“Literalmente pior que Hitler”

por desapiero

Estamos vivendo tempos agitados e discursos igualmente agitados surgem para tentar explicá-los. Terrorismo islâmico, golpes militares, assassinatos de policiais, assassinatos de homossexuais, discussões polarizadas e por aí vai. Diante dessa exposição maciça de eventos chocantes, termos igualmente impressionantes são resgatados da História ou são cunhados novos em folha para enfrentá-los. Será que o uso desses termos, porém, pode estar, na verdade, afastando a atenção desses problemas tão sérios?

Dois termos que, recentemente, mais se vêem gratuitamente utilizados são “fascista” e “nazista”. A polícia brasileira, por exemplo, é chamada de fascista, embora  Benito Mussolini, o fundador do primeiro e verdadeiro Partido Fascista, tenha criado milícias (Fasci Italiani di Combattimento) exatamente como uma maneira de contornar a força da polícia italiana. Similarmente, o atual candidato à presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump, é acusado de ser um fascista, apesar de seu discurso ser fundado num populismo demagógico de direita e não nos preceitos de Mussolini.

Em relação ao nazismo, as comparações com Hitler são tão comuns em discussões na mídia e na internet que até mesmo se criou uma “lei” – a lei de Godwin – que prevê que elas são inevitáveis em discussões longas. Enquanto isso, dizer que alguém é literalmente pior que Hitler, seja essa pessoa Putin, Obama ou Benjamin Netanyahu, se tornou um meme na internet e há até mesmo uma página (em inglês) que descreve esse fenômeno.

hitler

Uma cena do musical The Producers. A imagem de Hitler é usada tão livremente hoje que ela praticamente já perdeu todo seu sentido original.

E não é para menos: qualquer coisa te torna em Hitler, agora. Angela Merkel  – a chanceler da Alemanha – pressionou economicamente os gregos a pagarem suas dívidas? Ela é Hitler! Merkel lidera (de facto) a União Européia? Ela é Hitler e está liderando o IV Reich. Merkel está causando a fragmentação da União Européia, coordenando a entrada de milhões de refugiados? Ela é Hitler e isso é a vingança do Führer! E (o mais absurdo  e delirante de todos) Angela Merkel reconheceu a vericidade do genocídio armênio e disse que os alemães são culpados de não terem ajudado a evitá-lo? Ela á Hitler!

Isso não é prerrogativa da mídia europeia. No jornalismo brasileiro, um colunista da Veja denunciou o fato de que estudantes grevistas da USP chamaram alunos que se recusaram a participar de uma greve de nazistas e ficaram gritando “Hitler!” até que eles saíssem da sala de aula: esses alunos nunca demonstraram qualquer tipo de afinidade ao pensamento nazista, eles só se recusaram a participar da greve. Alguns anos depois, porém, o mesmo colunista comparou a militância petista, que havia agredido fisicamente a José Serra – à milícia de assalto nazista, a Sturmabteilung e afirmou que “Os nazistas estão nas ruas!”

Obviamente, nenhuma dessas analogias é historicamente correta ou, nem sequer, lógica. O que se percebe aqui é que, na verdade, no momento no qual vivemos, comparar alguém Hitler não significa absolutamente nada mais do que “Eu não concordo com você.” Adolf Hitler, o soldado austríaco que lutou pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial e que, por meio de discursos demagogos, manobras políticas e agressões físicas, transformou a República de Weimar na Alemanha nazista agora é “hitler”: é só mais uma palavra que temos no nosso vocabulário para dizer que não gostamos de algo ou para criticar quem não pensa como nós. A tragédia disso tudo, porém, é o fato de que, para que se possa colocar “hitler” no dicionário, é necessário retirar “Hitler” dos livros de História. O contexto histórico já não importa mais: tudo é discurso.

E, nesse mundo de discursos incendiários no qual só se houve quem, figurativamente e literalmente, grita mais alto, o que será da poesia? Sem hítleres, demagogia e acusações bombásticas, como que versos sem graça vão chamar a atenção em meio à tanta gritaria? Bem, talvez não seja possível a poesia competir com esse ódio… mas, como o imperador romano Nero fez, então, aproveitarei o fogo desse incêndio para tocar aqui uma lira: a ode número 3 do segundo livro de Odes do poeta romano Horácio.

Aequam memento rebus in arduis

(tradução de Bento Prado de Almeida Ferraz)

Lembra-te de manter, ó mortal Délio,
o ânimo sempre igual na adversidade
e, livre da alegria imoderada,
nos momentos felizes da existência
tenhas vivido, desde sempre, triste,
ou, às vezes, gozado as tuas férias
sobre afastada relva reclinado,
a saborear teu especial falerno [vinho famoso na Roma antiga].
Com que fim se associa o alto pinheiro
ao branco álamo, ramos entrelaçados,
na formação da sombra hospitaleira?
Por que se esforça a linfa fugitiva
a murmurar em seu sinuoso leito?
Manda que para lá te levem vinho,
perfumes e da suave rosa as flores,
que só duram, brevíssimas, um dia,
enquanto te permitem teu estado,
a idade e as três fatídicas irmãs,
que o destino do homem, atras, tecem [atras = lúgubres].
Deixarás as pastagens adquiridas,
tua casa, o casal, que o flavo Tibre [o dourado rio Tibre]
banha; aliás, deixarás, invito embora, [invito = contrariado]
a fortuna, que em vida acumulaste
para teu uso, ao gozo de um herdeiro.
Do prisco Ínaco filhos, ou da pobre [prisco = velho]
e ínfima gente que ao relento vive,
não nos importa, vítimas que somos
do Orco, que de ninguém se comisera;
somos levados para igual destino:
a nossa sorte, da urna que se agita,
ou mais cedo ou mais tarde, há de sair
para pôr-nos, enfim, naquela barca
em que só se parte para o eterno exílio.

TL;DR: Se você não concorda comigo, você é literalmente pior que Hitler.

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