Et in Arcadia…

Uma tentativa de apresentar a Arte como a afirmação da vida.

Pelo Direito à Blasfêmia.

Atenção, leitor: este artigo sofre de síndrome de Tourette!

No final de semana passado, um evento dedicado a promover desenhos do profeta Maomé, a figura religiosa central do islamismo, foi realizado em Garland, nos EUA. Durante o evento, dois extremistas muçulmanos armados chegaram ao local e abriram fogo, tentando matar um guarda desarmado, mas foram mortos pela polícia logo depois (Counter Terrorists win). Esse foi o terceiro ataque de extremistas muçulmanos especificamente destinados a combater a blasfêmia no mundo ocidental desde janeiro.

Há muitas vozes dizendo que eventos como esse são uma provocação gratuita e que nós, ocidentais, não temos o direito de ofender a religião de outrem (o Irã tem o direito, por outro lado, de fazer competições de caricaturas do Holocausto). Bem, a despeito do que as opiniões superficiais e palatáveis do senso-comum cuspam, a questão é que nós temos, sim, o direito de blasfemar gratuitamente e que esse direito foi conquistado após séculos de sacrifícios do clero e dos profanos.

Porco Deus! Lembremo-nos um pouco: durante séculos, blasfemar a cristandade não era uma questão de opinião, de boa ou má educação, mas um crime punido legalmente, inclusive, com pena de morte. Desrespeitar a religião e as figura religiosas não era uma prerrogativa do pensamento crítico ou da liberdade individual, era, simplesmente, uma heresia, uma deviação comportamental que deveria ser duramente castigada.

São Tomás de Aquino considerava que a blasfêmia era um ato pior que o homicídio, pois, se no assassinato um ser humano matava o seu igual, na blasfêmia, o ser humano direcionava sua agressividade a Deus, seu Criador e o Ser absoluto. Dante, na Divina Comédia, caminha pela mesma via: os blasfemos são pecadores que usam sua inteligência e sua vontade consciente para produzir violência contra Deus. Assim, eles são piores que assassinos e e suicidas que, respectivamente, utilizam seu intelecto e sua vontade para realizar violências contra seus iguais e seu próprio corpo. Presos no terceiro sub-círculo do sétimo círculo do Inferno, os blasfemadores sofrem, todos nus, recebendo uma chuva de fogo, como aquela que destruiu Sodoma. O único pecado que Dante considerou igual a esse era o de ser homossexual, pois, apesar de não ser uma violência direta contra Deus, era uma violência contra a ordem natural das coisas, que o Altíssimo criou. Dante explica que a punição dos blasfemos jaz em sua inabilidade de compreender a superioridade do Criador e em sua raiva impotente em tentar ofendê-Lo.Os extremistas muçulmanos, Maomé pedófilo empalado por mulheres aiúbidas menstruadas!, 700 anos depois do Sumo Poeta, acreditam que Deus possa ser ofendido por palavras bestas.

De diversas maneiras, ao longo dos séculos, o comportamento blasfemo foi severamente punido pelo cristianismo. As diversas Inquisições europeias prendiam, torturavam e matavam indivíduos que, supostamente, negavam a veracidade dos Dogmas ou que cometessem apostasia, ou seja, abandonavam a religião cristã. Também nas colônias estadunidenses as (supostas) bruxas eram enforcadas, apedrejadas e afogadas. Isso gerava muitos lols para as classes de homens branco, cristãos dominantes, mas, lá pelo século XVIII, começou a surgir o consenso de que não era uma atitude razoável matar uma pessoa por não compartilhar de sua fé. E com isso veio muita porrada.

As primeiras ideias laicas ou ateias só começaram em se materializar em larga escala com a Revolução Francesa. Cansados dos abusos da nobreza e do clero, que os Iluminados viam como exploradores do populacho, os revolucionários instauraram a Primeira República, um governo inteiramente ateu e descristianizado. Ao longo da década de 1790, o calendário foi renomeado com nomes mais racionais, uma Declaração dos Direitos dos Homens e do Cidadão foi criada e, em seu décimo artigo, defendia a liberdade de expressão, mesmo quando ela ofendesse opiniões religiosas, e, na Catedral de Nôtre-Dame, a Chama da Razão foi acendida (sérião), para lembrar que os seres humanos não se deveriam deixar atrasar pelas superstições religiosas.

charlie

“Porque o direito à blasfêmia”. Sem outra explicação.

O cúmulo, Moisés catamita atropelado por camelos encapetados!, ao meu ver, foi transformar a Catedral de Santa Genoveva, uma das maiores catedrais do cristianismo, no Panthéon, uma igreja secular dedicada à Revolução Francesa, colocando um monumento que a simboliza no lugar do altar (o lugar mais santo da igreja!), enterrando ateus como Voltaire dentro dela e, por fim, utilizando sua estrutura, com o pêndulo de Foucault, para provar que, ao contrário do que a Bíblia diz, a Terra é geoide e rotaciona. O lugar era uma catedral santa e, hoje em dia, as pessoas nem sequer são obrigadas a descobrir a cabeça para entrar no Panthéon. Isso é muito ofensivo para com os católicos. De fato, tudo isso, além de humilhar desnecessariamente os católicos, é feito para provar o quanto eles estavam errados em suas crenças. Como católico, isso me ofende profundamente e eu ficaria feliz em ver o Panthéon transformado, novamente, numa igreja. Mas, bem, isso não vai acontecer. E, quer saber, não há problema. Há outras igrejas que eu posso frequentar e minha fé não será abalada pela ação de um bando de velhos, que têm o direito de ofender, questionar e criticar minhas crenças. Muitas pessoas morreram antes de se chegar ao consenso de que é melhor poder blasfemar.

“Ah, mas as blasfêmias são ofensas gratuitas aos sentimentos religiosos das pessoas, elas são de mau gosto, elas são desnecessárias”. Sim, elas são tudo isso. Mas as pessoas podem fazê-las. Vejam o exemplo do San Culamo.

San Culamo é um grupo italiano de Porno Rock. Eles são pessoas desprezíveis e escrotas que fazem canções péssimas nas quais eles têm o único propósito de ofender o máximo possível aos demais. Uma delas é dedicada a um dos mais nobres seres humanos que viveu no século XX e começo do XXI:  São João Paulo II, o antepenúltimo papa do Vaticano.

São João Paulo II, nascido como Karol Józef Wojtyła na Polônia de 1920, é uma das pessoas mais imaculadas que viveu nos último século. Crescendo numa Europa cada vez mais anti-semita, São João Paulo II, na adolescência, era amigo de numerosas famílias judias e, inclusive, jogava futebol pelo lado hebraico na partidas entre católicos e judeus. Durante o Holocausto, ele salvou a vida de uma menina judia de 14 anos, ajudou outros judeus e escaparem da Gestapo e, como padre, se recusou a converter forçadamente um menino judeu, dizendo que ele tinha o direito de crescer e exercer sua religião.

Ao longo de sua vida como Papa, ele: visitou mais de 120 países; ajudou a derrubar o ditador haitiano Jean-Claude Duvalier; contribui à queda de Pinochet, no Chile e de Stroessner no Paraguai; denunciou o apartheid na África do Sul; foi o primeiro líder de um país a chamar o desastre de Ruanda de 1992 de “genocídio”; condenou a I e a II Guerra/Invasão do Iraque; defendeu a natureza laica dos países europeus; elogiou e incentivou o diálogo com outras religiões como o judaísmo, o islamismo, o budismo, as vertentes ortodoxas e protestantes do cristianismo e (muito importante, pois isso raramente é feito pelo líder de uma religião organizada) o animismo. Além disso, ele, em nome da Igreja Católica, pediu oficialmente e publicamente o perdão por: terem acusado Galileo Galilei; pelo envolvimento da Igreja no tráfico de escravos africanos; pela falta de ação dos católicos durante o Holocausto; pelo tratamento desigual das mulheres e pelos autos-da-fé e pelas guerras entre os católicos e os protestantes. Apesar de ter sido retrógrado em outras questões, pode-se dizer que São João Paulo II mandou bem e que o atual Santo Padre aprendeu bem com ele.

Bem, o San Culamo não vê as coisas assim. Na sua canção “Vecchio Pazzo Stronzo” (Velho Maluco Escroto), eles dizem o seguinte sobre ele:

Velho Maluco Escroto

(conversando)
-Hey, Girolamo!
-Hey, Pasquale! Deus Porco!
-Escuta, então, domingo à tarde vamos ao estádio ver o jogo do nosso time?
-Mas o que você está dizendo? Ele foi adiantado para o sábado!
-Mas como assim no sábado?
-É, no sábado. No domingo jogará outro time!
-Porco Deus!
-Cristo que vá para o Inferno!
-Caralho, eu tenho o batismo do meu sobrinho! A Madona boqueteira que vá para o Inferno!
-O batismo que vá para o inferno!
-Porco Deus! Porca Madona! Porco Deus! Porca Madona! Porco Deus &tc…
(conversando)

É um gordão
Que pesa uma tonelada
Se aproxima de janela nos domingos às 8h.

