A Cidade sem Pecados

por desapiero

Na semana passada, dois monumentos populares de São Paulo amanheceram pichados: a estátua de Manuel de Borba Gato, o Borba Gato de Santo Amaro, e o Monumento às Bandeiras, vulgo “Deixa que Nóis Empurra”, do Ibirapuera. De maneira sucinta, pode-se dizer que esses monumentos, dedicados aos bandeirantes paulistas, foram pichados devido ao fato de que, entre outras coisas, os bandeirantes escravizavam índios e caçavam escravos negros.

Opiniões a favor e contra a pichação surgiram aos montes e cada uma tem o seu mérito. Uma delas, porém, a do blog do Sakamoto, pela sua ausência de contextualização histórica e irritante simplicidade argumentativa,  me fez parar e escrever este post.

O Sakamoto é conhecido por escrever alguns posts excessivamente simplistas em suas análises sociais e em atribuições de culpa. De fato, ele já afirmou que as pessoas no Brasil são assaltadas porque ostentam (ignorando o fato de que muito mais pobres são vítimas de assalto do que ricos ) e que criou uma caricatura preconceituosa e racista para demonizar a classe média brasileira: o Coxeco, reduzindo a realidade e o sofrimento de milhões de pessoas no Brasil a um estereótipo preguiçoso e sem conexão com a realidade.

Aqui faço um parêntese para notar que o Sakamoto apagou o seu post no qual ele apresentava o Coxeco, uma coxinha antropomórfica loira e de olhos azuis, que usa um relógio Rolex e que, dirigindo um automóvel, espirra água na cara da população pobre; o link atual resulta num erro 404 de página não encontrada. Para a infelicidade do doutor em Ciências Políticas pela USP, porém, a internet nunca esquece e ainda é possível, graças ao Internet Archive, acessar o seu post infame. Pensei em comentar perguntando ao autor de que maneira essa caricatura contribuiria para o reparo do diálogo na nossa sociedade fragmentada, mas dá-se o fato de que o dono de um dos blogs mais acessados do Brasil decidiu desabilitar a opção de comentários.

coxeco

Leonardo Sakamoto é doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo e professor de Jornalismo na PUC-SP.

De qualquer maneira, prosseguindo com o post, Sakamoto defende que os dois monumentos supracitados sejam inteiramente removidos da cidade de São Paulo. Isso porque, os bandeirantes “roubaram, mataram, escravizaram e ampliaram nossas fronteiras como consequência não de algum princípio mais alto, mas da ganância” e porque esses “açougueiros” (os bandeirantes) suportam a idéia do “paulistanismo, o nacionalismo paulista” (paulista ou paulistano, ou até mesmo são-paulino, hein?). De onde o Dr. Sakamoto tirou essas idéias, é algo que eu não sei explicar, porém. Na verdade, nem ele mesmo sabe explicar, já que não o fez, e, em boa parte, é porque o discurso desse blogueiro está baseado não numa análise historiográfica honesta e crítica, mas na sua preguiçosa vontade de demonizar o bode expiatório da vez.

Digo isso porque eu, pessoalmente, me senti muito preocupado, após ouvir na escola que os bandeirantes paulistas teriam sido a tropa de elite nazista, a SS, de sua época. Se foi isso, então por que há tantas homenagens a eles? O que esses homens realmente fizeram? Com essa pulga atrás da orelha, decidi pesquisar a respeito para tentar entender melhor quem foram esses personagens.

A este respeito, o antropólogo mineiro Darcy Ribeiro afirma, em uma de suas obras mais importantes, O Povo Brasileiro, que miscigenação entre brancos e índios não só acontecia, como era a regra na sociedade dos bandeirantes. As maiores bandeiras, sobretudo, eram excursões compostas por uma esmagadora maioria mameluca e indígena, sendo que somente os capitães das bandeiras eram brancos. E esses bandeirantes, brancos ou não, tão longe da Sagrada e Católica Igreja, inclusive, praticavam a poligamia, algo que também Sérgio Buarque de Hollanda nota em Raízes do Brasil. As bandeiras, portanto, eram um produto de seu tempo: na mentalidade de portugueses colonizadores dos séculos XVI e XVII, matar e escravizar a população nativa do Brasil não era algo extraordinariamente chocante ou repulsivo e, da mesma maneira, os índios que seguiam tais bandeiras tampouco estavam fazendo algo que era radicalmente diferente daquilo que eles praticavam antes.

Aqui faço mais um parêntese importante para deixar claro que não eram todas as pessoas que viviam naquela época que viam as bandeiras como algo positivo e, de fato, havia escritores como Bartolomé de las Casas, que, já em 1550, consideravam que os nativos das américas possuíam almas e não mereciam receber as violências que caíam sobre eles. Dito isso, porém, outros escritores da época, como Hans Staden – que foi feito prisioneiros por uma tribo de Bertioga, em São Paulo – e Álvar Cabeza de Vaca – que vagou 9 anos pelas Américas – relatam que incursões militares e de escravização não eram algo fora da realidade dos nativos.

