O MINIMALISMO POÉTICO DE GIUSEPPE UNGARETTI E DEE DEE RAMONE

por desapiero

 

Dee Dee Ramone

“Sim. É issó aí. Pode crer. Isso mesmo. Falou e disse!”

Antes de tudo, aviso ao leitores que, sim, estou de volta! Uma série de obrigações me impossibilitou de publicar artigos com um mínimo de qualidade nos últimos 9 meses, mas, agora, posso assegurar que voltarei a publicar meus artigos de qualidade mínima para todo mundo ler e criticar, ou não ler e só criticar mesmo. E chega de enrolação, pois a postagem de hoje é sobre autores que usam poucas palavras!

Há poetas que são capazes de manter uma obra de qualidade imensa ao longo de milhares de versos, como Dante Alighieri na Divina Comédia, Torquato Tasso na Jerusalém Libertada ou Luis de Camões n’Os Lusíadas. E, por mais que seja perfeitamente possível dedicar horas e horas de prazer na leitura dessas obras, há momentos de nossas vidas no qual poucos versos, do tamanho e da duração de uma rara epifania, são exatamente aquilo de que precisamos. E eu garanto ao leitor que ele achará essas epifanias nos versos de Giuseppe Ungaretti e de Dee Dee Ramone.

Ungaretti (1888-1970) foi um poeta italiano com uma vida conturbada. Ele nasceu em Alexandria, no Egito, e depois viveu na França antes de voltar ao país de sua família, bem a tempo de, com todo o fervor nacionalista de sua geração, se voluntariar para lutar na Primeira Guerra Mundial. E, de fato, ele serviu nas trincheiras até o dia da vitória italiana. Mas sua vida não foi particularmente alegre: ao voltar para Paris para comunicar a vitória da Tríplice Entente, Ungaretti, depois de anos de sofrimento, encontrou seu amigo, o também poeta Guillaume Apollinaire, morto de febre espanhola, sua viúva velando seu corpo, em seu quarto.

E, após esses episódio, Ungaretti não fez escolhas particularmente sábias. Sozinho, sem dinheiro e com todos os traumas de quatro anos de lutas em trincheiras, ele se tornou correspondente de um jornal emcabeçado por certo agitador social socialista chamado Benito Mussolini. Após alguns anos, Mussolini fundou o partido fascista e Ungaretti foi uma voz que ativamente defendeu o fascismo italiano. Na década de 1930, quando, aliás, ele se tornou professor de literatura italiana na USP (sim, aqui de São Paulo, mesmo!) ele se tornou um ferrenho opositor desse regime, mas o estrago já tinha sido feito e, até hoje, sua reputação foi severamente manchada por esse período da sua juventude. E, para pontuar sua tristeza, em 1939, seu filho de nove anos de idade morreu em São Paulo, após uma apendicite, um fato que o alterou de maneira irreparável e que deixou marcas profundas em sua obra literária.

E, bem, como é, então, a obra literária desse egípcio-italiano que morou em Paris, na América do Sul, lutou por anos na Primeira Guerra Mundial, apoiou e criticou Mussolini? O que tem a dizer uma pessoa que passou por tantas coisas na sua vida? Eu, que esperava ler, de sua pena, poesias épicas e cheias de reviravoltas e personagens mirabolantes, fiquei muito supreso em ver que… sua poesia é a mais concisa que eu já li até hoje! E, opinião deste blogueiro, acho que é necessário que ela seja… há certas coisas pelas quais nós passamos que não podem ser explicadas de maneira lógica, sequencial e racional para outras pessoas. Há certas coisas tão horríveis ou maravilhosas que somente uma epifania podem comunicar. E vamos logo ver alguns poemas dele que traduzido por este que vos fala:

Irmãos

De qual regimento vocês são

irmãos?

Palavra tremendo

na noite

Folha recém nascida

No ar lancinante

Involuntária revolta

Do homem presente à sua

fragilidade

Irmãos.

Como se explica todo o sentimento de camaradagem e a aquela profunda, ainda que oriunda de encontros superficiais, empatia que soldados, irmãos de honra e de desgraça, experimentam? Acho que esse poema o faz muito melhor do que um tese de doutorado poderia fazer. Mas Ungaretti refinou ainda mais o seu estilo de composição poética e o poema a seguir resume a necessidade de se prosseguir com a vida, mesmo após os horrores da guerra:

Alegria de náufragos

E imediatamente recomeça

a viagem

como

após o naufrágio

[o faz] um sobrevivente

lobo do mar

Mas Ungaretti conseguiu sintetizar ainda mais a sua experiência na Grande Guerra quando ele escreveu o seguinte poema que, em 10 palavras, expressa o sentimento de completa impotência, irrelevância e submissão de um soldado aos caprichos da sorte e aos desígnios implacáveis da morte.

