O “ódio do bem” de Quentin Tarantino

por desapiero

Quentin Tarantino é um diretor de cinema conhecido por criar filmes de ação muito violentos (mas não ultraviolentos), frases de impacto, diálogos cheios de tensão e por não regular na hora de espalhar sangue. O seu filme mais recente, “Os Oito Odiados”, está nos cinemas agora, então eu vou me aproveitar disso para falar sobre ele no blog e ganhar mais acessos. e ser alguém alinhado com as tendências.

De acordo com nenhum crítico de cinema e meu próprio achismo, é possível dividir a produção cinematográfica de Tarantino em duas partes: os filmes que ele dirigiu entre 1992 e 2007, ou seja, de “Cães de Aluguel” até “À Prova de Morte” e os que foram dirigidos a partir de 2009, a saber, “Bastardos Inglórios”, “Django Livre” e “Os Oito Odiados”. Os filmes do primeiro grupo estão centrados numa temática de violência urbana, crime organizado e vingança pessoal.

Seus filmes mais recentes, por outro lado,  tem uma tema recorrente: personagens que pertences a minorias oprimidas realizam uma jornada de vingança contra seus opressores. Longe disso ser uma coincidência, Quentin Tarantino deixa clara sua intenção de difundir uma mensagem de justiça social.

O que me parece surpreendente nos seus filmes, porém, é que  eles assumem uma postura de moralidade que está alicerçada na noção de que a vingança entre grupos e o ódio ilimitado contra grupos sociais opressores são uma forma de compensar as crueldades da História. E é aí que eu entendo que seu discurso entra em curto-circuito . Explico-me.

Em “Bastardos Inglórios”, ambientado na Segunda Guerra Mundial, um grupo de soldados judeus americanos é enviado numa missão especial para tentar matar Adolf Hitler. Sem me delongar em detalhes do filme, o que acontece nele é, basicamente, soldados judeus se vingando dos nazistas e de Hitler da maneira mais violenta possível, inclusive, metralhando à queima-roupa o rosto do líder nazista até que ele se desintegre e, depois, tocando fogo nele.

Omar_shoots_Francesca_with_an_MP40

“Ratatatatata se não sou nazista, não há problema ratatata”

A mensagem clara por trás disso é que os judeus, por terem sido perseguidos pelos nazistas, têm o direito de aplicar a mesma violência que eles receberam de volta aos seus opressores. Isso ajustaria a balança da História e traria equilíbrio ao mundo. O ódio do mal dos nazistas se paga e se limpa com o ódio do bem dos judeus.

Para coroar essa noção, na cena final desse filme, um oficial da SS nazista consegue fechar um acordo com o exército americano e, em troca de informações, ele sairia da Alemanha sem pagar por seus crimes. Para evitar isso, um dos soldados judeus americanos -protagonizado pelo Brad Pitt lol- desenha uma suástica com uma faca no seu rosto. Assim, o resto do mundo poderá, para sempre, saber que ele foi um nazista e que ele dever ser odiado. Bem, o que faltou levar em consideração aí é que, se todas pessoas que colaboraram com o nazismo merecem ter uma suástica cravada em seus rostos, faltarão facas no mundo.

O nazismo não aconteceu porque, um dia, o mal (ou o anticristo) encarnou-se em Adolf Hitler e a Alemanha entrou em delírio. Não. O nazismo foi o resultado de um lento processo histórico que levou décadas para se completar e que teve apoio de grupos políticos ao redor do planeta inteiro. Ao longo dos anos, várias nações, grupos políticos e indivíduos tiveram a oportunidade de deter Hitler, mas, por interesse ou por ignorância, não o fizeram.