Em suma, os tempos eram outros e as convenções morais eram diferentes: todos os continentes do mundo, naqueles anos, praticavam a escravidão e a noção de que povos deveriam ser protegidos de extermínio não era um consenso nem entre círculos intelectuais e, muito menos, entre o povo. Se formos julgar as pessoas que viviam àquela época pelos padrões morais que temos hoje, certamente não haverá ninguém que consideraríamos digno, já que todos, mesmo que de maneira indireta, contribuíram para ações que, em 2016, os tornariam réus na Corte Internacional de Justiça na Haia. Se retirarmos de São Paulo os monumentos dedicados às bandeiras, então teríamos que destruir muitos outros monumentos.

Zumbi dos Palmares, por exemplo, é considerado como um símbolo da resistência contra a escravidão, devido ao fato de que, como último monarca do Quilombo dos Palmares, ele liderou heroica resistência e guerra contra os portugueses. A data da sua morte, 20 de novembro, é hoje o Dia da Consciência Negra no Brasil e, simbolicamente, ele está enterrado no Panteão da Pátria e da Liberdade de Brasília, no qual, também simbolicamente, repousam figuras como D. Pedro I e Alberto Santos-Dummont.

Zumbi, porém, era uma figura de sua época e um produto do seu contexto histórico. Ele era descendente da linha real de reis do Congo (na atual Angola) e, nessa sociedade africana do século XVII, a escravidão era algo normal. Por conta disso, dentro do Quilombo dos Palmares, também havia escravos que serviam aos negros livres. Esse fato não diminui o fato de que Zumbi deu a sua vida para lutar pela sua própria liberdade e que, com muita honra, coragem e lealdade, ele enfrentou até a morte os escravizadores brancos da época. Se, como o Sakamoto faz, porém, formos julgá-los com os olhos da nossa época, deveríamos retirar todas as homenagens públicas que Zumbi recebeu e reduzi-lo a um simples vilão ignorante, o que seria um absurdo.

Há uma série de livros que, de maneira genial, convida o leitor a – de maneira simultânea – entender que figuras históricas precisam ser julgados no contexto histórico em que viveram e, também, a entender como é bom que nossa sociedade tenha se livrado de práticas cruéis e abusivas do passado: entender a razão pelas quais nossos antepassados tomaram certas ações não resulta em repetir seus erros no futuro. Essa série se chama O Capitão Alatriste e seu autor, o murciano Arturo Pérez-Reverte, decidiu escrevê-la pois considerava que os livros didáticos de História da Espanha não se aprofundavam o suficiente nos problemas da sociedade espanhola do século XVII.

Os livros seguem a vida de um soldado espanhol do Terço Velho de Cartagena e têm uma estrutura inspirada nos romances de Alexandre Dumas, e n’Os Três Mosqueteiros, em particular. Diego Alatriste -esse é o nome do protagonista- é um veterano de guerra que luta pela glória do império espanhol e pela coroa que jurou proteger com sua vida. Ele também é um mercenário que faz serviços dos mais toscos, como matar amantes que chifraram alguém marido cornudo ou algum sem-vergonha que roubou num jogo de cartas. Ele é um homem que valoriza a honradez e a integridade, a ponto de arriscar sua vida pelo o que é certo e justo. Ele também é um mentiroso alcóolatra que pula de caso amoroso em caso amoroso. E ele também é um pai digno para uma criança órfã e um saqueador de aldeias holandesas em chamas. Em suma, ele é um soldado espanhol do século XVII, nem mais, nem menos. Ou, como Pérez-Reverte distila na abertura do livro inaugural da série:

“Não era o homem mais honesto, nem o mais piedoso, mas era um homem valente. Chamava-se Diego Alatriste y Tenorio e tinha lutado como soldado dos terços velhos nas guerras de Flandres. Quando o conheci, vivia mal em Madrid, alugando-se por quatro maravedis para trabalhos de pouco lustre, a menudo como espadachim  (…). Agora é fácil criticar isso; porém, naqueles tempos a capital das Espanhas era um lugar onde a vida era tomada com um salto de mato, em uma esquina, entre o brilho de duas espadas (…) Sim. Já disse a vossas mercês que eram anos duros”

Esse tipo de abordagem nos permite realmente compreender, ao invés de preguiçosamente julgar, uma figura histórica. A história precisa ser compreendida em sua integridade e não seletivamente demonizada, para que seus erros não sejam repetidos pelas gerações futuras. Precisamos sentir e entender o heroísmo dos bandeirantes que adentraram – sem mapas, alimentos, antibióticos, eletricidade e veículos – no sertão brasileiro para, além do Tratado de Tordesilhas, alcançar honra e glória para a Sereníssima Casa de Bragança e, também, ouro para seus bolsos. E precisamos compreender a crueldade repulsiva desses mesmos bandeirantes, como o diabo velho Anhanguera, que tocava fogo em cachaça para enganar os índios inocentes e roubar seu ouro. O Brasil de hoje existe graças a eles e por culpa deles e destruir seus monumentos enquanto se goza de seu legado (sobretudo o territorial) é vão e hipócrita.

Para finalizar, o Sakamoto menciona que “Na minha opinião, um povo não precisa de heróis”. Concordo com essa postura; de fato, é o que estou defendendo neste texto. Ironicamente, porém, ao “vilanizar” os bandeirantes, forçosamente, Sakamoto está criando, por contraponto, heróis naqueles que os criticam e, por extensão, nele mesmo.  E o que o Brasil precisa agora não é nem de heróis e nem de vilões, mas, simplesmente, de humanos.

TL;DR: Coxecos, do mal. Sakamoto, do bem.

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