Soldado

Se está como

no outono

nas árvores

as folhas

E se Ungaretti não alcançou fama mundial (nunca consegui achar, novo ou em sebo, alguma tradução em português da sua obra), há outro poeta cuja obra minimalista alcançou mais fama no mundo e que, vez ou outra, pode ser ouvida nas nossas rádios: Douglas Colvin, também conhecido como Dee Dee Ramone.
Dee Dee cresceu na Alemanha pós-nazista ocupado pelos Aliados. Filho de um soldado estadunidense e de uma mulher alemã, ele teve uma infância e adolescência marcada por alcoolismo, abandono paterno, violência doméstica e por todas as delícias de se crescer numa cidade completamente destruída pelo maior conflito armado da História. Aos quinze anos de idade, sua mãe, fugindo do marido alcoólatra, foi parar em Nova York, onde, eventualmente, Dee Dee encontraria Johnny, Tommy e Joey e, juntos, inventariam o punk rock.

E, como se essa infância não tivesse sido o suficiente, Dee Dee Ramone passou por uma séria imensa de (des)aventuras: sua primeira mulher tentou esfaqueá-lo depois de receber um sofá seu de presente; ele viu Sid Vicious injetar heroína com água de privada; casou-se com uma fã argentina e montou uma banda com ela; arrependeu-se mil vezes de sua dependência de drogas; foi introduzido ao Hall da Fama do Rock’n’Roll; gravou um CD de rap sob o nome e Dee Dee King e, finalmente, morreu de overdose de heroína aos 50 anos de idade.

Tudo isso daria um livro e, de fato, Dee Dee escreveu uma autobiografia. Mas, nem remotamente, esse é o campo no qual sua produção artística mostrou seu talento. Ao contrário, sua genialidade poética está, justamene, em resumir a tragicomédia de sua vida em pouquíssimos versos num curtíssima canção de punk rock que usa pouquíssimos acordes. Não acredita? Pois veja esta estrofe da canção “Chinese Rocks” (“rochas chinesas” sendo uma gíria para heróina na Nova York de 1970) e você verá como ele resumiu toda a sua vida, o seu talento e sua incapacidade e utlizá-lo para o seu próprio bem, um oito linhas:

O gesso está caindo da parede

Minha namorada está chorando no chuveiro

Está quente pra cacete. Eu deveria ter sido rico,

Mas só estou cavando minha cova chinesa

Estou vivendo de heroína

Todas as minhas melhores coisas estão penhoradas

Estou vivendo de heroína

Está tudo na loja de penhores!”

Uma biografia inteira em 8 versos. Você não precisa de mais nada para entender como é a vida dessa pessoa. Mas Dee Dee Ramone compôs canções ainda mais curtas e mais carregadas de potência emocional. “Now I Wanna Sniff Some Glue”, por exemplo, em quatro versos, pinta, en plein air, o retrato de uma juventude que, ao mesmo tempo, se perde e se consola no uso de drogas recreativas:

Agora eu quero cheirar cola

Agora eu quero ter algo para fazer

Todas as crianças querem cheirar cola

Todas as crianças querem ter algo para fazer

Mas o auge da sua refinação, certamente, está na canção “I don’t Wanna Walk Around With You”, que consiste em somente dois versos diferentes:

“Eu não quero andar com você,

Então por que você quer andar comigo?”

Em resumo, embor, certamente, Giuseppe Ungaretti e Dee Dee Ramone sejam muito diferentes em sua composição artística já que, de fato, eles eram de localidades, período histórico, classes sociais, preferências artísticas e realidades completamente diferentes, há um ponto nos qual eles se aproximam: a necessidade de expressar histórias longas e complexas no menor número possíveis de versos. E, de fato, há experiências que são tão profundas que, possivelmente, elas se transmitem melhores em poucos versos, em epifanias carregadas de amor, desespero, euforia e o que seja. E, para encerrar este post, deixo ao leitor um poema de Ungaretti que explica da melhor maneira possível esse momento raro no qual, mesmo que por poucos segundos, somos capazes de nos conectarmos de maneira profunda com indivíduos que jamais conhecemos. Esse poema, que eu traduzi – e peço perdão por começar uma frase com uma próclise, mas é assim que começa o original – se chama “Mattina”:

Manhã

Me ilumino

de imensidão

TL;DR: “Não sou o poeta do abandono às delicias do sentimento. Sou um habituado a lutar e, devo confessar – a idade está levando embora um pouco do remédio – sou um violento: desdenho e coragem de viver. Vontade de viver, não obstante a tudo, cerrando meus punhos, não obstante o tempo, não obstante a morte.” Giuseppe Ungaretti… mas também se aplica a Dee Dee Ramone

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