E você que fica lá embaixo
Naquela muvuca
Engole as merdas
Desse pobre cretino.

As mãos dele ficam tremendo,
Quase nem consegue ficar em pé,
Se apoia no bastão
Para não cair no chão

E fala 7 línguas [ele falava 12, na verdade]
Mas é tudo igual
Sempre a mesma pizza
De um porco hipócrita. Diga-me…

Diga-me, como caralho você faz para dizer
Que você acredita
Nesse velho
Maluco escroto.

Está no bem bom
Dentro do Vaticano,
Com mil escrotos que
Beijam a mão dele.

Colares e anéis de ouro
Que valem milhões,
Tem até um belo diamante,
Encrustado no meio dos colhões. Diga-me…

E diz merdas
Da época medieval,
Nem mesmo quando eu era criança,
Te juro, eu acreditava.

Nós estamos no ano 2000,
Ele, porém, não.
Sempre me perguntei
Mas que merda ele quer da gente?

Intolerante retrógrado
E conformista
Eu quero um Papa negro
E também comunista.

E, possivelmente,
Que não tenho 90 anos,
Nem arteriosclerose
E mais um monte de doenças. Diga-me…

Honestamente
Como você faz
Para crer num homem
Que (ele diz) nunca transou?

Ainda por cima é polaco
Com o cérebro que já virou uma papa
E que, talvez, em três anos
Ele já bate as botas.

É um velho infantilizado
Que até dá um pouco de pena
Mas, no fundo, é só um anel
De uma esquálida corrente
De padres, cardeais, bispos,
Politicantes
Corrompidos até o osso
Mas com máscaras de santo. Diga-me…

Diga-me, como caralho você faz para dizer
Que você acredita
Nesse velho
Maluco escroto.

Essa é provavelmente a canção mais ofensiva e mais injusta que eu já ouvi. Maria circuncidada numa bar mitzva xiita!, tenho vontade de colocar os membros do San Culamo num quarto e cuspir na cara deles. Mas, bem, isso seria pouco civilizado. E é aqui que eu vejo um problema sério com quem condena as pessoas por trás da exposição que eu mencionei, do jornal Charlie Hebdo, do Muhammad Sex Simulator, do Dia de Desenhar Maomé &ct.

O comportamento civilizado não consiste em jamais ofender ninguém, mas sim em ser ofendido e não reagir com violência. A liberdade de expressão não termina lá onde começam os sentimentos das outras pessoas, mas sim onde ela convoca ao ódio entre grupos. A civilização ocidental não errou e tropeçou por séculos para regredir em suas conquistas laicas e a covardia que clama por segurança é a mesma que sufoca a liberdade. Não foi para isso que pessoas como Voltaire viveram e morreram.

Piss Christ, 1987, André Serrano. É um crucifixo imerso em urina. Muitas cristão choraram sangue ao ver isso, mas ninguém foi agredido ou morto.

Piss Christ, 1987, André Serrano. É um crucifixo imerso em urina. Muitos cristãos choraram sangue ao ver isso, mas ninguém foi agredido ou morto.

Aqui surge outro problema. Como, de maneira geral, a vida no Ocidente (sobretudo para os mais abastados) melhorou constantemente ao longo dos séculos, desde a Idade Média, tem-se a noção de que, automaticamente, tudo melhora. Antigamente, havia escravidão; hoje, ela não existe. Antes, mulheres não podiam votar; agora (não na Arábia Saudita lol) elas votam. Outrora, tínhamos monarquias absolutas e ditaduras; agora nós elegemos nossos representantes. Em outros tempos, as pessoas morriam de cólera e tuberculose; hoje temos antibióticos e analgésicos. É sempre melhor nascer depois do que nascer antes, pois tudo, naturalmente, evolui para o melhor. Logo, na mesma narrativa, precisamos proibir as blasfêmias para proteger as minorias (ou maiorias!) que antes eram perseguidas. Esse é o decorrer natural do progresso da História.

Bem, nem tudo melhora automaticamente sempre. Além disso, apesar de nossos anseios de ordem, a História, uma mera invenção antropológica, não é linear, não segue um percurso, não tem fim, nem propósito. Fatos e eventos simplesmente ocorrem e, em nossa imaginação, os ordenamos e traçamos uma narrativa para eles. Por isso, não podemos passivamente observar enquanto conquistas sociais de duzentos anos são rasgadas em nome… em nome de quê? Em nome de Deus? Deus que me perdoe, (e vou orar A Flecha de Ouro para isso), mas a liberdade de expressão é sagrado e censurar é pecado mortal.

TL;DR: Seus sentimentos não estão acima da liberdade de expressão.

Edição: muitos leitores me mandaram mensagens dizendo que  se sentiram ofendidos pelas blasfêmias deste post. Convido todos que se sentiram ofendidos a clicarem neste link para que possam relaxar e encontrar um conteúdo menos ofensivo.

Socialismo, ditaduras e outros contos de fada no Labirinto do Fauno

Contos de fada não foram feitos para crianças. Não só para crianças, pelo menos. De fato, quando os irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm publicaram os Contozinhos para Crianças e para o Lar – aqui conhecidos como “Contos de Grimm” – em 1812, eles foram recebidos com uma enxurrada de críticas pelo conteúdo perturbador devido a episódios de violência, relações sexuais, canibalismo e infanticídio dos contos. Ao longo das décadas, os irmãos Grimm realizaram uma série de intervenções nos contos para retirar esses episódios violentos, e, somente após dez edições diferentes e a remoção de dezenas de contos, eles chegaram, em 1858, à versão definitiva que hoje conhecemos.

Guillermo del Toro, o diretor de cinema mexicano, decidiu seguir a tendência contrária, por outro lado, ao criar O Labirinto do Fauno: um filme que deveria ser como um conto de fadas, mas que é irreversivelmente arrasado por cenas de mortes, violência, desesperança e futilidade.

O filme se passa em 1944, cinco anos após a vitória franquista da Guerra Civil Espanhola, e narra a história de Ofélia, uma menina de 9 anos cuja mãe, após a morte do primeiro marido na guerra, casa-se com o falangista Capitão Vidal, levando a família inteira a morar num vilarejo entre as montanhas de alguma região espanhola. Lá, o Capitão espera conseguir honrar a memória de seu pai, um militar de renome, acabando com a resistência republicana na região e, talvez, morrendo em combate.

A vida nesse vilarejo é um pesadelo para a pequena Ofélia, no entanto. Ela odeia o padrasto, e o Capitão, por sua parte, só se interesse em exterminar os guerrilheiros da região e em que o filho de sua mulher grávida nasça logo. De fato, ele é morbidamente cruel e aterrador com todos à sua volta chegando, num episódio, a matar um jovem camponês com garrafadas na cara pela suspeita infundada de que ele fosse um guerrilheiro. O único refúgio do menina são os livros de contos de fada que ela possui e que, para o desgosto de seus pais, ela insiste em ler.

Uma certa noite, Ofélia está em sua cama quando uma fada a visita e a leva para um labirinto num canto da propriedade. Lá, ela encontra um fauno mágico que afirma que, na verdade, Ofélia é a Princesa Moanna, a monarca do Mundo Subterrâneo, e que ela se tornará imortal e governará num palácio se ela completar três simples tarefas. Essas tarefas devem ser completadas nas três noites seguintes, antes que a lua fica cheia, ou ela perderá para sempre tal oportunidade.

A partir desse momento, Ofélia passa a sair escondida de seu quarto completar as missões do Fauno, sendo a primeira delas, matar um sapo que, pelo seu desejo de comer insetos, está envenenando uma árvore, uma provável alusão ao papel do Exército numa ditadura militar. Paralelamente, os habitantes da casa, como a empregada Mercedes, cujo irmão é guerrilheiro, e o médico Dr. Ferreiro, simpatizantes dos republicanos, também saem escondidos da casa para completar missões de auxílio à resistência anti-franquista, como levar cartas, chaves, alimentos e medicamentos à milícia escondida nas montanhas.

"Shhh... no tears now, just dreams. Unrustle your jimmies."

“Shhh… no tears now, just dreams. Unrustle your jimmies.”

As missões, tanto as de Ofélia quanto as do simpatizantes, começam a dar errado, no entanto e as coisas vão de mal a pior. Na sua segunda missão, a menina deve conseguir um chave sem ser descoberta por um monstro. Devido a um deslize, porém, ela acaba sendo descoberta e suas fadas ajudantes morrem. Ao mesmo tempo, deslizes de Mercedes e do médico da casa entregam o fato de que eles estavam fornecendo suprimentos e ajuda à resistência. Pelo seus erros, a criança escuta do Fauno que ela perdeu para sempre a oportunidade de se tornar a princesa, o Dr. Ferreiro é morto a tiros pelo Capitão e Mercedes é presa num celeiro, para ser torturada. Enquanto isso, a mãe de Ofélia jaz morta, após ter dado à luz um menino.

