Os deuses da História

por desapiero

Carlos Latuff é  um ilustrador anti-semita carioca. Ele ficou famoso por  ganhar o segundo lugar no Concurso Internacional de Caricaturas sobre o Holocausto em 2006 – um evento promovido no Irã com o intuito de satirizar e negar a realidade do genocídio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial – e, de vez em quando, ele vai defecar suas fezes morais na internet. Além de fazer uma versão palestina do Che Guevara , sob protestos da família do argentino, ele decidiu dar sua opinião iluminada acerca dos ataques terroristas que ocorrem em Paris na semana passada. E sobre ele, mais não nos ocupemos, a charge abaixo, peço que só olhem e passem.

Do mesmo cartunista que aceitou USD 4 mil como prêmio por negar o Holocausto.

Do mesmo cartunista que aceitou USD 4 mil como prêmio por negar o Holocausto.

A charge sugere a noção de que os atentados terroristas na França são uma consequência natural e direta da política externa francesa. Fiquei irritado ao ver essa caricatura, mas sei que Latuff não deve ser levado à sério. O que me chocou, de verdade, porém, foi ouvir o coro de pessoas que acreditam que, de fato, a França está colhendo os frutos de suas decisões político-militares ou afirmando que, em última instância, o caos no qual hoje o Oriente Médio está imerso é uma consequência das ações dos países do Ocidente, ou, como afirmou nosso ex-presidento (o de 9 dedos, não o ateu maconheiro), dos “brancos de olhos azuis”. Fiquei perplexo com essa afirmação. Se isso for mesmo verdade, todos nós, ocidentais, temos a obrigação moral de nos desculpar e de ajudar a remediar a situação. Tentei me lembrar então da razão pela qual os franceses começaram a intervir militarmente contra o Estado Islâmico.

Voltemos a agosto de 2014. O Estado Islâmico declarou sua intenção de transformar a Terra num califado islâmico e estava avançando suas conquistas na Síria e no Iraque. Neste último país, 250 mil iazidis – uma minoria curda que segue uma religião oriunda do Zoroastrismo – estavam sob o risco de serem exterminadas pelos terroristas islâmicos. Em poucos dias, 200 mil iazidis conseguiram escapar antes que o EI chegasse, mas 50 mil deles foram encurralados no monte Sinjar. Começou então um cerco e os 50 mil iazidis, sem água, alimentos e armas, estavam diante de um risco real e iminente de genocídio.

Neste momento, a mídia internacional começou a realizar forte pressão para que alguém – qualquer pessoa – interviesse para evitar um genocídio transmitido ao vivo pelo Twitter oficial do Estado Islâmico. Foi aí, então, que Barack Obama anunciou que os Estados Unidos da América começariam uma intervenção militar na região. Graças à intervenção americana (e de seus alidos), na forma de ataques aéreos contra os jihadistas e envio de água e de comida aos curdos cercados, 45 mil iazidis saíram vivos desse cerco. Um mês depois, François Hollande, o presidente francês, anunciou o início da Operação Chammal, a intervenção militar francesa – limitadas a bombardeios aéreos – na região. O Estado Islâmico declarou sábado passado que foi em resposta à Operação Chammal que 129 civis foram massacrados em Paris.

Então, devo acreditar que é culpa dos franceses que isso aconteceu? Eles deveriam ter se omitido de evitar o genocídio de 50 mil iazidis para salvar a vida de seus cidadãos? Fora o Latuff, ninguém acredita nisso. O que ouvi de intelectuais e da plebe profana em geral, é que, de maneira ampliada e numa escala maior das coisas, o Ocidente tem causado caos e desestabilização no Oriente-Médio e que, nesse sentido, é culpa dos brancos de olhos azuis que o Estado Islâmico esteja matando pessoas em Paris. (Essa posição não explica por qual razão o Al-Shabaab, aliados oficiais do Estado Islâmico, matou 147 pesssoas numa universidade no Quênia, um país que não realiza ataques contra o EI, mas vamos fingir que isto não conta.)

