O punk, a fascista, o zen e a arte de não se importar

por desapiero

Há movimentos que são tão diferentes em suas ideologias e tão distantes entre si no espaço e no tempo que dificilmente se poderia supor um ponto em comum entre eles. E, no entanto, nossa natureza humana sempre acaba se denunciando e nossa condição universal de seres humanos acaba emergindo e mostrando denominadores comuns no lugares e tempos mais distantes. Isso, ou talvez eu tenha tomado muito xarope para tosse.

De qualquer maneira, há um sentimento de não se importar, não estar nem aí para as baixezas do mundo e não se deixar afetar pelas turbulências, injustiças, cretinices a revezes da vida que ressoa em movimentos completamente diferentes. Essa ataraxia é algo que pode ser igualmente observada no movimento punk, no discurso fascista (pré-Pacto de Aço) e no budismo zen. Vamos ver como isso funciona.

O movimento punk surgiu na metade da década de 1970 no meio de uma das piores crises econômicas que já afetou a cidade de Nova Iorque. Crime, tráfico de drogas, prostituição, desemprego, abandono de prédios, emigração, corrupção e toda e qualquer mazela social imaginável tinham chegados a novos patamares e… em suma, tudo aquilo que nós, terceiro-mundistas, já conhecemos. Nesse contexto, o movimento punk, particularmente da maneira como os Ramones o expressavam, surgiu como um movimento de rejeição do consumismo e da imagem de sucessos que imperavam até então.

Ser bonito, estar na moda, ter produtos chiques, ter a educação e os empregos de prestígio da época, os Ramones não estavam nem aí para isso. Eles tinham o mesmo corte de cabelo, vestiam um uniforme simples (jeans, camiseta e jaqueta), não adotavam a culto à aparência -como moicanos, piercings e tatutagens- de outros punks. Eles eram perdedores e rejeitados que não tinham o iPhone da época, mas não eram estúpidos. E, acima de tudo, eles não estavam nem aí para os outros. Eles deixam isso bem claro nesta canção de um minuto e meio que, mais tarde, o Renato Russo plagiaria:

I Don’t Care
(The Ramones)

Eu não me importo
Com este mundo
Eu não me importo
Com essa garota
Eu não me importo
Com esta letra.
Eu não me importo.

Esse sentimento de indignação e indiferença às exigências estúpidas da sociedade é um dos elementos que ajudou Benito Mussolini a dar um apelo de massa para o fascismo na década de 1920. Um ex-socialista, o Duce adotou um discurso (que mais tarde Hitler copiaria) que disfarçava suas ambições políticas como uma tentativa de corromper a moral decadente do mundo e de unir esforços e sacrifícios coletivos no amor sagrado à Itália e na formação de uma sociedade corporativista e com cooperação, não conflito, de classes.

Mussolini colocava os homens e mulheres fascistas como seres moralmente superiores, que não se deixavam afetar pela mesquinhez do consumismo pequeno-burguês e dos elementos sedutores da vida materialista. Ele afirmava que, unidos, os fascistas conseguiriam avançar a sociedade muito mais do que qualquer outro grupo político. Nesse tema, um dos lemas mais famosos dos fascistas era o “me ne frego”, que, em dialeto romano, significa algo como “não tô nem aí”.

Essa frase precede ao fascismo e, segundo a tradição, surgiu no fronte italiano da Primeira Guerra Mundial: soldados italianos feridos teriam usado seu próprio sangue para escrever “me ne frego” nas bandagens de suas feridas, demonstrando que eles não se importavam e intimidavam com o sofrimento que lhes era imposto, pois eles tinham aspirações maiores.

oro alla patria

“Ouro à pátria”: italianos que doassem objetos de ouro para as empreitadas militares de Mussolini recebiam, em troca, um anel de ferro com essa inscrição. Pirandello doou seu Nobel e até o anti-fascista Benedetto Croce deu sua medalha de senador.

