Antropofagia, apropriação cultural e dinossauros do Brasil

por desapiero

Tradicionalmente, havia uma tendência entre pensadores ocidentais de esquerda de sedimentar seus discursos socio-políticos na produção intelectual e nas realidades do bloco de países soviéticos. Sartre, por exemplo, foi um dos intelectuais ocidentais que visitou a União Soviética e Cuba e elogiou Stalin, Fidel Castro e Che Guevara.

E, bem, caso você achasse que eu fosse me estender nesse tópico, já aviso que não. Estou aqui exatamente para dizer que isso é coisa do passado: agora, a nova moda é copiarmos ideologias de esquerda não mais dos países do antigo bloco soviético, mas já receber todos os McDiscursos prontos dos Estados Unidos da América, mesmo. E, pode apostar, isso não dará nada certo, dada a realidade do nosso Brasilzão. Mas, vamos por partes.

Antes de tudo, para quem acha que a nossa elite intelectual não é influenciada pelos EUA, vamos parar por um momento e ver o que está sendo discutido de maneira mais ávida nas redes sociais e, também, na mídia velha. Esses tópicos surgiram de maneira espontânea em nossa sociedade e são um resultado orgânico de questões que são relevantes para nós, ou apareceram aqui depois de serem introduzidos por alguma série americana do Netflix,por um filme feito em Hollywood ou, simplesmente, por serem discutidos em blogs e páginas pessoais de intelectuais da América do Norte?

Há uma série de exemplos que demonstram o quanto nossa discussão intelectual agora engole prontamente essas noções que são produzidas no Norte. No Brasil, por exemplo, se discute slut shaming – assim, sem sequer traduzir o termo – e nós até mesmo copiamos a SlutWalk (uma passeata originalmente criada em Toronto, no Canadá), com várias Marchas das Vadias sendo organizadas em cidades brasileiras. Além disso, quantos intelectuais e celebridades não estão falando sobre o “empoderamento feminino” (neologismo feito a partir da expressão inglesa “female empowerment”), como se a palavra “fortalecimento”, coitadadinha, assim tão latino-americana, não fosse digna de um conceito importado do Norte? E quantos sites brasileiros como o Catraca Livre não copiam o formato, o conteúdo, o estilo, as opiniões e a visão de mundo de sites gringos como o Buzzfeed?

Em outra esfera, o movimento americano Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em português) surgiu em terras ianques como protesto por uma decisão judicial na qual um homem branco, George Zimmerman, foi inocentado após matar a tiros um rapaz negro desarmado. Apesar dessa decisão judicial não ter absolutamente nenhum impacto no sistema judiciário brasileiro, que, aliás é baseado no direito romano e não no direito do Commonwealth britânico, houve protestos em suporte ao BLM em cidades brasileiras e, em 2016, integrantes do movimento estavam dando entrevistas a veículos de esquerda.

E aqui faço um pequeno hiato para deixar dois avisos antes que eu seja malhado (mais que o de costume) nos comentários. Primeiro, sem dúvida, nossos intelectuais de direita pegam suas ideias diretamente de fontes estadunidenses ou da Europa ocidental, mas isso não é algo novo e, por isso, não me deixa tão assutado. Segundo, não estou criticando as ideias apontadas acima (de fato, acredito em quase todas elas), mas estou apontando o perigo de automaticamente assumirmos que elas são válidas e relevantes, sendo copiadas acriticamente para a realidade de um colosso latino-americano corrupto como o Brasil, que não apresenta praticamente nenhum paralelo com a história do país eleito pelo destino manifesto. E, agora, sigamos adiante.

De todos os conceitos importados do Norte, porém, aquele que me parece o mais distante da nossa realidade tupiniquim, sem dúvida, é o de apropriação cultural, uma noção que foi cristalizada no meio acadêmico pelo intelectual americano Goerge Lipsitz, da Universidade da Califórnia. Em seu cerne, a ideia por trás desse conceito é a de que uma cultura dominadora não deve apropriar-se de elementos culturais das culturas que ela domina, pois isso é um exercício opressor e violento contra um grupo que não pode se defender adequadamente e uma tentativa de destruir a identidade cultural do grupo mais fraco. Certamente, essa ideia é nobre e há casos indiscutíveis de apropriações culturais malignas, mas… será que essa idéia faz sentido no Brasil? Será que, porque se discute isso nos EUA, nós devemos e queremos reinventar tudo o que significa ser brasileiro?

Aqui, estou pensando especificamente na Semana de Arte Moderna de 1922 e em todo o movimento antropofágico. Conforme aprendi na escola e caiu no ENEM e no vestibular, a noção de identidade brasileira moderna está sedimentada no que os intelectuais e artistas da década de 1920 pregaram: o brasileiro não é europeu, não é índio e não é africano, mas uma mistura disso tudo, com elementos culturais que foram apropriados de todas essas fontes para serem digeridos e, então, regurgitados em algo novo.