O Capitão julga que Mercedes não seria nenhuma potencial ameaça e decide torturá-la sozinha. A jovem trazia, no entanto, uma faca de cozinha escondida em seu avental e, após dilacerar o rosto do militar, ela foge para as montanhas, em busca de seu irmão. Ela jura voltar para salvar Ofélia de seu padrasto, numa missão final com a resistência.

O militar descobre que Ofélia estava ciente das atividades clandestinas de Mercedes e tranca a menina em seu quarto, sem que ela possa fazer nada para sair de lá. Para sua surpresa, então, o Fauno a visita e decide que a dará mais uma chance, com a condição de que ela o obedeça sem questionar absolutamente nada. Diante de sua afirmativa, a criatura mágica dá-lhe um giz mágico que lhe permite criar uma porta pela qual fugir e diz-lhe que ela deve pegar o filho recém nascido do capitão e levá-lo ao labirinto onde eles se conheceram. A menina, então, droga o Capitão e foge para o labirinto. Sem embargo, apesar de estar dopado, o militar consegue segui-la.

Enquanto Ofélia foge, Mercedes retorna com a milícia e eles começam um ataque furioso na casa, queimando e destruindo tudo e matando todos os soldados franquistas. A menina consegue levar o bebê ao Fauno no meio do labirinto, mas ela descobre que, para viver eternamente e tornar-se a princesa do Mundo Subterrâneo, ela terá que sangrar o recém-nascido com um punhal, pois só o sangue de um inocente pode realizar a magia. O Fauno a alerta que ela perderá tudo se ela se recusar, mas ela não o obedece. Ao virar-se de costas, ela vê o Capitão, que, após tomar em seus braço o bebê, mata Ofélia com um tiro na barriga.

Ao sair do labirinto, ele encontra Mercedes, seu irmão, e um bando de guerrilheiros republicanos armados. Ele entrega seu filho à Mercedes e pede que lhe contem, quando ele crescer, que ele morreu um soldado, assim como seu pai. Ele simplesmente ouve que a criança sequer saberá seu nome e morre com um tiro na cabeça. Mercedes corre para dentro do labirinto para buscar Ofélia, mas ela já está morta e seu sangue cai dentro de um poço iluminado pela lua cheia.

Mercedes junta-se ao seu corpo e começa a cantar. Ao som da música, descobre-se que o Fauno estava testando Ofélia e que ela passou pelo teste, pois, quando recusou sangrar o bebê com um punhal, ela preferiu derramar o próprio sangue a derramar o de um inocente. Como recompensa, ela se tornou a Princesa Moanna e, ao lado de sua mãe e de seu pai, ela reina por séculos e séculos no Mundo Subterrâneo.

Após assistir o filme, fiquei tentando descobrir se as visões de Ofélia eram reais ou não. Ela é a única pessoa que vê o Fauno e as fadas e todos os adultos do filme lhe dizem que contos de fadas não são reais e que ela precisa entender que o mundo não tem magia. Após passar um tempo medindo se o Reino Subterrâneo era real ou não, entendi que isso era irrelevante, pois não era disso que o filme tratava.O filme estava falando de contos de fadas dos adultos.

De fato, não por acaso, o filme se passa cinco anos após o fim da Guerra Civil Espanhola e a vitória republicana. Como o filme foi lançado em 2005, o espectador sabe bem que a resistência foi completamente exterminada e que Franco ficou 35 anos no poder, até sua morte. Não havia qualquer esperança que um bando de idealistas armados, escondidos em bosques nas montanhas, pudessem mudar qualquer coisa. De fato, vários personagens, sobretudo os milicianos, afirmam que a resistência é inútil, pois, mesmo que eles matem o Capitão, logo alguém o substituirá e as coisas permaneceriam como antes.A esperança deles de que eles possam mudar algo é tão infundada como a crença de Ofélia que ela poderia usar magia para se libertar de sua situação. Nesse sentido, os dois estavam vivendo contos de fadas.

Nesse contexto, o ideal socialista da milícia é só um devaneio, uma utopia irrealizável, um falanstério que alguém idealizou mas que jamais teve vida fora da tinta e folha de livros. E, de fato, o espectador do novo século, ao ver esse filme, sabe que todas as revoluções socialistas falharam, seja por serem militarmente derrotadas antes de subirem ao poder, ou porque subiram ao poder, mas devido à sua execução autoritária e sua ineficiência econômica, desabaram sob seu próprio peso, da União Soviética e Angola e  à Coreia do Norte e Iugoslávia. Tudo isso foi uma quimera consumiu-se dentro de si mesma.

Todo conto de fadas tem um vilão, no entanto. Fiquei pensando, ainda dentro da mesma metáfora, qual seria o antagonista dos iludidos socialistas. Bem, nesse caso, os violões são os mantenedores do status quo, ou seja, os tradicionalistas, monarquistas, eclesiásticos, defensores do livre-mercado e os militaristas. Nesse ponto me lembrei do que o Dr. Ferreiro, no filme, disse antes de morrer: “Obedecer por obedecer… assim, sem pensar… isso só o fazem pessoas como você, Capitão.” Em suma, talvez acreditar que as coisas são como são hoje, simplesmente porque elas estão desta maneira, possa ser algo ruim.

Sem concluir nada em absoluto com esse filme confuso, pensei que talvez Guillermo del Toro não seja um bom autor de contos de fadas. A violência da maior parte dos contos de fadas nos ensina que obedecer é algo bom e que as as crianças desobedientes são punidas e perdem a inocência. O diretor mexicano usa a violência dos contos de fadas para nos dizer o contrário, que obedecer é algo ruim e que a recusa preserva a inocência. Ele precisa de uma boas palmadas de um pouco mais de Contos de Grimm.

TL;DR: “Por meio de nossa própria inocência recuperada, nós descobrimos a inocência de nossos vizinhos”. Henry David Thoreau.

“Mau por natureza. E você me fez assim.”

Hora da Aventura, (ou Hora de Aventuras, se você almoçou bacalhau ou funge ao invés de feijoada) é um desenho animado exibido pelo canal Cartoon Network. Por ter uma trama surrealista e geralmente nonsense, mais ou menos como Bob Esponja Calça Quadrada, é difícil explicar do que ele trata exatamente, mas pode-se dizer que Hora da Aventura narra a história de um garoto humano chamado Finn e seu irmão/cachorro mágico Jake e que, juntos, eles participam de uma série de aventuras, protegendo o Reino Doce, onde tudo e todos são feitos de açúcar, de bruxos malvados.

Pois é. Não é nada de excepcional. Por conta disso, nerds com barba no pescoço e blogueiros de final de semana que assistem esse desenho tomam bastante cuidado em realizar análises prolixas e supostamente profundas de seus episódios para que, quando eles sejam surpreendidos assistindo desenhos animados, tenham algo com o que se defender. Portanto, vamos lá. É hora da aventura do malabarismo filosófico!

Além de Finn e Jake, Hora da Aventura tem outros personagens importantes. O Reino Doce é governado pela Princesa Jujuba. Nos primeiros episódios, ela parece ser uma princesa justa e bondosa, mas, conforme a série vai progredindo, percebe-se que ela é uma déspota louca por controle, que espiona todos os habitantes do seu reino (que aliás, ela sintetizou em laboratórios), realiza prisões sumárias e sem julgamentos e tem um senso de moral utilitarista que atropela qualquer apelo ao sentimentalismo. Além disso, ela é uma cientista cujas ambições de descobertas não são freadas por questionamentos éticos. E, de fato, num de seus experimentos fracassados, ao tentar criar pessoas doces como os habitantes do Reino Doce, ela, sem querer querendo, criou o Conde de Lemongrab. Mary Shelley mandou um beijo.

O Conde é, literalmente, um limão siciliano (ou um limão, se você tomou vinho verde ou cachipembe ao invés de caipirinha) e, como tal, tem uma personalidade azeda, irritante e cruel com os demais. Ele não entende e não respeita o jeito doce de ser e é incapaz de conceber o mundo como um local agradável e açucarado. Em função disso, ele é banido do Reino Doce e tem de governar seu próprio reino, o Condado de Lemongrab. Em pouco tempo, a maneira atroz dele governar deixa condado parecido com Leningrado sob o cerco nazista e todos seus habitantes morrem.