Bem, o argumento é que, durante o século XIX e o começo do século XX, potências europeias colonizaram porções da África e do Oriente Médio e que é culpa dessa colonização que esses países hoje são subdesenvolvidos e que eles vivem em guerra (os efeitos do império otomano, que dominou a região de 1299 até 1923 podem ser ignorados, pois eles não são ocidentais). Logo, qualquer desdobramento histórico na região, não importa o quão distante no tempo e na ideologia do Ocidente, são resultados das ações dos homens brancos e de olhos azuis. Os atuais habitantes do Oriente Médio e o Estado Islâmico, em última instância, não têm culpa pelas ações que eles estão cometendo, pois elas são consequência das condições nas quais os homens brancos os deixaram.

Para citar outros exemplos paralelos, o Haiti se tornou um país independente em 1804, mas, até hoje, mais de 200 anos depois de sua independência, o Governo haitiano formamelmente culpa a França por seus problemas sociais e econômicos e demanda compensações pecuniárias. O autor uruguaio Eduardo Galeno escreveu um livro chamado “Veias Abertas da América Latina”, no qual basicamente afirmava que os males do nosso continente são resultados das ações dos espanhóis, portugueses e anglófonos; ele mesmo reconheceu que suas teorias estavam erradas, mas o consenso dos nossos intelectuais é que, sim, é a culpa é dos brancos. Por fim, a escravidão e o comércio de escravos era algo perfeitamente comum e um comércio muito lucrativo para os árabes: milhões de eslavos brancos (os famosos saqalibas) e bantus negros foram escravizados para a elite otomana e, décadas depois da Lei Áurea, isso ainda era visto como algo comum por lá. A posição do imaginário popular e de elite intelectual, porém, é de que a escravidão é uma tragédia pela qual os brancos são responsáveis.

Em suma, independente da base historiográfica por trás de qualquer fato histórico, alguém sempre poderá rastrear a responsabilidade de acontecimentos negativos na História para grupos ou países ocidentais e brancos. E, igualmente, qualquer acontecimento negativo que está acontecendo ou acontecerá no futuro será considerado como culpa do Ocidente. Sendo eu ocidental, eu deveria chorar diante disso, mas, na verdade, eu percebi que isso significa algo muito mais macabro. A culpa de tragédias e, em suma, da maldade do ser humano acaba sendo, em última instância, atribuída aos brancos ocidentais.

Num outro post, eu tinha comentado sobre como o Ocidente havia realizado o monopólio do mal. Neste post, eu apresento a contraparte. Em contraposição ao homem ocidental, que pode ser responsabilizado pelas suas falhas, o restante da humanidade hoje vive num estado de perene menoridade e inimputabilidade moral. Os dois pesos e duas medidas dos nossos intelectuais permitem que os “brancos de olhos azuis” sejam censurados pelo o resultado de seu livre arbítrio, mas o restante da humanidade, como disse o Cristo na cruz, “não sabe o que faz”. E o que significa ser ocidental diante dessa disparidade? Ora, significa ser os deuses da História.

Newton, de William Blake (1805). Ou, um homem ocidental pego num momento de arquitetação do mundo. Sei lá.

Newton, de William Blake (1805). Ou, um homem ocidental pego num momento de arquitetação do mundo. Sei lá.

De fato, seja por nossa intervenção divina direta ou como resultado direto das ações do Ocidente, qualquer fato histórico dos últimos séculos é rastreável para nós. Nós, os ocidentais, espalhamos com raiva nossas sete pragas pelo mundo, ou, então, como o “deus relojoeiro” que somos, manufaturamos as condições e as regras dentro das quais as outras pessoas, nossa criação, vivem. Nada escapa à nossa ação e ninguém é livre – e, portanto, responsável – fora nós.

Como eu poderia acreditar numa coisa dessas? Os nossos intelectuais, em delírio ardente, podem estar oscilando entre essa culpa lancinante e um princípio de Síndrome de Estocolmo, mas eu prefiro aceitar que os outros, que os diferentes de mim são, de fato, iguais a mim, tanto na bondade  quanto na maldade. Reconheço que o Ocidente pecou muito, mas também acho que as demais nações do mundo são livres, dignas e podem ser responsabilizadas por seus atos. Essas flechas já saíram de nossos arcos e, então, antes que o resto do Levante seja consumido pela loucura que o Ocidente tem medo de criticar, citarei as palavras d’O Profeta:

Sobre os Filhos
Gibran Kahlil Gibran (1923)

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

TL;DR: Sabe quem é responsável e culpado pelos ataques terroristas em Paris? Salafitas intolerantes que estão putos com a vida.

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