O Reino Unido poderia ter forçado os nazistas a interromperem sua ascenção nos primeiros anos do Terceiro Reich, mas, ao invés disso, firmaram o Tratado de Munique com eles. A União Soviética teve a oportunidade de destuir Alemanha nazista na década de 1930 e, no entanto, eles firmaram o Pacto Molotov-Ribbentrop, que determinava uma situação de não-agressão entre as duas potências. O Japão imperial de Hirohito forneceu um apoio militar inestimável  para os alemães e a Itália fascista, apesar de não ser uma potência militar na época, prestou a importante função de proteger a Alemanha de uma invasão pelo Mediterrâneo.

E a lista não pára por aí. Na Croácia, a milícia Ustaša colaborou militarmente com os nazistas. Assim como a Legião Azul da Espanha, a Legião Tigre da Índia, e até mesmo a Legião Livre Arábica, que trouxe soldados voluntários do Oriente Médio e do Norte da África e os colocou ao serviço de Hitler.

E nós, os tupiniquins, fomos essenciais em permitir a ascenção do nazismo. No livro “1942 – O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida” João Barone (sim, o baterista do Paralamas do Sucesso) explica que, antes do Brasil e a Alemanha estarem em estado de guerra, nós fornecemos mais da metade do látex que se transformou em pneus para os veículos nazistas. Foi graças ao Brasil, portanto, que as tropas alemãs puderem ter pneus para se movimentarem pela Europa e África do Norte.  Nós até tínhamos um jornal nazista chamado Deutscher Morgen (“Aurora Alemã”) que era impresso na Mooca, em São Paulo. São muitos rostos para se esfaquear, não é?

Enchção de saco à parte, o problema mais sério com o ódio “do bem” que Tarantino promove em “Bastardos Inglórios” e em seus outros filmes mais recentes é a miopia que ele traz em enxergar a complexidade do mal.

Quando um grupo recebe ódio ou é culpabilizado em excesso, isso provavelmente significa que outros grupos estão saindo com uma parcela menor de culpa do que  eles mereceriam. Enquanto os holofotes e as câmeras estão focados no rosto de Adolf Hitler sendo metralhado, outras pessoas que contribuíram com o nazismo passam pelas sombras. E o nosso senso crítico morre um pouco também.

E há também um segundo problema na tentativa de Tarantino de equilibrar a História pelo ódio. O que acontece quando minorias ou outros grupos oprimidos deixam de estar por baixo e assumem o poder? Eles perdem o direito de odiar, ou só o transferem para baixo? Os judeus, por exemplo, quase foram exterminados completamente na Shoá, o maior genocídio da História. Hoje, porém, os judeus não são mais perseguidos por um estado e, em Israel, esse papel agora passou para os palestinos que vivem na Gaza ocupada. Quentin Tarantino, para balancear isso, fará os Bastardos Inglórios 2 matarem Israel Sharon?

Ou, falando sobre escravidão – um tema importante nos filmes “Django Livre” e “Os Oito Odiados” – ele fará algum filme no qual os saqalibas eslavos matam seus escravizadores árabes? Ou algum filme ambientado na Turquia no qual os janízaros gregos tacarão fogo na casa de seus escravizadores turcos? De quanto ódio do bem Tarantino precisará para consertar a História? E será que ele terá a sabedoria necessária par conseguir odiar a todos com igualdade?

Enquanto aprendemos a odiar para o bem da humanidade, deixo abaixo uma excerto da carta de adeus que o outrora ditador iraquiano Saddam Hussein, alguém que odiou bastante (xiitas e curdos, em particular), escreveu antes de ser executado. Por ter sido um campeão do ódio, talvez ele possa nos ensinar a odiar mais:

“Eu vos clamo para não odiar, pois o ódio não deixa espaço para uma pessoa ser justa e ele vos torna cego e fecha todas as portas do pensamento. Eu também vos clamo para não odiar as pessoas de outros países que nos atacaram e que separaram o povo daqueles que os governavam.”

TL;DR: A única coisa mais difícil que amar a todos igualmente é odiar a todos com perfeita igualdade.

 

Anúncios