo da História. Em 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, como a maioria de seus contemporâneos, se lembrava muito bem dos horrores da Primeira Guerra Mundial,  e acreditava que diplomacia e desarmamento eram as opções que levariam o mundo à paz e que lhe garantiriam a gratidão dos futuros britânicos. Após assinar um acordo de não-agressão com Adolf Hitler (e sacrificar a região tcheca da Sudentenland no processo) ele retornou vitorioso à Londres e disse num discurso famoso: “Meus bons amigos, pela segunda vez na nossa história, um primeiro-ministro britânico voltou da Alemanha trazendo paz de maneira honrosa. Nós lhes agradecemos do fundo do nosso coração. Vão para casa e tenham uma boa noite de sono.” Onze meses depois, Hitler invadiu a Polônia e 76 anos depois a História ainda não lhe perdoou.

O próprio John Oliver parece não entender direito de qual lado da História ele quer ficar. Embora ele tenha defendido os direitos dos transgêneros num dos seus vídeos, em outro mais recente, ele deliberadamente (e tirando sarro disso) infringiu legislação canadense sobre boca de urno e afirmou que os canadenses deveriam votar a favor do candidato Justin Trudeau, que veio a ganhar as eleições. A sua justificativa moral para fazer isso (ou seja, seu bilhete para o lado certo da História) foi a de que Trudeau não é um islamofóbico e, de fato, uma de suas promessas de campanha (que será cumprida) foi a de cessar imediatamente as operações militares canadenses contra o Estado Islâmico na Síria.

Bem, o Estado Islâmico é radicalmente contra os direitos das mulheres (já que eles infringem a Sharia) e é conhecido por matar das maneiras mais sádicas possíveis os homossexuais. Nem sequer posso emitir a opinião deles sobe transgêneros pois o próprio conceito de uma pessoa transexual é inexistente na realidade deles. Então, como Neville Chamberlain, John Oliver quer a paz no mundo, mas ele também quer que os transgêneros possam viver em paz na Terra.

Como ele pode obter as duas posições se a realidade atual prova que elas são incompatíveis? Como ele pode estar do lado certo da História em duas posições que se eliminam mutuamente? Ou, parafraseando um discurso seu, John Oliver está confortável com a situação de que esse assunto deve ser tratado, mas não quer tomar posições concretas a respeito? Como ele pretende limpar o mundo? Quando o extremismo islâmico (espero) for contido no globo, como ele será julgado?

Eu não sei a respeito disso e acho que é complexo de mais para mim poder adivinhar o que as sociedades do futuro acharão das questões morais que me afligem. De fato, já acho difícil o suficiente convencer a outro público que eu estou vivendo no lado certo na História: a minha própria consciência.

De conselho a John Oliver, e para mim mesmo, deixo alguns versos de Joseb Jughashvili -antes dele ter se tornado Stalin- que tentam alertam sobre como as pessoas ao nosso redor podem não estar preparadas para nossas mensagens “do futuro”, mas que, certamente, dizem mais sobre nós mesmo do que sobre os outros:

À Lua
Joseb Jughashvili (1895)

Ele bateu na porta de estranhos
Indo de casa em casa
Com uma velha viola georgiana de carvalho
E uma de suas simples canções.

Mas, na sua canção, sua canção –
Pura como o próprio brilho do sol –
Ressoava uma verdade profunda,
Ressoava um sonho elevado.

Corações que haviam se tornado em pedra
Começaram a bater mais uma vez;
Em muitos, ele despertava uma mente
Que dormitava em trevas profundas.

Mas, ao invés dos louros que ele merecia,
As pessoas dessa terra
Ao pária ofereciam veneno,
Colocando um copo em sua mão.

Eles lhe diziam: “Seu desgraçado, você deve
Beber isto, enxugue o copo…
Sua canção é coisa de outro mundo para nós,
Nós preferimos viver numa mentira!”

 

TL;DR: “A História me absolverá.” Fidel Castro, 1953.

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