Os pensadores desse movimento se apropriaram de uma quantidade infinita de elementos das culturas subalternas do Brasil. A mesma prática de antropofagia, que era literal entre parte das tribos indígenas do território do atual Brasil, foi adotada, de maneira figurativa, pelos artistas desse movimento. E a capa da Revista de Antropofagia, que continha o Manifesto Antropofágico, apresentava uma ilustração de uma tribo brasileira num ritual de comer um inimigo capturado.

Revista de Antropofagia

Revista de Antropofagia. Primeira dentição realizada por Oswald de Andrade em 1928.

Além disso, a produção literária, musical e de artes plásticas da época era coberta de apropriações e referências a práticas das nossas tribos: da poema indígena Canidé Ioune, que Villa-Lobos maravilhosamente musicou, passando pelo quadro Abaporu, o “homem que come gente” de Tarsila do Amaral, até chegar em exemplos ainda mais explícitos, como o romance seminal Macunaíma, de Mário de Andrade.

Bem, os indivíduos mencionados acima são considerados titãs do pensamento intelectual brasileiro e os pioneiros que, finalmente, conseguiram começar a tentar desvendar a charada do que significa ser brazuca. E eles são amplamente reconhecidos por isso: a segunda maior biblioteca do Brasil é a Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, que também contém um busto do autor de Macunaíma. O Abaporu, avaliado em 40 milhões de dólares americanos, é a tela brasileira mais valiosa que existe. Villa-Lobos, que já afirmou publicamente que “Eu não uso o folclore, eu sou o folclore.” tem parques, centros comerciais, ruas e praças nomeados em sua homenagem e a OSESP constantemente grava álbuns com seu repertório. E tudo isso, até agora, nunca despertou problemas entre os nossos intelectuais… mas e a questão da apropriação cultural?

Se aceitarmos a imposição da visão norte-americana e de intelectuais como o George Lipsitz, então é necessário destruir tudo aquilo que pensávamos sobre o brasileiro. O brasileiro não pode mais ser o resultado da miscigenação e da união de culturas. Apropriando-nos da ótica americana, devemos dividir os brasileiros entre euro-brasileiros, afro-brasileiros e brasileiros nativos e, devido à natureza desigual das relações de poder desiguais entre os euro-brasileiros e os demais, é necessário que os brancos rejeitem os elementos culturais dos outros grupos, pois apropriar-se deles seria uma maneira de destruir a essência delas.

Todo o movimento modernista brasileiro, então, seria uma farsa inventada por brasileiros de origem branca (é, eu sei que Mário de Andrade era mestiço) que se apropriaram de elementos de culturas incapazes de reagir contra eles (sobretudo da cultura nativa e da cultura afro-brasileira) para criarem entretenimento e conseguirem legitimidade e autoridade artística e intelectual. Nessa ótica, esses artistas são opressores racistas que devem, imediatamente, parar de receber a admiração da qual eles atualmente gozam.

Seria necessário, portanto, retirar o busto de Mário de Andrade da sua Biblioteca e, aliás, renomeá-la em homenagem a outra figura intelectual. O MASP deveria retirar da sua coleção a obra de pintores como Victor Meirelles, Emiliano di Cavalcanti, Candido Portinari, Claudia Andujar e denunciar esses artistas como apropriadores culturais. A OSESP deveria retirar todos os álbuns como obras de Villa-Lobos o de seu acervo e todas as casas de ópera do Brasil deveriam se recusar a tocar obras como O Guarani, de Carlos Gomes. Essa é a conclusão lógica ao qual nossos intelectuais provavelmente chegarão, assim que o processo de apropriação cultural dessa ideia norteamericana estiver completa.

E, ao fim desse processo, quando tivermos a nossa direita e a nossa esquerda intelectual lendo da cartilha norte-americana, o que seremos, então? O bom colonizado e adestrado latino-americano? Além do hard power da dependência econômica, que jamais conseguimos extinguir por completo, adicionaremos também o soft power da dependência midiática e intelectual intelectual à lista de importações que são necessárias para que sejamos livres?

Talvez… ou talvez os intelectuais da Califórnia estejam certos. Talvez a Semana de Arte Moderna de 1922, em questão de anos ou décadas, caia no lado errado da História e seja vista como uma abominação moral que jamais deveria ter ocorrido e a brasilianidade tenha que ser, novamente, reinventada.

Talvez isso seja algo bom e um avanço sincero para os direitos humanos e para toda a humanidade e este aqui que vos escreve seja só mais um dinossauro que mereça ser enterrado. Talvez. De qualquer maneira, como um dinossauro que se preze, antes de desaparecer, darei o meu melhor rugido. E que meu corpo fossilizado seja dissecado e analisado pelas futuras gerações para que elas possam aproveitar dele o que quer que seja que haja de bom – se algo restar – e que façam algo novo a partir disso… mas que não seja antropofagia, não é mesmo?

Lundu do Escritor Difícil
Mário de Andrade

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.

Misturo tudo num saco,
Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!

Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!…
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh “xavié”
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!

Virtude de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês “singe”
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.

Anúncios