Após esse desastre, o Conde retorna ao Reino Doce e pede à Princesa Jujuba que lhe forneça mais colonos. Irritada, ela diz que não consegue entender porque ele arruína tudo e não se dá bem com ninguém. Nesse momento, Lemongrab surta, se joga de uma torre, arranca suas roupas e começa gritar que: “Ninguém me entende… eu sou sozinho e você me fez desse maneira. Você me fez! Você me fez! Você… é… meu Deus. Você é meu Deus!” Aqui, é importante parar e mencionar que, na versão original em inglês, ele diz “You’re my glob!”. “Glob” – assim como “bleu”, ao invés de “Dieu”, em francês – é uma maneira de se evitar dizer “God”, para que a linguagem do desenho fique mais infantil. Isso fornece uma ambiguidade poética ao discurso de Lemongrab e uma negação plausível para que se possa dizer que não se estava tentando discutir o papel do Deus criador num desenho animado feito para crianças.

E Elohim criou Adão, 1795. William Blake.

E Elohim criou Adão, 1795. William Blake.

Ao longo desse episódio, a questão fica ainda ainda mais complicada. O Conde de Lemongrab diz que, olhando no coração-limão que ele recebeu de sua criadora, ele sente que as coisas que ele faz não podem ser erradas. Ele também passa a questionar se o modo limão de ser não poderia, quem sabe, ser melhor que o modo doce de ser. A Princesa Jujuba diz que pode ajudar Lemongrab a parar com esse comportamento e, já sem paciência, o Conde retruca que: “Foi você quem me fez assim! Como você poderia me ajudar?“.

E, se de fato, o ser humano é criado perfeito, como é possível, então, que os instintos humanos que sentimos, como impulsos de reprodução e de violência, que têm origem em nossa condição humana, possam nos enganar ou possam estar errados? Se o ser humano é criado de maneira perfeita, então seus desejos sombrios e malvados não são, por ende, perfeitos? Pois seria um atentado à lógica assumir que, do perfeito, se criaria o imperfeito e vice-versa. E a questão do papel de Deus no aperfeiçoamento do homem também é problematizada no episódio. Se  Deus criou o homem de maneira imperfeita, como Ele mesmo seria capaz de consertá-lo? Ou Ele é impotente  e não consegue criar um homem perfeito, ou não é benevolente, pois cria um homem, mesmo sabendo que  ele sofrerá com a sua capacidade de ser mal. Diante disso, como Lemongrab diz, o homem ficaria melhor sem Deus, pois ele não pode ou não quer consertar a humanidade e, agora, o ser humano deve entender que ele estará sozinho e sem respostas no mundo.

Esse episódio de Hora da Aventura não acaba em tons tão sombrios, porém. A Princesa Jujuba decide clonar o Conde e, dando-lhe um igual, ele fica satisfeito em morar em Lemongrab. Bem, alguns episódios depois, as coisas dão errado de novo e, depois que o próprio Conde tenta criar pessoas-limão para o seu reino, a princesa realiza uma lobotomia nele. Mas isso ficará para outro post.

Depois de ver esse episódio umas três vezes, e temendo  que meus colegas intelectuais me retirassem o direito de usar boina e cachimbo, achei que compensaria essa gafe de assistir um desenho animado indo à ópera. Para minha redenção, dá-se o fato que, sob John Neschling, o Theatro Municipal de São Paulo está exibindo Otello de Giuseppe Verdi. Todo mundo sabe que Otello vale o dobro de pontos intelectuais, porque, tipo, é Giuseppe Verdi e Shakespeare juntos.

Bem, logo no começo do segundo ato, quando o tenor Gregory Kunde começou a cantar a aria “Credo in un Dio crudel” (Creio em um Deus cruel), não consegui tirar os gritos de Lemongrab da cabeça:

Creio em um Deus cruel

Vá embora! A tua meta eu já vejo
Te impulsiona o teu demônio
E o teu demônio sou eu,
E me arrasta o meu,
No qual eu creio
Inexorável Deus:

Creio em um Deus cruel
Que me criou semelhante a si
E que, na ira, eu nomeio.
Da vileza de um gérmen
Ou de um átomo vil eu nasci.
Sou perverso porque sou homem
E sinto a lama originária em mim.
Sim! Esta é a minha fé!
Creio com firme coração,
Assim com a crê a viuvazinha na igreja,
Que o mal que eu penso
Que de mim procede
Pelo meu destino eu cumpro.
Creio que o justo é um ator que tira sarro
Com seu rosto e seu coração;
Que tudo nele é mentiroso,
Lágrima, beijo, olhar,
Sacrifício e honra.
E creio [que] o homem [seja um] jogo de iníqua sorte
Do gérmen ao berço,
Ao verme e à sepultura.
Vem, depois de toda essa zombaria, a Morte.
E depois?… E depois?
A Morte é o o Nada.
Histórias de velhinhas é o Céu.

Aparentemente, somos isso mesmo. Por inclinação natural ou vocação adquirida, que seja, somos maus…

E, bem, de volta em casa, trancado no quarto e com fones de ouvido, coloquei mais alguns episódios de Hora da Aventura. Nele, Marceline a Rainha-Vampira – uma personagem que afirma que, após ter vivido mais de mil anos, qualquer código de moralidade perdeu sentido para ela – conversa sobre o que é certo e errado com a Princesa Caroço. A Princesa lhe pergunta se ter feito uma série de ações ruins a torna numa pessoa má. Marceline responde? “Hm… provavelmente não. Eu não acho que existam pessoas ruins. Eu acho que pessoas boas fazem coisas ruins às vezes e que, ah, isso é ruim.” Bem, então não precisamos ficar desconsolados.

TL;DR: Tudo bem assistir desenho se você for à opera de vez em quando. E tudo bem vacilar de vez em quando.

“Sou rico, branco e lindo e faço o que eu quero.”

Há várias maneiras de se definir liberdade. Além da definição de dicionário – como “agir de maneira desimpedida”, podemos utilizar conceitos filosóficos e sociológicos para esse propósito.

Podemos nos inspirara em Sartre e dizer que somos condenados à liberdade de escolha e que, portanto, não podemos não ser livres e não temos como fugir de nossa liberdade. Ou podemos voltar alguns milênios e encontrarmos Diógenes de Sinope, o filósofo Cínico da Grécia antiga. Ele acreditava que a verdadeira liberdade consistia em viver acima e além das mesquinhezas da sociedade, como um punk, desprezava todas as normas, convenções e bens materiais da tidos em estima pela sociedade que, aos seus olhos, não cumpriam nenhum propósito se não o de corromper e escravizar o espírito humano. E, de fato, além de desprezar os poderosos, como Alexandre Magno, ele vivia num barril, comia restos de comida e, como um cachorro (“cínico” significa “canino” em grego) ele fazia os números 1, 2 e 3 nas ruas, ou seja, ele urinava, defecava e masturbava-se no ágora. lol

Mas, nada disso!, eu fui ao cinema assistir “50 Tons de Cinza” e, então, fui  introduzido a um conceito de liberdade inteiramente inovador e que me agradou muito mais que as chatices desses velhos comunistas esquizofrênicos: ser livre é ser rico, branco e lindo para que se possar fazer o que quiser. Explico-me.

Comumente, os conceitos de liberdade pressupõem ou algum grau de independência dos valores vigentes na sociedade ou alguma forma de respeito à identidade alheia, como afirmar que a minha liberdade termina lá onde começa a de outrem. “50 Tons de Cinza”, porém, atropela essas conceitos antiguados. Se eu sou branco, rico e lindo e, portanto, atendo às expectativas mais exigentes da sociedade, então eu posso vencer a liberdade dos outros e nada mais me limita. Isso porque – se o leitor viveu os últimos anos como ermitão e não sabe sobre o que tratam esse filme o livro que o originou, saiba que seu enredo será revelado – Christian Grey, o protagonista, compra conquista o corpo coração de Ana Steele unicamente pelo fato dele ser rico, branco e lindo. Nem estou exagerando, o filme é ruim nesse nível.

Não há cortejo, não há diálogos interessantes, não há explosão química de personalidades, não há cenas românticas antiguadas alla Errol Flynn. Na verdade, não há qualquer explicação ao fato de que Ana Steele se apaixona por Christian Grey. Por um acaso, ela entra em seu escritório, observa seus atributos de carteira, pele e rosto e SHAZAM! está apaixonada. Para mim, esse “detalhe” foi a a parte mais problemática da narrativa inteira de “50 Tons de Cinza”: sem qualquer desenvolvimento narrativo ou explicação razoável, como um acidente natural, Ana se apaixona genuinamente e perdidamente por Christian. E o expectador que se conforme ou que teça na sua cabeça alguma narrativa que coloque as coisas no lugar.

Ora, a mensagem disso tudo é bem clara: mulheres são naturalmente e irreparavelmente dadas à hipergamia e os homens não tem culpa (ou alternativa) se não a de aproveitar dessa inclinação natural feminina. Como recompensa por prover caverna, caça e fogo, o homem pode fornicar, ou deixar de fornicar, e bater na sua mulher. O próprio ato sexual bilateral com a mulher, nesse filme, é reduzido e definido a um contrato impresso que, com algumas cessões de misericórdia à mulher, torna Ana no butim de guerra de Christian. Até nunca mais Anaïs Nin, adeus Simone de Beauvoir.