Bem, cem anos depois, uma banda feminista/fascista/punk chamada Esperia compôs uma canção chamada “Me ne Frego”. Antes que alguém comece a apontar as contradições inerentes à existência de um grupo que é, ao mesmo tempo, feminista, fascista e punk, fiquem tranquilos: devido ao fato de que é impossível encontrar qualquer atividade dessa banda após o lançamento do seu único CD, pode-se especular que essas adolescentes se deram conta de seus erros e tentaram enterrar a existência do grupo. Por alguma razão, no entanto, elas têm milhares de fãs na Polônia e um amigo polaco me mostrou a  canção abaixo:

  Me ne frego
(Esperia)

Sabe o que eu te digo? Não tô nem aí! Não tô nem aí!

Não tô nem aí para o seu mundo corrupto. Não tô nem aí para o seu consumismo
Não tô nem aí para o seu deus-dinheiro. Não tô nem aí, já disparei a voar.
Agora eu vejo o mundo do alto. [Vejo] A loucura dos comerciantes ricos.
Queimarão para sempre, enquanto eu já estarei no alto.

Sabe o que eu te digo? Não tô nem aí! Não tô nem aí!

Não tô nem aí para as aparências. Não tô nem aí para as tuas revistas.
Não tô nem aí para as modas chiques! Estou aqui nadando.
Nado livre no mar aberto e observo as pessoas na praia. Elas são vazias, você o vê?
Elas se afogaram para sempre, porém!

Sabe o que eu te digo? Não tô nem aí! Não tô nem aí!

Não tô nem aí para o comunismo. Não tô nem aí para os americanos.
Não tô nem aí para o sociedade. Não tô nem aí, sou fascista!
Elevaremos o nosso grito da terra ao céu. Arde uma chama dentro de nós e não estamos nem aí para o mundo!

Sabe o que eu te digo? Não tô nem aí! Não tô nem aí!

Bizarrices à parte, a canção promove uma espécie de asceticismo e ataraxia que não só é similar àquele praticado pelo movimento punk, mas também possui um paralelo no budismo zen e no pensamento religioso-filosófico indiano: o conceito de upeksha.

Upeksha é um estado mental no qual a pessoa está completamente acima e além da possibilidade de turbulência que os fatos da vida propiciam. Vitória ou derrota, ostracismo ou glória, elogio ou censura, felicidade ou tristeza, nada disso afeta a pessoa que alcançou upeksha. Num estado transcendental, ela alcança a equanimidade e deixa de ser afetada pelos acontecimentos ordinários e pelas mesquinhezas da vida materialista e consumista. Ela não se importa mais com os demais, na medida em que sua mente está focado em ideais superiores.

Há uma quase infinidade de elementos que separam o fascismo, o punk e o budismo e muitas deles certamente se excluem mutuamente, o que levaria à impossibilidade de alguém aderir simultaneamente às três filosofias.

Dito isso, e colocando as diferenças à parte, é possível perceber neles uma forte rejeição ao materialismo e consumismo que, cada vez mais, é absorvido acriticamente por todos os setores da nossa sociedade. Do funk ostentação da periferia, às filas para inauguração de lojas de marca em shoppings de classe média-alta até os intelectuais que optam por apagar um incêndio com gasolina ao defender o consumismo como uma forma de transcender as diferenças de classe. Como que consumir cada vez mais e ter a ostentação como um valor aceitável vai produzir uma sociedade unida e coerente? O consumismo pode ser aplacado pelo consumo?

É, pois, estranho e desconcertante ver que a rejeição ao consumismo desenfreado possui tão poucos expoentes hoje que é mais fácil encontrá-los em religiões orientais, em feministas fascistas e em punks. Entre os demais, deve ter saído de moda com a última coleção.

TL;DR: Não sobrou ninguém lol

PS: julgando pelo nome, o grupo grunge Nirvana  deveria estar ligado, de algua forma, ao budismo. Até onde vai o meu conhecimento, porém, nenhuma canção do Nirvana contém letras que exponham com alguma profundidade algum conceito budista. Se alguém souber do contrário, por favor, deixe um comentário!

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