“Eles jamais entenderão…”

por desapiero

Nada pode ser considerado mais íntimo do que as nossas memórias e vivências. Somente eu sei o que eu vivi, pois somente eu – na minha pele – senti o que eu senti e sei o que eu sei e ninguém pode compartilhar disso.

Se, no entanto, milhares de pessoas vivem experiências similares, seria possível que, para que cada uma delas tivesse sentido, as memórias de um indivíduo precisassem das memórias de ouras pessoas?

Não é sobre isso que a obra Corpus Delicti  da artista paulistana Jacqueline Leiner trata. Na verdade, eu não sei direito sobre o que essa obra trata, já que, quando ela estava exposta no Instituto Itaú Cultural, não havia panfletos com explicações sobre as obras e ela não é suficientemente autoexplicativa. Pela biografia da artista, deve ser algo ligado ao consumismo e cultura pop. De qualquer maneira, é sobre a dicotomia entre memória individual e memória coletiva que, no fim do dia, essa obra acabou tratando. Vamos por partes.

Corpus Delicti (“corpo de delito” em latim) é uma coleção de recipientes metálicos vazios que a artista furtou de aviões e passagens áereas usadas, tudo interligado por meio de cabos metálicos. Assim:

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Corpus Delicti, Jac Lernier, 1992. Furtado do site New City Brasil.

Aquele dia, a maior parte do público no Itaú Cultural era de adolescentes. Eles passavam poucos segundos olhando essa obra e logo seguiam o percurso do museu. Tentei entender por qual razão ninguém estava reparando nela e, após alguns minutos, finalmente entendi: aqueles recipientes metálicos vazios eram cinzeiros de avião.

De fato, eu me lembrei de quando eu era uma criança e tinha, certa vez, voado com minha família num avião da VASP. Naquela época, era permitido, entra outras coisas, levar cigarros e isqueiro e fumar dentro de um avião no meio de um vôo! Isso pode parecer completamente absurdo para a geração pós-11 de setembro, já que, atualmente, não é permitido nem mesmo entrar com um cortador de unha ou uma garrafa d’água num avião, mas, sim, antigamente, isso era permitido.

Como os adolescentes no Itaú Cultural nunca voaram num avião no qual era permitido fumar, eles não conseguiam identificar o que eram aqueles objetos metálicos. A obra era incapaz de se comunicar com eles e, efetivamente, ela estava morta no tempo e sem significado real para o novo público. A intenção da autora de dizer algo sobre a vida e as experiências pessoas dela ficou perdida no tempo, pois ela não pode ser transmitida a uma geração que não compartilhou suas experiências. Sem a compartilhamento de experiências similares, as memórias individuais da artista perdem a capacidade de diálogo e, portanto, o sentido. Assim, eles jamais entenderão.

Saindo do Itaú Cultural, fui para casa, jogar games de computador. Sentido-me nostálgico, decidi jogar alguns jogos da década de 1990. Naturalmente, esses jogos são incompatíveis com computadores modernos, mas uma empresa polonesa resolve esse problema relançando-os em formatos compatíveis com o Windows 10. Isso deveria resolver a questão do diálogo entre os sistemas velhos e novos, e, do ponto de vista técnico, isso é verdade… quando comecei a jogar, porém, vi que não é bem assim.

Quando eu era adolescente, havia uma febre de lan-houses em São Paulo. Lan-houses eram uma espécie de café com computadores interligados no qual se jogava jogos com dezenas de pessoas ao mesmo tempo. Eu posso jogar os mesmos games que eu jogava lá há quinze anos, mas eu sinto que não é a mesma coisa: há uma série de idiossincrasias e interações sociais que não podem ser repetidas, encenadas ou emuladas hoje.

Nós, os moleques que íamos às lan-houses, não sabíamos falar inglês direito, mas jogávamos jogos nessa língua. Por conta disso, acabávamos improvisando palavras  e verbos numa interlíngua que não fazem o menor sentido : “planta essa bomba!”, “defusa aquela bomba!”, “TAB [tecla que exibia o placar do jogo] aí e diz quem está em primeiro!”, “dropa a sua arma!”. Esses termos, como nunca foram dicionarizados, já não existem mais e não têm mais sentido fora daquele contexto específico. Sei que, chamada por qualquer outro nome, uma rosa conserva o mesmo cheiro, mas é outra coisa jogar esses jogos sem esse vocabulário, que era bem preciso, apesar de ilógico.

E, além disso, a lei permitia, então, que adolescentes ficassem até de madrugada jogando games num cyber-café, o que hoje não acontece. Os moleques, além disso, escolhiam nomes de guerra que, hoje, não significam nada , como “Louco pela Tiazinha”, “O Charada Brasileiro” ou “Corvo do Mion”. Em suma, é possível emular esses mesmos games no meu computador e tentar revivê-los, mas, sem a experiência coletiva das pessoas que os jogavam comigo, minhas memórias não possuem mais sentido. É somente com a presença da alteridade, que minha própria identidade faz sentido.

E, como tentar explicar isso para quem não ia a lan-houses não faz sentido, e como não posso comunicar essa experiência de maneira fidedigna a quem não estava lá comigo, encerro este post por aqui mesmo. De qualquer maneira, vocês nunca entenderiam…

TL;DR: As coisas são reveladas por meio das memórias que temos delas. Lembrar-se de uma coisa  é vê-la – somente então – pela primeira vez.
Ofício de Viver, Cesare Pavese.

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