Num auto-exame de sobriedade, ponderei que o fato de que esse fanfic da série Crepúsculo romance foi escrito por uma mulher e que ele esteja fazendo um estrondoso sucesso entre o público feminino deveriam significar que, na verdade, não há nada de errado em seu enredo e que estou distorcendo as coisas. Eu bem que gostaria que fosse assim, mas acredito que a questão aqui seja mais primordial. O que se vê no filme é que ser branco, rinco e lindo, além de perdoar defeitos de personalidade que não seriam perdoáveis em gente pobre, feia e de outras etnias, dá direito absoluto sobre uma mulher.

O que desprende disso é uma inversão completa de todas as noções de liberdade que os filósofos e teólogos discutiram durante décadas. Ser livre é dominar, seja o corpo de uma mulher virgem ou os pobres de uma cidade. Ser livre é exercer poder sobre os demais e ter cada um de seus caprichos atendidos sem nenhuma consequência. Ser livre, portanto, é render-se aos piores instintos, inseguranças e preconceitos que provêm do âmago de seu ser e também do consenso dos fatos sociais. Relembrando esta postagem de 2013, ser livre, como se vê nesse filme, em suma, é ser um estúpido e amar é comprar e ser comprado.

O Triunfo da Riqueza, de Hans Holbein, o Jovem. (1532-1534).

O Triunfo da Riqueza, de Hans Holbein, o Jovem. (1532-1534)

E, do outro lado da narrativa, ser amado é nada mais que acovardar-se diante dos poderosos e tornar-se seu objeto sexual e sua posse bem guardada, ou melhor, bem isolada. Diferentemente do conceito de amor romântico, ou, até mesmo, do amor cavalheiresco medieval, a função da pessoa amada é a de estar em reclusão perpétua, esperando a vinda do amante poderoso, para que se possa satisfazê-lo. Em outras palavras, amor nesse filme é síndrome de Estocolmo, que responde à pergunta secular de Camões: “Mas como causar pode o seu favor/ Nos mortaes corações conformidade, /Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?” com um “porque eu sou poderoso”.

innocence-preferring-love-to-wealth-1804

Inocência preferindo Amor à Riqueza, de Pierre-Paul Prud’hon (1804)

E, apesar de tudo, sou da opinião de que vale muito a pena assistir esse filme. Isso porque a forma grotesca como ele exalta tudo aquilo que durante séculos intelectuais, pensadores e artistas tentaram denunciar é a melhor forma de se entender a necessidade da resistência artística, do questionamento intelectual e da denúncia social. Nesse sentido, paradoxalmente, esse “50 Tons de Cinza”, de maneira inadvertida, argumenta melhor que Sartre e Diógenes. Ah, e também rola peitinho.

TL;DR: Você pode fazer e ser tudo o que você quiser. Só lembre-se de nascer da maneira correta e ter um cartão de crédito platinum.

Guerra, a única higiene do mundo

“Não existe beleza, senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para reduzi-las e prostrá-las diante do homem. (…) Nós queremos glorificar a guerra – a única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutor dos libertários, as belas idéias pelas quais se morre e [só de quebra] o desprezo pela mulher.”

Estes são só alguns dos pontos do Manifesto Futurista que o italiano Filippo Tommaso Marinetti publicou há 106 anos, a 5 de fevereiro de 1906. Alguns anos mais tarde, na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os antigos ideais de guerra cavalheiresca, com ginetes encouraçados de lanças e elmos cintilantes, foram rapidamente destroçados pelo fogo das metralhadoras, granadas de mão e artilharia de longa distância, que reduziram o ímpeto e o movimento da guerra antiga a uma morte lenta, dolorosa e sufocante na lama das trincheiras salpicadas de corpos humanos despedaçados e temperadas com gás mostarda. Hoje, nós sabemos disso e, portanto, conseguimos imaginar os futuristas que apoiaram esse manifesto com uma tremenda cara de bunda. Naquele momento, no entanto, havia poucas vozes que não faziam coro às virtudes da guerra e que não clamavam pela sua vinda.

Àquela época, a guerra ainda era visto como algo positivo para a humanidade e muitas pessoas achavam que ela ajudaria a livrar os jovens da época de vícios como o alcoolismo, a vagabundagem e a libertinagem sexual. O livro A Beleza e a Dor: uma história íntima da Primeira Guerra Mundial, escrito pelo sueco Peter Englund e publicado no Brasil no ano passado pela Companhia das Letras, mostra o ponto de vista de pessoas de diversos estratos sociais e de diversos países antes, durante e após a guerra. A aprovação da guerra era quase unânime: idosos achavam que os jovens tinham uma conduta libertina porque não sabiam o que era o trabalho duro de verdade, algo que aprenderiam na guerra; jovens achavam que a Primeira Guerra Mundial seria o acontecimento do século e que seria a maior idiotice não aproveitar essa oportunidade única de ir fazer história; jovens mulheres, participando como motoristas, enfermeiras ou pilotos, viam a guerra como uma oportunidade de mostrarem seu valor ao mundo e dar nova vida ao feminismo internacional; algumas correntes artísticas e intelectuais, por fim, viam esse conflito como uma oportunidade de renovar o mundo e prepará-lo para a revolução, seja ela fascista ou socialista. Enfim, todos queriam a guerra… até que ela veio de verdade.

"Seja honesto consigo mesmo. Tenha certeza que sua assim chamada razão não seja uma desculpa egoísta."

“Seja honesto consigo mesmo. Tenha certeza que sua assim chamada razão não seja uma desculpa egoísta.”

E quando ela veio, uma nova sinfonia de dores e lamentos se faz ouvir em todas as artes. Há uma grande quantidade de romances, telas, peças de teatro, canções e filmes que retratam o que ela causou. Um dos mais emblemáticos é o romance “Nada de novo no fronte ocidental” do alemão Erich Maria Remarque. Nesse livro pacifista, que Hitler posteriormente mandaria ser queimado em praça pública, sob a acusação de ser derrotista e contra a nação alemã, Remarque conta com detalhes como o êxtase inicial de se alistar no exército com seus amigos se torna rapidamente numa realidade cinzenta e horripilante.

Ele narra a história de Paul Bäumer, um jovem alemão que, incentivado pelo professor do colegial a se alistar, decide embarcar nessa aventura com seus colegas de classe. Logo ao começar seu treinamento, ele começa a enxergar todas as expectativas que ele tinha sobre a guerra se desmancharem. Honra, lealdade e coragem dão lugar a corrupção, traição e letárgica covardia. Seus dias no fronte são o mais puro tédio, recheados de tarefas repetitivas como cavar trincheiras e limpar armas, com breves interrupções de momentos de puro terror, como um ataque inesperado de gás, ou um bombardeio surpresa.

Com o apoio que ele recebe de um soldado mais experiente, Stanislaus Katczinsky, ele aprende dicas importantes para se manter vivo e alimentado. Após alguns anos nas trincheiras, Bäumer já viu de tudo: colegas serem explodidos por artilharias e terem seus membros pelados presos a árvores; soldados inexperientes, sem saber utilizar corretamente as máscaras de gás, serem consumidos pelo gás mostarda e, cegos, agonizarem por semanas antes de terem uma morte horrível, clamando por suas mães, em macas de hospitais de campo; crânios fragmentados por explosões e outras coisas corriqueiras da guerra.

Apesar de todos os cuidados que Bäumer toma, seus camaradas, bem como seus valores vão morrendo, paulatinamente, um a um. Por fim, dias antes do fim da guerra, por uma banal explosão de granada, Katczinky, seu amigo e mentor, morre. A este ponto, toda sua fé na decência humana já tinha sido consumida, tudo perde seu sentido e seu próprio instinto de sobrevivência acabava sendo inibido: sem mais prospectivas de que nada possa melhorar, Bäumer se deixa morrer. No dia de seu óbito, o comunicado oficial do exército alemão diz que não houve nada de novo no fronte ocidental.

Hoje, podemos entender que a Primeira Guerra Mundial foi um tremendo erro. No seu início, no entanto, ela parecia uma ótima ideia. E, hoje, temos a certeza de que jamais nos deixaremos errar de maneira tão profunda novamente. E é aqui que eu sinto meu intelecto e meu coração vacilarem.

Há uma campanhas de abaixo-assinado na internet, com suas milhares de assinaturas, pedindo para “determos” o Estado Islâmico. “Determos” não significa absolutamente nada na realidade. Não se detém um exército, pois um exército não é uma abstração intelectual. O que se faz é matar, explodir, metralhar, queimar e desmembrar pessoas. Não podemos conclamar a guerra-sabonete que vai “limpar” esses rebeldes do mapas, pois essa ideia agradável não tem contraparte real no mundo concreto. O que podemos fazer é mandar tropas que vão matar e destruir até que os extremistas islâmicos se rendam, ou sejam mortos até o último fanático. Estamos todos empolgados com a ideia de “detê-los”, mas será que sabemos qual será o custo real disso para todos?

Não me entendam errado, considero que combater o Estado Islâmico seja tecnicamente possível, politicamente necessário e moralmente justo. Só temo, como os futuristas de 1906, acabar com uma cara de bunda daqui a alguns anos, pois, mesmo com todo nossos recursos técnicos, não sabemos medir a dor que causaremos nos demais. E, com belos discursos, acabaremos mandando milhares de Paul Bäumer para sua morte. E quem terá a coragem de medir as vidas na balança para tomar essa decisão?

Sou uma criatura
Giuseppe Ungaretti
(Fronte Italiano, Valloncello, 5 de agosto de 1916)

Como esta pedra
Do [monte] San Michele
Tão fria
Tão dura
Tão seca
Tão refratária
Assim totalmente
Desanimada

Como esta pedra
É o meu pranto
Que não se vê

A morte
Se desconta
Vivendo

TL;DR: A guerra é a única higiene do mundo, mas fazê-la suja, e muito, as suas mãos.

Café com leite

Está-se falando muito sobre liberdade de expressão ultimamente, em virtude dos ataques terroristas que ocorreram na França neste mês. Há vários pontos que foram tocados como o direito à blasfêmia, o antisemitismo e a noção de que a liberdade de expressão seria, secretamente, uma ferramenta para oprimir as minorias ao redor do mundo (o terrorismo seria a contraparte opressora não-secreta delas).  Os fiéis droogs que acampanham este blog sabe que o autor tem uma forte inclinação para participar das inúteis perigosíssimas brigas de teclados da internet (se lembram quando eu disse que não havia problema em xingar a chefe de Estado?). Desta vez, porém, o seu intrépido galante gladiador da internet vai se ater a somente um ponto: a relutância em ofender o Outro é a forma mais vil de antropocentrismo.

Os valores das sociedades ocidentais, há mais de um século, já foram repetidas vezes demolidos sem qualquer misericórdia. Dos dadaístas vestidos de freira fazendo poesia com recortes de jornais e surrealistas pintando os desejos mais deturpados da mente humana até South Park fazendo um vídeo no qual Jesus e George Bush, com outros americanos, defecam uns nos outros e na bandeira americana, além, é claro, do pedaço de lixo da obra arte chamada “Piss Christ”, na qual um crucifixo é imerso num recipiente cheio de urina. Nada mais é sagrado, além da noção sagrada de se poder criticar, e não existe qualquer garantia de que, por qualquer – ou nenhuma – razão, você não seja grosseiramente avacalhado em nossa sociedade.

Nós produzimos filmes como Laranja Mecânica, que escancaram a sede de sexo e violência do ser humano, e ainda fazemos um musical, Jesus Cristo Superstar, com o Redentor de nossa civilização. Lars von Trier, que disse “de brincadeira” ser nazista, faz uma trilogia de filmes grotescos sobre caos, sexo, niilismo desconcentrantes, inclusive, nomeando o último de “Anticristo”. George Brassens canta uma canção na qual compara exibir seu pênis em público à procissão do Santíssimo Sacramento numa igreja, além de dizer que pegou um padre realizando sexo oral na sua namorada. A pessoa ocidental é anestesiada contra tudo isso e, na arte, praticamente nada mais é capaz de nos ofender a um ponto que tenhamos que pedir para censurar algo,nem a abominação que apresento abaixo. Em suma, nós temos um queixo duro.

Linhas de 10 polegadas feitas nas cabeças de dois viciados, que receberam uma dose de heroína em troca. Santiago Serra, 2000. Em exposição temporário no Centre Pompidou em Paris.

Linhas de 10 polegadas feitas nas cabeças de dois viciados, que receberam uma dose de heroína em troca. Santiago Serra, 2000. Em exposição temporária no Centre Pompidou em Paris. (não, não são atores e, não, Santiago Serra não foi preso nem censurado por ter feito isso)

Agora, dado esse show de horrores que apresentei acima, há muita gente #nãosendocharlie criticando o revista Charlie Hebdo, por ofender minorias e, mais em pauta no momento, muçulmanos. Ou seja, demolir da maneira mais vil, blasfema, ofensiva, chocante, provocadora e gratuitamente repulsiva todos os valores da nossa sociedade e religião é algo não só aceitável, mas fruto de um intelecto aguçado, enquanto que, independentemente da razão por trás disso, satirizar os muçulmanos é algo condenável. Ler esse tipo de crítica me entristeceu muito, não porque eu nutra ódio pelos seguidores de Maomé, mas, ao contrário, porque eu os respeito e acredito que essa visão de mundo #jenesuispascharlie seja o cúmulo do etnocentrismo.

Explico-me. Nós, ocidentais, podemos criticar tudo que é nosso e expor o mal que fazemos, mas não temos a coragem ou a capacidade de enxergar o mal nos outros. Demolimo-nos por completo, mas trememos de medo ao dizer que algum país terceiro-mundista ou alguma minoria fez algo de errado. É como se nos considerássemos capaz de lidar com essas realidades, mas negássemos essa capacidade ao Outro. Nós nos enxergamos por inteiro, mas vemos só uma parte dos que estão do outro lado. Nem na idade medieval tínhamos essa presunção, pois se Ricardo Coração de Leão chamava a Saladin de inimigo, ele via nele várias virtudes cavalheirescas, e o recíproco era verdadeiro. Esse tempo passou, porém, e agora temos o monopólio duplo da moral.

Com efeito, no século XIX, o Ocidente tinha o monopólio do Bem, quando pregava o dever do homem branco de catequizar o mundo. Agora, nós nos tornamos melhores e ainda mais superiores, pois temos o monopólio do Mal. Somente nós somos capazes de sermos ofensivos e o resto do mundo é uma criança irresponsável. Assim, finalmente vencemos a batalha civilizacional: tão-somente nós somos potentes para o mal e o resto, bem, o resto é café com leite.

TL;DR: O monopólio do mal é o último estágio do etnocentrismo.

Wassily Kandinsky e o equilíbrio do Universo

A maneira pela qual as coisas acontecem em nossas vidas particulares ou na História do humanidade geralmente leva a duas interpretações opostas: ou as coisas simplesmente acontecem sem nenhuma razão, causa ou propósito, ou todas as nossas vidas são um precioso balé coreografado e orquestrado segundo a música ressonante do Universo.

Se, como os ateus chocantes, vikings marxistas e outros tipos de intelectuais que ganham batalhas de teclados na internet, pensamos que o pensamento humano segue uma evolução mais ou menos linear, então cremos que nos aproximamos cada vez mais da Verdade, conforme a História se desenrola. Isso significaria, portanto, que na Idade Média, o pensamento da Humanidade – ou Ocidental, que quer dizer a mesma coia – ainda estava numa fase adolescente e marcada pela necessidade de auxílio da religião como fonte de explicação para os fenômenos e fatos da vida. Em contraposição, hoje teríamos uma visão mais crítica, racional, materialista e madura do mundo tal qual ele é: o resultado casual de fenômenos que vão e vêm alheios às vontades humanas. Talvez eles estejam certos, mas há duas obras, uma medieval e outra contemporânea, que fogem dessa lógica: “Oh Fortuna” e “Composição VIII”.

“O Fortuna” é um canto que faz parte da coleção Carmina Burana, escrita, talvez, no século XIII por monges goliardos. Esses monges, em sua maior parte, eram filhos sem heranças de nobres que acabavam sendo obrigados a estudar teologia e seguir, sem vocação ou vontade, a vida monástica. Eles eram famosos pelo comportamento deplorável, pelas sátiras e sarcasmos à igreja e por outros atos de zoeira. Céticos e descrentes, eles viam o mundo como um local de vício e vida como uma sem-razão.

“O Fortuna” é uma das canções mais famosas do Carmina Burana. Ela apresenta a deusa romana Fortuna, encarnação do acaso, como a imperatriz que rege o destino do mundo, destronando, portanto, o Deus cristão. A vida, nessa canção, é uma coleção aleatória de coisas boas ou ruins, que vêm sem qualquer relação com o mérito do indivíduo ou com alguma noção de justiça cósmica. Ela foi musicada por um alemão chamado Carl Orff e você certamente já a ouviu, pois ela aparece na abertura do filme do Jackass. Sugiro clicar no hyperlink abaixo, porém, pois ele é mais engraçado lol

O Fortuna

Oh Fortuna,
Como a lua
Variável de estado
Sempre cresces
Ou decresces.
Vida detestável
Agora oprimes
Depois alivias
Como um jogo
A pobreza
E o poder
Dissolves como um gelo.

Sorte monstruosa
E vazia
Gira a tua roda,
Perversa
(…)

A sorte na saúde
E na virtude
Agora me está contrária
Enfraquecido
E sem conforto,
Sempre escravo
Nesta hora
Sem demora
Toca tuas cordas vibrantes,
Que a Sorte
Derruba o forte.
Chorem todos comigo!

Depois dessa visão sem desalentadora do mundo, fui procurar por alguma espécie de consolo. O lugar onde menos esperava encontrá-lo, mas onde o achei em abundância, foi nas obras do período tardio de Wassily Kandinsky.

Kandinsky é o cara que foi homenageado pelo Google na última terça-feira. Ele é mormente conhecido por ter co-fundado o movimento Der Blaue Ritter, (O Cavaleiro Azul), na década de 1910 na Alemanha.  Suas obras tardias são características por unirem, de maneira assustadoramente harmoniosa, formas geométricas e zonas cromáticas para produzir uma composição imensa, complexa e em equilíbrio irretocável.

Ele escreveu um livro chamado “Ponta, linha e superfície”, que nunca foi traduzido e publicado aqui no Brasil, mas que pode ser achado no estrangeiro. Nele, de maneira minuciosa, o pintor analisa os efeitos e as sensações que toda forma plástica causa na mente humana. Isso resulta numa visão de mundo fascinante e cheia de vida e sinestesias. Por exemplo, a cor amarela, segundo Kandinsky, é um cor quente, que aproxima,boa para triângulos e que corresponde à nota Dó, enquanto que a cor azul é mais fria, que afasta e indicada para círculos.  O papel do artista, nesse contexto, é orquestrar os diferentes efeitos de cada forma e cor e ouvir a respiração que cada obra, uma entidade viva, produz. Assim, ele alcançará, a partir do caos, um equilíbrio perfeito e cheio de beleza.

Composição VII, Wassily Kandinsky, 1923. Museu Guggenheim de Nova Iorque.

Composição VIII, Wassily Kandinsky, 1923. Museu Guggenheim de Nova Iorque.

O leitor veja a obra acima. Do aparante caos de cada forma desenhada, Kandinsky realiza um equilíbrio majestoso. Se não acredita, que faça o teste: cubra com seu dedo uma só forma do quadro acima e você verá como toda a obra se desmonta imediatamente.

Em suma, ao contrário dos monges zoeiros, se vermos nossas vidas, o decorrer da História e o andar do Universo como um quadro desses, então veremos que, a partir do caos absoluto e de todas as coisas sem razão aparente e de formas diferentes, é possível alcançar uma harmonia que não só é equilibrada e justa, mas também intrinsecamente maravilhosa, no mínimo, pela sua própria improvável existência. Nesse sentido, ver harmonia no mundo não é covardia intelectual, mas só uma aplicação superior da razão humana.

TL;DR: Comparando Carmina Burana e Kandinsky, você vai quer, quando tudo parece estar perdido, é porque deve haver uma ordem por trás disso. Ou não lol

Isto não é arte

Chegar a uma definição unívoca e universal de arte é uma tarefa impossível. Se apelarmos à etimologia, arte vem do latim ” ars” e significa “habilidade”, “ofício” ou até mesmo “profissão”. Por outro lado, se nos aliarmos a Kant, devemos definir arte como alguma expressão bela e sublime do ser humano em diversos meios, como dança ou literatura. Por fim, nos aproximando do século XX, levando em consideração sobretudo os movimentos Dadá e Surrealista, poderíamos definir arte como qualquer expressão criativa do espírito humano.

Independentemente dessas definições, sempre houve  dualidade entre um valor estético e outro conceitual na arte. Em alguns momentos históricos, houve uma evolução conjunto desses dois valores, mas, com o desenvolvimento de certas tecnologias, como a fotografia, o cinema e o jornal, chegou-se a um consenso de que o valor estético da arte era obsoleto por ser incapaz de superá-las. Em outras palavras, a partir do momento em que se torna impossível, com a pintura a óleo, superar a perfeição de uma fotografia, então deve-se se pensar em outra razão para a arte.

Nesse momento, a arte conceitual começa a ganhar força. Os dadaístas criticavam o público e a crítica que ia às exposições buscando algo que fosse agradar seus sentidos, mas que tinham preguiça demais para aliar inteligência à contemplação e ter que forçar o cocoruto para entender o que estavam vendo. É o que os dadaístas chamavam de “arte para os olhos”, mas que não era arte para a cabeça. Para argumentar e defender esse ponto de vista, essa vanguarda utilizava meios bastantes chocantes, desde xingar um padre e fotografar esse ato, até organizar uma peça de teatro que consistia unicamente em xingar os espectadores até que eles se ofendessem e fossem embora ou arremessassem  comida neles lol.

Quando li sobre a performance “Macaquinhos”, que ocorreu hoje no Centro Cultural São Paulo, esperava ver algo inovador e chocante. A performance consiste em um grupo de nove atores que ficam explorando – examinando, tocando, cheirando, lambendo e não sei o que mais – os ânus um do outro, como pode ser visto neste vídeo deles. Eles apresentam o projeto da seguinte maneira: “desbunde: deboche: degredo: ingênuo: vulgar: arcaico: frágil: intimo: comum: construir uma fisicalidade a partir do cu: brincar de epistemologia do cu: parodiando: Macaquinhos assenta em três orientações: aprender que existe cu: aprender a ir para o cu: aprender a partir do cu e com o cu.”  Eu assisti o realease inteiro e, depois, ainda assisti outros releases de outras versões de “Macaquinhos” e… bem… isso, concluí que isso não é arte, sob qualquer aspecto.

A princípio, achei que os criadores pensassem em fazer uma defesa à liberdade de escolha sexual, mas não há nenhum elemento erótico  ou de defesa social nessa performance. Do ponto de vista estético, eles só alcançaram uma visão mais assustadora e real da Centopéia Humana e a ausência de outros elementos estéticos como coreografia, música e design certamente não impressionam. Por fim, do ponto de vista conceitual, não há nada em “Macaquinhos”que Marcel Duchamp não tenha feito antes e os seus criadores estão atrasados em um século. E, se formos julgar uma obra somente pelo seu valor de choque ou de repulsa, então eu proclamo que o filme alemão “A Melancolia do Anjo”, no qual cenas simuladas de estupro e tortura se misturam a cenas reais de tortura e morte de animais, é um emprego de tempo mais proveitoso. Além disso, a visão de um monte de gente branca não conseguir enxergar nada além de seus próprios ânus não é algo realmente novo.

Me lembrei, então de um artista italiano, o conde Piero Manzoni. Na década de 1960, ele já havia quebrados várias barreiras do pensamento conceitual artístico com duas obras inovadoras: “A Merda do Artista” e “Declaração de Autenticidade”. A primeira obra (não é difícil de descobrir) consiste em latas de aço com pedaços de fezes do artista, enquanto que a segunda é uma série de documentos registrados em cartórios que se declaram como obras de arte para as pessoas que os compraram. Manzoni foi esperto e irônico ao mostrar que era perfeitamente capaz de manipular e brincar com público e crítica e que, enquanto artista, poderia fazer qualquer coisa se passar por arte e ainda sair ganhando com isso. Ao fazer isso, porém, ele não dependeu da reação dos outros, mas a previu e brincou com ela.

Obra de arte criada e certificada por Piero Manzoni em 1962.

Obra de arte criada e certificada por Piero Manzoni em 1962.

Infelizmente, não encontrei nada nisso em “Macaquinhos”. Algumas pessoas comentaram que, se os atores que a fizeram conseguiram qualquer reação do público, então seu objetivo foi cumprido e que isso é arte. Bem, nesse caso, eu devo ter perdido o momento em que arte passou a ser definida nas colunas de fofocas.

TL;DR: Quer ver uma versão real da Centopéia Humana? Clique no link no corpo do texto.

O que nos espera agora?

Após um hiato de um mês, o sem-número de cartas que recebi pedindo minha volta ao blog ficou tão volumoso que meu prêmio Pullitzer já nem servia mais de peso de papel e me vi obrigado a voltar teclar aqui. Aos curiosos sobre minha ausência, eu me justifico: passei os últimos trinta dias tentando entender o que, de Norte a Sul, aconteceu neste país e o que o nosso povo, nos dois turnos de votação, pretendia fazer. Após meu cérebro ferver e cozinhar como um missoshiro, cheguei -ou melhor, fui arrastado- à conclusão de que há coisas que só podem ser lamentadas, mas jamais compreendidas.

Curiosamente, tive essa conclusão quase simultaneamente com a festa de Halloween -ou festa do Saci, o que for menos problemático- e com o dia de Finados. Comecei a pensar o quanto a Política e a Morte têm em comum: ambas são inevitáveis, ambas levam ao Céu ou ao Inferno e, pelo visto, elas só podem ser lamentadas pelo ser humano. Pensando nisso, e amparado no clima assustador que se vê no país atualmente (refiro-me aos enfeites de Halloween!) decidi apresentar aqui duas canções sobre o pós-vida: a primeira apresenta o inferno como morada final, enquanto que a segunda aponta para o Paraíso.

Quand Je Menais mes Chevaux Boire, sugestão de uma amiga musicista, é uma canção tradicional francesa  do século XVIII, composta na região da Normandia. Ela fala sobre como a morte é inevitável e imprevisível e sugere a existência humana como fatalmente fora do controle -e da compreensão- das pessoas.

Quand je menais mes chevaux boire

Quando levei meus cavalos para beber água
Eu ouvi o cuco cantar
Ele me dizia na sua língua

Ele me dizia na sua língua:
“Tua bem amada vão enterrar.”
Ah! Que dizes, besta malvada?
Eu estava ao lado dela ontem à noite!

Mas, quando eu fui ao campo,
Ouvi os sinos tocarem.
Mas, quando eu fui à igreja,
Ouvi os padres cantarem.

Dei um chute no caixão:
-Desperta-te, se tu dormes!
-Não, eu não durmo e nem estou sonhando,
Eu te espero de dentro do inferno.

Veja, minha boca está cheia de terra
E a tua está cheia de amor
Ao meu lado resta um lugar
E para ti que o estão guardando.

Dia da Morte, de Carlos Schwabe, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Por trás dos véus, ele não pode ser previsto e nem compreendido inteiramente.

A segunda canção chama-se “Will the Circle be Unbroken?” (O círculo será refeito?) e foi composta nos Estados Unidos da América em 1907 pela missionária inglesa Ada Habershon. Ela fala sobre a separação entre os mortos e os vivos, mas apresenta uma perspectiva muito mais positiva que a canção normanda acima:

Will the Circle be Unbroken?

Há pessoas amadas na Glória
De cujas queridas formas tu amiúde sentes saudades
Quando encerrares tua história terrenal,
Tu te juntaras a eles no júbilo?

O círculo será refeito
Aos poucos, aos poucos?
Há uma morada melhor aguardando
No Céu, no Céu?

Nos dias alegres da infância
Sempre falavam de amores maravilhosos
Apontados ao Salvador moribundo;
Agora eles moram com Ele lá em cima,

Tu te lembras das canções do Paraíso
Que cantavas com voz de criança?
Tu amas os hinos que te ensinaram,
Ou canções mundanas são tua escolha?

Tu podes recriar encontros alegres
Em volta do fogueira, há muito tempo?
E tu pensas nas despedidas cheias de lágrimas
De quando eles te deixaram aqui embaixo?

Um a um, seus assentos se esvaziaram.
Um a um, eles foram embora.
Agora a família está partida.
Ela será completada um dia?

O círculo será refeito
Aos poucos, aos poucos?
Há uma morada melhor aguardando
No Céu, no Céu?

Se o leitor chegou até aqui, imagino que ele gostaria de saber que o vídeo que hyperlinkei acima foi retirado do game Bioshock: Infinite. Sim, mencionei esse jogo neste outro post. Se o leitor, por outro lado, se pergunta por que este post não possui (tantas) piadas e infantilismo quanto os outros que ele encontra aqui, a resposta é simples: não há nada para rir aqui, só coisas para lamentar.

TL;DR: As duas canções são sobre o pós-vida, mas uma é o contrário da outra. O quadro é simbolista e fala sobre a incompreensão da existência. Não deu para entender direito? Bem, há muitas coisas assim aqui.

O MASP em agonia

O MASP é uma joia encravada no coração de São Paulo e largamente ignorado pela população, pelo menos em proporção à sua importância. O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand é o mais importante museu de arte  européia do Hemisfério Sul e, entre suas 8 mil obras, pode-se contar obras primas de Botticelli, El Greco, Goya, Velázquez, Delacroix, Renoir, Monet, Cèzanne, van Gogh, Toulouse-Lautrec, Rubens, Rembrandt, van Dyke, Manet, Degas (incluindo esculturas), Rodin, Picasso, Duchamp, Ernst, Miró, Vitor Meireles, Anita Malfatti, Portinari, di Cavalcanti, Lasar Segall, Benedito Calixto, Tomie Ohtake, Diego Rivera, Andy Warhol, arte africana e asiática e, por fim, artistas contemporâneos e obras de fotografia. Não é pouca coisa e, de fato, é muito comum encontrar turistas surpreendendo-se com o acervo.

Apesar disso, a agonia do MASP é aparente. A pungência de sua obra, adquirida com esforços que beiravam a insensatez de seus criadores – Pietro Maria Bardi, marido da arquiteta Mario Bo Bardi, chegou a financiar R$ 5 milhões da família Rockfeller para poder adquirir novas obras para o acervo –  e a generosidade das famílias que continuam a doar obras e dinheiro para a instituição não são suficientes para injetar recursos no museu. Afundado em R$ 10 milhões de dívidas, o MASP não consegue pagar nem o salário de todos seus funcionários. Na verdade, o museu não consegue nem abrir exposições temporárias: as duas exposições atualmente em cartaz são só reposicionamentos de seu acervo permanente…

Na última vez que entrei no museu, ainda este ano, fui esperançoso de vê-lo vibrante e lotado de pessoas, a exemplo de outras exposições em São Paulo, como na mais recente de Yayoi Kusama e das últimas exposições do MIS. Quando me aproximei do museu, vi uma multidão debaixo do seu vão e supus que haveria um grande demanda para entrar nele.

As pessoas estavam reunidas lá somente para trocar figurinhas da Copa do Mundo 2014, no entanto. Enquanto me divertia imaginando a inclusão de cromos do Museu do Índio, de obras cívicas inacabadas ou dos protestos de 2013 no álbum, sem encontrar nenhuma fila, comprei um ingresso e subi para o MASP, fisgado pela exposição “Passagens por Paris”.

Comecei em sentido cronológico inverso, vendo primeiro as obras do século XX. Logo me dei conta de que “Passagens por Paris”, como mencionei acima, era só a relocalização de obras do acervo permanente do museu, o que me abriu os olhos para as dificuldades pelas quais a instituição está passando. De qualquer maneira, segui com passo lento pelos corredores quase vazios do museu, sendo ocasionalmente interrompido por algum turista estrangeiro comentando em sua língua-mãe as obras expostas. Muitas obras me causaram forte impressão, como Moema de Vítor Meireles, assombrosamente significativa em tempos de Altamira, e Rosa e Azul, de Renoir, que transmitia a alegria e a tranquilidade de um tempo já esquecido. Um retrato histórico, no entanto, foi o que mais me marcou.

Retrato do Conde-Duque de Olivares (1624) por Diego Velázquez

Retrato do Conde-Duque de Olivares (1624) por Diego Velázquez

No começo do século XVII, quando a Espanha era potência hegemônica global e era dona de territórios em todo o mundo conhecido, e inclusive do Brasil, por meio na União Ibéria, o Conde-Duque de Olivares era um Grande da Espanha e valido de Sua Majestade o rei Felipe IV. Ele foi primeiro ministro do império espanhol, o que significava que, em termos práticos, ele tinha o maior peso em decidir o futuro da Espanha e, por conseguinte, da História ocidental. Ele era, de fato, a pessoa mais poderosa e temida no mundo, naquele momento, pois, com uma ordem sua, convencia o rei a mandar os tercios espanhóis conquistar qualquer terreno, fosse nas Américas, na Holanda ou nas Filipinas.

Lá no MASP, porém, seu retrato era um dos mais ignorados do museu. Os turistas passavam rapidamente lá e só paravam para observá-lo se se davam conta de que foi Velázquez quem o pintou. Demorei-me um pouco observando esse personagem e todos os símbolos que ostentavam seu poder: roupas finais, a cruz da Ordem militar de Santiago, a have de governador e homem político, o bigode de aristocrata. Nada mais disso impressionava ninguém e seu olhar, agora tão vazio, parecia olhar com melancolia para o nada. Enquanto me perguntava se aquele também seria o destino do museu que abrigava seu retrato, não pude tirar um soneto de um contemporâneo seu, Francisco de Quevedo, da minha cabeça:

Miré los muros de la patria mía

Olhei os muros da pátria minha
Se um tempo fortes, já desmoronados
Pela corrida dos anos cansados
Por quem caduca já sua valentia.

Subi ao campo; vi que o sol bebia
Os arroios do gelo desatados
E, do monte, queixosos os gados
Que, com sua sombra, rouba sua luz ao dia.

Entrei em minha casa, vi que, manchada,
Da antiga habitação era os despojos;
Minha bengala, mais curva e menos forte.

Vencida pela idade senti minha espada,
E não achei coisa em que pousar os olhos
Que não fosse recordação da morte.

TL;DR: Quem dera tirar selfies no MASP estivesse na moda, ou que alguém fizesse lá um rolezinho.